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Editor Responsável:
João Seabra Botelho
Colaboram:
Luis Furtado
Francisco Moraes Sarmento
«banner» de
João-Pedro Rocha
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Mohammed Arkoun na Tertúlia
«Repensar o Islão, hoje»
(excertos)
Mohammed Arkoun
O Islão é, para todos nós, relevante históricamente. Contudo, ao mesmo tempo, a nossa compreensão sobre o Islão é tristemente inadequada. Há necessidade, portanto,
de encorajar e concretizar um repensar fecundo do Islão, hoje. O chamado «revivalismo Islâmico» tem monopolizado o discurso sobre este tema; os cientistas sociais,
todavia, não prestam atenção ao que eu chamo o «Islão silencioso» - o Islão dos verdadeiros fiéis, que atribuem muito mais importância à sua relação religiosa com
o absoluto Divino que a veementes demonstrações de movimentos políticos. Refiro-me aqui também ao Islão de pensadores e intelectuais que enfrentam grandes dificuldades
ao tentarem intervir com uma abordagem crítica num espaço social e cultural que, hoje, é totalmente dominado por ideologias militantes.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Descartes na Tertúlia
Excertos de “Princípios da Filosofia”
e da "Carta ao Abade Picot"
Renato Descartes
…Podemos considerar que a utilidade desta filosofia, visto que ela se estende a tudo o que o intelecto humano pode considerar,
é a de que só ela nos distingue dos mais selvagens e bárbaros; e que cada nação é tanto mais culta e evoluída quanto melhor souberem, aí,
filosofar; o maior património de um Estado é o saber dos seus verdadeiros filósofos.
E, para cada homem em particular, não é apenas benéfico o convívio com quem cultive este saber, mas é incomparavelmente mais
proveitoso que se dedique ele mesmo ao filosofar, tal como vale muito mais que alguém se sirva dos seus próprios olhos para se guiar
e apreciar a beleza das cores e da luz, que mantê-los fechados e seguir os passos de outro. Viver sem filosofar é, de facto, manter os
olhos fechados e nunca tentar abri-los.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
René Guénon na Tertúlia
Esoterismo Islâmico
René Guénon
1. Shari'ah, Tariqak, Haqiqah
De todas as doutrinas tradicionais talvez seja a doutrina Islâmica aquela que mais claramente distingue as duas componentes que a constituem, e entre si se complementam, e
que podemos nomear por exoterismo e esoterismo. Na terminologia Arábica, elas designam-se por shari'ah, literalmente «o grande caminho», que é comum a todos, e a
haqiqah, literalmente «a verdade interna», esta restrita àqueles que, não por qualquer decisão arbitrária, mas pela sua natureza própria, possuem as qualidades ou
aptidões que lhes permitem atingir o conhecimento da verdade.
Para ilustrar as suas respectivas naturezas, «externa» uma, «interna» a outra, o exoterismo e o esoterismo são frequentemente comparados à «concha» (qishr),
e ao «cerne» (lubb), ou à circunferência e ao seu centro.
A shari'ah abarca tudo o que, nas línguas Ocidentais, designaríamos por «religioso», incluindo específicamente tudo o que concerne às áreas social e legal que,
no Islão, estão essencialmente integradas na religião. Poderá então dizer-se que, acima de tudo, a shari'ah é uma norma de acção, enquanto que a haqiqah
é saber puro; mas deverá perceber-se com clareza que é este saber que dá à shari'ah o seu mais alto e profundo sentido, a sua razão de ser, pelo que, mesmo para aqueles
que praticam a shari'ah sem se aperceberam claramente da haqiqah, é esta o seu verdadeiro princípio, do mesmo modo que o centro é o princípio de
toda a circunferência.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
O Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai
Convénio de Imunidade
entre o Profeta Muhammad e os Monges do Mosteiro de Santa Catarina
Nota:O Mosteiro de Santa Catarina do Sinai (Egipto) está localizado no sopé do Monte Moisés, no Sinai.
Foi construído por ordem do Imperador Justiniano, a partir de 527 d.C., e
edificado em redor de uma pequena
capela que marcava o local onde o Profeta Moisés deparou com a Sarça Ardente. Um monge do Sinai teve, certo dia, uma visão do
local onde se encontrava o cadáver de Santa Catarina, mártir cristã, e tendo, de facto, sido encontrados, no mais alto pico da montanha do Sinai,
não longe do Mosteiro, os restos mortais da Santa, o seu nome ficou para sempre ligado ao Mosteiro.
O Mosteiro, de monges gregos ortodoxos, é um dos mais conhecidos do mundo, e está repleto de importantíssimos documentos e peças de grande
antiguidade e valor. O seu mais importante espólio, contudo, é o acervo de manuscritos com iluminuras, o segundo maior do mundo, apenas ultrapassado
pelo Vaticano, e que consiste em cerca de 3.500 manuscritos redigidos em Grego, Copta, Arábico, Arménio, Hebreu, Siríaco e ainda textos Eslavos e em
outras línguas. No seu interior foi também edificada uma pequena mesquita Fatimida. O Mosteiro está rodeado de formidáveis muralhas, que durante 14
séculos se mostraram instransponíveis e capazes de resistir a qualquer adversidade.
Em 625 d.C. os monges do Mosteiro de Santa Catarina foram visitar o Profeta Muhammad, em Medina,
a quem solicitaram protecção. Este pedido foi aceite e o Mosteiro recebeu depois, ditado e enviado pelo próprio
Profeta, o documento com o teor do convénio - Ahad-nama, ou «convénio de imunidade»
- que a seguir se traduz. Os Judeus, os Cristãos e os seguidores de
Zoroastro são referidos, no Corão, como «o Povo do Livro», aqueles que
seguiam Profetas e Mensageiros enviados por Deus, e a todos eles o
Profeta atribui os direitos que estão exarados
neste documento.
Henry Corbin na Tertúlia
A Imaginação
Activa
excerto adaptado de «Alone with the Alone»
Basta-nos a simples palavra «sufismo» para que nos seja permissível entender o conceito de «imaginação»
num contexto específico. Neste contexto, a imaginação não terá o seu significado usual; não significará fantasia, profana ou outra,
nem será o orgão responsável pela produção de imagens identificadas com o irreal; nem, tampouco, estaremos a
entendê-la como a faculdade que produz as criações estéticas. Não. Estaremos a falar, sim, de uma função completamente
básica, correlacionada com um universo que lhe é peculiar, um universo dotado de uma existência perfeitamente «objectiva»
e percepcionado exactamente por essa Imaginação.
Nos dias de hoje, com a ajuda da fenomenologia podemos examinar o modo como o homem experiencia a sua relação com o mundo sem
reduzirmos ou restringirmos os dados objectivos dessa experiência a dados meramente sensitivos, e sem limitarmos o campo
do conhecimento intelectivo às restritas operações da mente racional.
Libertos, assim, de um velho impasse, pudémos aprender a registar e percrustar com proveito as intenções
implícitas em todos os actos da consciência e da transconsciência. Consequentemente, dizer que a Imaginação
(ou o amor, ou a simpatia, ou qualquer outro sentimento) induz conhecimento, e conhecimento de um
«objecto» que lhe é próprio, já não nos soa a paradoxo!
Contudo, uma vez admitido o pleno valor e sentido noético da Imaginação, será aconselhável livrar a
Imaginação dos parênteses nos quais seria enclausurada por uma interpretação exclusivamente fenomenológica,
se quisermos, sem correr o risco de equívocos, relacionar à função imaginativa a visão do mundo proposta
pelos Espiritualistas que aqui pretendo invocar.
Para eles, o mundo é «objectivamente» e na realidade triádico: assim, entre o universo que pode ser
apreendido pela pura percepção intelectual (o universo das Inteligências Querúbicas) e o universo perceptível
pelos sentidos, existe um mundo intermédio, o universo das Ideias-Imagens, das entidades arquetípicas, das
substâncias subtis, ou, se quisermos, da «matéria imaterial». Este mundo é tão real e objectivo, tão consistente e
subsistente como os mundos inteligível e sensível; é um universo intermédio « em que o espiritual toma corpo
e o corpo se torna espíritual », um mundo composto de matéria real e extensão real, embora estas, por comparação com
a matéria corruptível do mundo sensível e sua extensão, se apresentem subtis e imateriais.
O orgão cognitivo deste universo é a Imaginação activa; aí é o lugar em que acontecem as visões teofânicas,
o horizonte em que os eventos visionários e as histórias simbólicas aparecem na sua verdadeira realidade.
Mas para referir este universo não poderemos usar a palavra «imaginário», pois este termo, na sua ambiguidade
actual, lança um prejuízo ou preconceito sobre a realidade atingida ou a atingir pela Imaginação, escondendo, e denotando afinal a
crua incapacidade de lidar com este imediatamente intermédio ou intermediário mundo.
Também recusamos, para este conhecimento, o ápodo de «sincretismo»; neste se insinua a fácil e rasteira
explicação que só satisfaz e atrai a mente dogmática, inquieta e alarmada com as operações de um pensamento que obedece
apenas aos imperativos da sua norma interna, mas em que esta, apesar do seu carácter personificado e pessoal, nunca menospreza ou impede
o rigor que o pensamento deve assumir; como tal, essa explicação não pode ser consentida; mas, se o for, esse consentimento significa
e manifesta o
fracasso, a incapacidade de chegar sequer a um vislumbre dessa norma, que nunca poderá reduzir-se a conformidades de escola
ou de outra qualquer entidade colectiva, ou mesmo da mais vetusta «tradição»...
Ao que julgarem descabido falar de «espiritualidade» num texto sobre Imaginação, lembramos de novo que se trata da
Imaginação activa, que é essencialmente criativa e teofânica. Antecipamos, porém, uma questão latente:
Muita da experiência mística, ou espiritualidade, não tende a rejeitar as imagens, não insiste em dissipar todas as formas
ou figuras representativas? Certamente que sim; alguns mestres, de facto, rejeitaram de forma implacável e extreme toda a
representação imagética, todo o recurso a imagens. Aqui, porém, o que estamos realmente a desenvolver é uma operativa
utilização das imagens e da Imaginação, num percurso individuado de experiência espiritual. Essa mesma experiência irá desvendar a sua
coerência e estrutura interna, que desde logo está subjacente à mais inicial percepção do universo intermédio.
Delfim Santos na Tertúlia

Heidegger e Holderlin
ou a essência da Poesia
Separata do nº4 da Revista de Portugal, 1938
Este pequeno trabalho é um ensaio de aproximação, em português, a um estudo de Heidegger sobre a essência da Poesia. Chamamos-lhe ensaio
de aproximação porque mais não seria possível que fosse. Um pensador ou um poeta que use como meio de expressão uma língua eslava ou germânica
não deixará nunca revelar a sua autêntica grandeza quando traduzida numa língua românica, sobretudo quando esse poeta ou pensador, como no caso
presente, é personalidade de forte originalidade. Esta dificuldade tem sido muitas vezes enunciada e outras tantas sentida, mas quase sempre se
motiva em razões de ordem linguística. Todavia não é disto que se trata quando nos referimos a obras de pensamento. Uma língua é muito mais do
que um meio de expressão. Uma língua tem em si limites que não pode ultrapassar: ela delimita e condiciona a manifestação das
possibilidades do pensamento de um povo ou dos povos que a falam. São dois aspectos correlativos: não há linguagem sem pensamento e não há
pensamento sem linguagem, e o desenvolvimento de ambos é condição recíproca. Não há filo-sofia sem filo-logia, como também e recíprocamente não
há filo-logia sem filo-sofia.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Edward Gibbon na Tertúlia
«A PENA DE ZALEUCO»
excertos da obra
O Declínio do Império Romano
Foi de forma quase silenciosa, sem alarido nem proclamações, que os estudiosos conseguiram que a Razão Pública dos Romanos fosse transferida
e aplicada frequentemente nas instituições de quase toda a Europa. Ainda hoje, como o podem reconhecer e confirmar os juristas sabedores, as
leis de Justiniano instilam o respeito e recebem a obediência de várias nações soberanas.
Sábio, ou afortunado, é o príncipe que liga a sua reputação ao interesse e honra de uma tão longa linhagem de humanos.
Dessa linhagem receberá sempre zelosos encómios, os seus defeitos serão sempre piamente ocultados ou esquecidos. Mas essa crescente
idolatria pode também criar a reacção oposta, e da oposição de alguns a esse interesse e honra virá o rancor ao carácter de Justiniano,
que foi exposto nos seus aspectos negativos e levou alguns a negarem qualquer mérito ao príncipe, aos seus ministros e às suas leis.
È sobejamente conhecida a história das Doze Tábuas das Leis de Roma, registadas em cobre, ou madeira, ou marfim, pelos Decemvirs.
Ditadas pela aristocracia que tinha relutantemente acedido a justas exigências do povo, as tábuas adaptavam-se à vida urbana, ao estado
e à cidade, e permitiram aos Romanos sair definitivamente do barbarismo, já que foram capazes de nelas coligir as normas e instituições
dos seus vizinhos mais esclarecidos.
Hermodorus, um habitante da cidade de Éfeso, soubera inspirar os legisladores de Roma com os conhecimentos que detinha das formas
de organização e de civilidade dos muitos povos e cidades que visitara. Com essa preclara colaboração, ganhou uma estátua de homenagem
perene no forum do Senado.
Também as colónias da Grande Grécia tinham trazido consigo, e melhorado, as artes de governação e sabedoria política vigentes na
sua terra mãe. Cuma e Regium, Crotona e Tarento, Agrigento e Siracusa estavam no patamar das mais florescentes cidades. Os discípulos de
Pitágoras aplicavam a sua filosofia na arte da governação; as leis não escritas de Carondas aceitavam a intervenção benévola da poesia
e da música, e Zaleuco deu forma à Republica dos Locrianos, que sobreviveu sem alterações por mais de dois séculos.
Por motivo de algum orgulho nacional, tanto Livio como Dionisio quiseram acreditar e fazer crer que representantes de Roma tinham
visitado Atenas quando esta se encontrava sob a sábia e esplêndida governação de Péricles; e as leis de Sólon foram transcritas para as
doze tábuas. Mas se uma tal embaixada dos Bárbaros da Hespéria tivesse realmente sido recebida em Atenas, o nome dos Romanos teria sido
familiar aos Gregos antes do império de Alexandre, e a mínima evidência desta visita teria sido explorada e celebrada pela curiosidade
Ateniense, nos tempos que se lhe teriam sucedido. Contudo, os monumentos de Atenas mantêm-se em silêncio; e tampouco parece plausível que
os patrícios Romanos tivessem tomado a iniciativa de efectuar uma viagem tão longa e perigosa apenas para copiar o mais puro modelo
da democracia.
Podem-se encontrar algumas semelhanças entre as tábuas de Sólon e as dos Decemvirs, mas é casual; algumas dessas leis comuns a
ambas foram, afinal, adoptadas em todas as sociedades, por serem fruto da natureza e da razão humanas; outras, apenas evidenciam uma
origem comum, quer do Egipto quer da Fenícia.
No entanto, no cômputo geral, os legisladores de Roma e Atenas parecem ser estranhos ou adversos uns aos outros.
Sobre a notável sabedoria que se encontra exarada nas Doze Tabuas, cuja leitura era recomendada por Cícero apenas por ser educativa
e agradável, afirmou Tulio: “A sabedoria dos nossos antepassados é admirável. Só nós somos mestres na jurisprudência civil, e a nossa
superioridade ainda mais se destaca se lançarmos um olhar sobre a rude e quase ridícula jurisprudência de Draco, Sólon ou Licurgo.”
As Doze Tábuas resistiram durante séculos, sobreviveram às chamas dos Gauleses, e ainda subsistiam na era de Justiniano;
a sua perda foi imperfeitamente colmatada pelos modernos estudos históricos.
Mas embora estas veneráveis tábuas fossem consideradas a fonte e base da justiça, ao fim de cinco séculos estavam quase soterradas
sob uma enorme quantidade de leis novas, que se tinham tornado, para a boa aplicação da Justiça, num peso e num obstáculo ainda maior
que todos os vícios da Cidade.
Mais de três mil placas de cobre estavam depositadas no Capitólio, e algumas dessas leis, como a de Juliano
contra a extorsão, tinha mais de cem artigos.
Os Decemvirs tinham-se esquecido de introduzir a pena de Zaleuco, que durante tanto tempo mantivera a integridade da sua republica,
a coesão e simplicidade das suas leis. De facto, qualquer cidadão Locriano que propusesse uma nova lei, teria de o fazer ficando de pé,
face à Assembleia do Povo, com uma corda atada ao pescoço; caso a sua proposta de lei fosse rejeitada, o proponente seria
enforcado naquele mesmo instante.
Abel de Lacerda na Tertúlia
A ILHA DOS AMORES EM
“OS LUSÍADAS”
É REAL? OU IMAGINÁRIA?
A popularmente chamada “Ilha dos Amores” concebida e descrita por Luiz Vaz de Camões
no seu poema épico “OS LUSÍADAS” é uma Ilha real existente no Oceano Atlântico ou Índico? Ou pelo contrário,
é uma “Ilha imaginária” criada e liricamente cantada e descrita por Camões?
Ou ela é mais do que imaginativa, e é uma “Ilha” no “Centro do Mundo”, um “Templo de sabedoria cósmica”, em
que o “mistério da essência humana” está “encerrado” “escondido” “guardado” ou mesmo “eternizado? E de acesso de
conhecimento só para “espíritos escolhidos”?
Será que a “chave que abre a porta dessa Ilha” é o verdadeiro objectivo e essencial do poema? Aquele “secreto
segredo sacro” que possibilita ao “Peito ilustre Lusitano” por “obras valerosas da lei da morte se ir libertando”?
Será que “nessa Ilha Angélica pintada” criada por Camões, está “situado o TRONO DA VERDADE? A “essência da vida”?
Será que essa “essência” é o grande protagonista de todo o poema? Aliás, a quem é que o poema é verdadeira e
esotéricamente destinado? Será, que em lugar de chamar-se a essa ilha, a “Ilha dos Amores”, não deveríamos antes
chamar-lhe A ILHA DO AMOR? A ILHA DO PURO AMOR?
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
António Telmo na Tertúlia
O pensamento iniciático de José Marinho
in
Revista de Cultura Portuguesa, nº1
As raras referências à obra de José Marinho, o não aparecimento de estudos sobre um dos maiores filósofos do século XX, podem ter origem na
dificuldade em compreender o que ele escreveu, se a hostilidade ou a indiferença que a filosofia defronta entre nós não forem suficientemente
explicativas. O leitor sente-se impotente perante um livro como a «Teoria do Ser e da Verdade» e, vencido logo no início, não chega a
encontrar o ritmo requerido de lucidez, certamente alcançável se não houvesse a má vontade da inteligência. A «Teoria» aparece assim como
uma montanha inacessível na planície acidentada do pensamento português. O próprio autor, em vida, não escondia, no silêncio generoso e amável, a decepção
de ver sem eco fundo a filosofia que concebeu da nuvem e do raio do seu assombroso espírito. Generoso e amável, porque pensava que uma longa, demorada,
dificílima iniciação, para a qual poucos têm vocação e paciência, se requer para compreender todo o pensamento filho da viagem.
«Suspensos ante o véu da alma, os que admitem ou diversamente crêem no sentido do ser sem verdade, na imortalidade insciente ou na mortalidade
opaca, não conhecem a paciência de esperar os momentos em que o véu se entreabre, revelando as profundidades do encoberto e do mesmo encobrir».
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Louis Lavelle na Tertúlia
Da sinceridade, ou o retorno à origem
Excerto de
«L'erreur de Narcisse»
Logo que começo a agir, a minha vida fica encerrada numa situação; e carrega o peso do seu passado; e mil forças começam a retê-la; ela é
um movimento no qual me encontro preso e de que não sei se estou a padecê-lo ou a produzi-lo.
Mas a sinceridade recusa todas essas solicitações que me pressionam e obriga-me a descer até ao coração de mim mesmo. A sinceridade é
sempre um retorno à origem. Ela faz-me um ser em perpétuo renascimento.
A sinceridade liberta-nos de qualquer receio quanto a opinião ou consequência. Ela leva-nos à origem de nós-mesmos e, perante
os nossos próprios olhos, desvela-nos, tal qual somos ao sair das mãos do criador, no primeiro assomo de vida, antes que as aparências exteriores
nos tenham seduzido ou que tenhamos inventado qualquer artifício.
A sinceridade mostra-nos como somos, e não num retrato que seria ainda exterior a nós-mesmos. Ela não carece de garantia ou confirmação. Ela é
aquela perfeita clareza do olhar que anula toda e qualquer sombra entre mim e ti,
que anula qualquer sombra de um olvido, ou a sombra de um desejo; a
sinceridade é aquela verticalidade do querer que não nos deixa espaço para qualquer desvio, para nenhuma escapatória nem nenhuma reserva
mental.
Finalmente, a sinceridade é a perfeita nobreza interior. O homem sincero apenas pede para viver sob o céu livre. Ele é o único que tem
suficiente ombridade para nada dissimular de si, para nada esperar senão a verdade, para não se contentar com aparências, para se firmar
tão intimamente no ser que não se distingue mais para si do que que para aqueles a quem aparece.
Sob o olhar de Deus
A sinceridade é o acto pelo qual me meto a mim próprio sob o olhar de Deus. Nenhuma sinceridade se pode encontrar fora dele. Pois, para
Deus, já não há mais espectáculo nem mais aparências. Ele é a pura presença de tudo o que é. Portanto, quando me viro para ele, nada mais
conta em mim do que o que sou.
Deus não é apenas aquele olho sempre aberto a que nada posso dissimular do que sei sobre mim próprio, mas é também aquela luz que atravessa
todas as trevas e torna possível que eu me revele tal qual sou, a mim próprio, sem que eu antes soubesse que o era. O amor-próprio que me
ocultava de mim mesmo é como uma veste que cai de um golpe. Um outro amor, que agora me envolve, torna a minha alma transparente.
Durante todo o tempo que a vida persiste em nós, vamos ainda guardando a esperança de mudar o que somos, ou de o esconder. Mas logo que a nossa
vida é ameaçada ou está prestes a terminar, só realmente o que somos tem ainda valor. Só perante a morte somos totalmente sinceros, porque a morte
é irrevogável e transmite à nossa existência, que ela colhe, o verdadeiro selo da absoluteidade.
E imaginamos na morte o olhar de um juiz a que nada escapa, o qual, mal ela ocorre, se apercebe imediatamente da verdadeira natureza da nossa
alma, até aos seus mais íntimos resquícios. E que significa esse olhar senão a impossibilidade, aí onde já estamos, de algo acrescentar ao que fizémos,
de nos evadirmos do que somos para um futuro novo, ou de separarmos o que é o nosso ser real do que é o nosso ser aparente para, no momento em que a
vontade fica paralisada, ou de beijarmos contemplativamente esse ser agora completado, e que, até aí, mais não fora que um esboço sempre carecido de
algum retoque?
Na sinceridade, não basta invocar Deus como testemunha, temos de o invocar também como modelo.
A sinceridade não é apenas vermo-nos na nossa luz própria, mas também realizarmo-nos segundo a sua vontade. Que sou eu, senão o que ele
me pede que seja?
Mas uma distância infinita não se revela já em mim, entre o que faço e essa possibilidade que está comigo, em relação à qual o meu único
vínculo é o de a concretizar? Ora, quanto a isso, não paro de fraquejar e, na medida mesma em que nisso falho, mais não sou para mim, ou para os
outros, que uma aparência dissolúvel que qualquer sopro dissipa, e que a morte abolirá.
Eis, então, o verdadeiro sentido que deve ser atribuído às seguintes palavras:«Quem, neste mundo, corar por minha causa, por ele eu corarei,
diante de meu Pai. Quem, neste mundo, me reconhecer, eu reconhecê-lo-ei diante de meu Pai. Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade».
(tradução
de João Seabra Botelho)
Abel de Lacerda na Tertúlia
Causas da oposição do
«Rei do Vinho - Baco»
à epopeia dos Lusos
Comunicação à Secção «Luís de Camões»
da «Sociedade de Geografia de Lisboa»
pelo sócio Abel de Lacerda Botelho Abril de 2013
CAPITULO I
Porque é que BACO se quis opor à Viagem de Vasco da Gama à Índia? Qual a causa de tanto receio, de tanto medo, de tanto
ódio que levou BACO a opor-se ao êxito da gente Lusa? O que é que o levou, inclusive em dois consílios dos deuses, a tentar que
Júpiter e Neptuno não permitissem ao Gama chegar à Índia???
Porque é que “O Rei do Vinho – BACO” queria impedir à Gente Lusa, aos seus Barões assinalados, ao Rei de Portugal, que eles
fossem expandir por todo o orbe terrestre, a Fé e o Império?
Porquê?
Claro que Luís de Camões conhecia essas razões. E não fugindo a tal “drama”, que poderia ter redundado em verdadeira “tragédia”,
descreve-nos em “Os Lusíadas” - embora através de certo “ocultismo” - quais as intenções de Baco que o levaram até a tentar opor-se
ao próprio Júpiter e, já em “causa de desespero”, a pedir auxílio a Neptuno, que convocasse um segundo consílio dos deuses.
Na verdade, se os Lusos sempre foram “fiéis” e “bons servidores de Baco”, como, e porquê, este deus do Olimpo estava revoltado,
e queria a todo o custo fazer obstáculo e impedimento, a que os Portugueses descobrissem o caminho marítimo para a Índia, e “entre
gente remota edificassem novo Reino que tanto sublimaram”?
Se a Gente Lusa (e seus descendentes e aderentes) sempre foram dos “melhores fiéis” que Baco teve, porque é que Baco os quis prejudicar,
e tão mal tratar?
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Martin Lings na Tertúlia
A linguagem e a alma
Excerto de
" The Underlying Religion:
An Introduction to the Perennial Philosophy"
Nota: Por vezes, a Tertúlia tem convidados... Esses convidados
nem sempre podem participar de viva voz; mas podem, sempre, participar de viva inteligência! Martin Lings (1909 - 2005), práticamente
desconhecido em Portugal, conviveu com René Guenon e Frithjof Schuon e é o autor da mais notável biografia, em língua Inglesa,
do Profeta do Islão, biografia intitulada: "Muhammad: His Life Based on Earliest Sources",
livro cuja publicação em Portugal se justificaria plenamente, para colmatar um vazio de informação lamentável e perverso,
tendo em conta que as primeiras gerações desta Pátria guardaram, nos alvores da sua memória milenar,
uma vivência histórica profundamente enraizada nos primeiros e vibrantes séculos da expansão Islâmica.
Todas as línguas de que temos conhecimento são uma forma degradada de alguma língua mais antiga, ou até arcaica, e quanto mais recuamos
no tempo, mais impressionante se mostra o poder da fala humana. Mostra-se também mais complexa, de tal forma que as mais antigas linguagens,
aquelas que são muito mais remotas que a própria História, são mais subtis e elaboradas na sua estrutura, exigindo maior concentração e
presença de espírito ao falante do que qualquer das mais recentes.
A passagem do tempo tende sempre a diminuir cada uma das palavras tanto na forma como na sonoridade, enquanto a gramática e a sintaxe
se vão progressivamente simplificando. Mas embora o tempo tenda a despojar as linguas da sua qualidade originária, também é verdade que
todas as línguas têm, em termos quantitativos, todo o vocabulário que é necessário aos seus falantes.
Um amplo acréscimo de objectos materiais, por exemplo, irá implicar um aumento proporcional do número de substantivos. Mas enquanto
que, nas línguas actuais, as novas palavras têem de ser cunhadas artificialmente e acrescentadas, do exterior, no seio da linguagem
corrente, das línguas mais arcaicas que conhecemos podemos afirmar que possuem, para além das palavras em utilização corrente, milhares
de outras palavras não usadas que, se tal for desejado, podem ser produzidas, por assim dizer, orgânicamente, graças a uma quase ilimitada
capacidade de formar palavras que é inerente à própria estrutura da linguagem.
A este respeito, serão as línguas actuais as que merecem ser apodadas de “línguas mortas” ou, pelo menos, moribundas, pois,
comparando-as com as linguas arcaicas e ditas “mortas”, verificamos que estas se mantêm como um organismo de intensa vitalidade, não obstante
se encontrarem votadas ao desuso.
Tal facto não significa que as línguas arcaicas ou aqueles que as falavam estivessem privados da virtude da simplicidade. A verdadeira
simplicidade, longe de ser incompatível com a complexidade, até de certo modo a requer como contraponto para a sua mais completa realização.
É preciso distinguir entre complexidade, que implica um sistema ou ordem definida, e complicação, que implica desordem e confusão.
Uma distinção correspondente tem de ser feita entre simplicidade e simplificação. O verdadeiro homem simples é uma unidade intensa; é
completo e convicto, não está dividido em si-mesmo nem contra si-próprio...
Para manter esta sua coesa integração, a sua alma tem de reajustar-se totalmente a cada nova circunstância, o que significa que deve haver
uma grande flexibilidade entre os vários elementos psíquicos – cada um tem de estar preparado para se integrar perfeitamente com todos os outros,
pouco importa o estado de alma do momento. Esta síntese tão estreitamente tecida, na qual se baseia a virtude da simplicidade, é
complexidade, algo bem distinto da complicação; e tem o seu contrário na complexidade das línguas arcaicas, ás quais é geralmente aplicado
o atributo de «sintéticas» para as distinguir das modernas linguas «analíticas».
Só um sofisticado sistema de regras gramaticais permite que as diferentes partes da fala, análogas às diferentes partes da alma, possam
ser flexionadas articuladamente, projectando em cada frase a unidade de sentido que se inicia na palavra singular. A simplicidade das línguas
sintéticas é comparável à das grandes obras de arte – simplicidade, não necessáriamente dos meios, mas do efeito total; e
obtida, sem dúvida, no seu mais superlativo grau.
Tal era, também, a simplicidade da linguagem primordial e, podemos acrescentar, dos homens que a falavam. Esta é a conclusão que nos é
imposta se atentarmos na evidência linguística disponível, e o testemunho de tal evidência é do mais alto significado psicológico, já que
a linguagem tem uma importância fundamental na vida dos homens e está íntimamente ligada à alma humana, de que é a mais directa expressão.
Um dos legados do passado mais remoto que se manteve no tempo presente com excepcional inteireza e que, por essa razão, está qualificado
para servir como um exemplar «marco», é a língua Árabe.
O seu destino tem sido bastante estranho... Quando os Árabes surgem na história, são um povo de poetas, que dispõe de uma ampla e variada
gama de formas métricas e que usa a prosa apenas para a vida quotidiana. Possuiam uma escrita bastante rudimentar, que só alguns sabiam
utilizar e, regra geral, preferiam transmitir os seus poemas tradicionais oralmente, de geração para geração, pelo que, à chegada do Islão,
eram o mais iletrado dos povos Semitas. Isso, certamente, explicará em parte o facto de a sua língua se encontrar tão bem preservada; a
evidência linguística mostra, porém, que o Arábico do seculo VII, embora já distante de uma língua ainda mais arcaica, isto é, ainda mais
sonora e complexa, era ainda a que estava mais próxima da «língua de Shem», mais do que o Hebreu falado no tempo de Moisés, quase dois mil
anos antes.
Foi o Islão, ou melhor, a necessidade de registar cada sílaba do Corão com total precisão, que impôs a literacia a partir desse século;
mas, ao mesmo tempo, o Corão impôs como modelo aquele mesmo arcaismo, e como tinha que ser decorado e recitado com a maior frequência possível,
o efeito prejudicial da escrita foi sempre anulado pela constante presença do Arábico Corânico na fala de todos. Rápidamente se desenvolveu
uma ciência especializada em registar e preservar a pronúncia exacta, e qualquer degradação era detectada e corrigida pelos esforços
persistentes e continuados dos Muçulmanos nos séculos que se seguiram, esforços que pretendiam manter inalterada a sua língua, igual ao que
fora no tempo do Profeta e tal como ele a falou!
Daqui resultou que essa língua ainda hoje subsiste; inevitavelmente, alguns dialectos se foram formando, com o correr do tempo, à sua
volta, e algumas sílabas poderão ter caído em desuso ou alguns sons poderão ter-se fundido, e outras simplificações semelhantes, e tais
dialectos são utilizados em conversas correntes; mas em qualquer situação que justifique uma mínima formalidade, imediatamente se recorre
ao Árabe clássico, e mesmo quando alguém sente que tem algo a dizer que é realmente importante, pode também recorrer espontâneamente ao
Árabe Clássico.
Além disto, aqueles poucos que se recusam, por uma questão de princípio, a usar a linguagem coloquial acabam perante um dilema: ou se
abstêm totalmente de participar numa «conversa vulgar», ou arriscam-se a parecer demasiado pomposos, como se fossem artistas de rua mascarados
com roupas reais. Assim, a conversa fiada, isto é, a expressão imediata e lesta de pensamentos insensatos ou incontidos, deveria ser
relativamente pouco comum no passado, pois não é algo que as línguas antigas facilitassem ou promovessem; e se o pensamento não andar perdido
e souber tomar cuidado com a forma em que se expressa, certamente será mais cuidada a fala e mais sóbria a linguagem. Ora o Sânscrito conta
a mesma história que o Arábico: um e outro, nas suas maravilhosas e variadas gamas de consoantes deixam-nos a convicção que, em passado
remoto, os orgãos da fala e da audição eram bem mais sensíveis e delicados do que são hoje; esta convicção é reforçada pelo estudo da
música mais antiga, plena de subtilezas rítmicas e melódicas.
Se a filologia não pode acercar-se, e descrever, as origens da fala, pode, todavia, perspectivar num percurso ininterrupto alguns
milhares de anos de história linguística, percurso que também representa, em certos aspectos, milhares de anos de história da alma humana.
Conversas em Tertúlia
Tertúlia em Miraflores, Janeiro de
2012. Participaram no diálogo Luis Furtado (LF), João Seabra Botelho
(JSB) e Francisco Moraes Sarmento (FMS).
Já será tempo de conversar sobre José Marinho?
Num inverno invulgarmente soalheiro, a
tarde aprazível convida a um passeio. Alguém interrompe o silêncio:
JSB – Meu caros, terminou há dias o
ano em que se completou o cinquentenário da publicação da «Teoria do
Ser e da Verdade». Uma vez que as vozes institucionais já fizeram as
homenagens que tinham a fazer, o Marinho está outra vez disponível
para conversar connosco...
FMS – Não esteve disponível porque
estava ocupado a participar nas homenagens, ou porque andava a fugir
delas?
(risos)
LF – Bem, então eu faço a pergunta que
ele nos fazia, quando chegava à tertúlia: “Temos conversa?”
FMS – Temos, sempre!... Tenho andado a
ler S. Tomás de Aquino e, por estranho que pareça, fui parar a
Marinho. Hoje, estou em dizer que o conceito de insubstancial
substante é um conceito inspirado por Aquino. E tomando em atenção
as teses de Aquino, acabei por concluir que José Marinho é
Aristotélico.
LF – Em que sentido?
FMS – Bem, é a leitura de Aquino que
me permite entender o insubstancial substante sem decair nas muitas
leituras que, infelizmente, andam por aí, e que tentam empurrar
Marinho para uma tradição céptica e nihilista.
LF – Para mim, o conceito de
insubstancial substante resulta de uma equivocidade que está no
próprio fundamento do pensamento humano. O acto de pensar nunca se
cansa de si mesmo, porque o pensamento sempre se recria,
principalmente quando tem sobre sua égide a própria mente divina. O
insubstancial substante, portanto, em todos os momentos morre, e em
todos os momentos renasce de si-mesmo. No renascer está precisamente
a sua substancialidade, afirmada no pensamento, já que este nunca se
contradiz a si-mesmo como realidade, como essência de si.
Mas eis agora a perspectiva do homem,
que é a perspectiva de J. Marinho. Marinho é um homem de
perplexidades, que se vê perante a alta missão do seu pensamento,
que reconhece o alto grau que esse mesmo pensamento pede para a
reflexão sobre si-próprio. E esse pensamento, na pureza de si-mesmo,
porque está alto, porque deseja contemplar a verdade e o ser da
verdade, apenas encontra como reflexo a própria natureza humana. E o
que é que lhe diz a natureza humana? Diz-lhe que o infinito ser
sempre se nega - nega-se em todas as substâncias criadas; mas também
persiste, porque permanece sempre como poder de afirmação.
FSM – Pois o que me surpreendeu, foi a
dissolução do equivoco... A expressão insubstancial substante, que
aparenta ser intrinsecamente equívoca, segundo uma interpretação
aristotélica de S.Tomás, deixa de o ser. Perceberá isto quem se
lembrar dos argumentos de S.Tomás que conciliam a tese da
eternidade do mundo e a existência de um Deus Criador.
LF- Bem, quanto a mim há, realmente,
uma equivocidade! No entanto, é certo que, no insubstancial, sempre
a preposição apela ao substante... O substante é o fundamento, que o
pensamento continua indefinidamente a procurar, porque o pensamento
não tem posssibilidade de se contrariar, mesmo na negação, pois até
na negação se reconhece, quanto mais não seja como fundamento de
si-mesmo.
FMS- Isso é pedagógico...
LF- Não, não é apenas isso. O ser tem de negar-se para se afirmar.
FMS – A negação não é necessária à afirmação do ser. A negação é sempre provisória...
JSB – Creio que essa seria a tese de
Álvaro, e nisso discordaram os dois Amigos. A tese de José Marinho,
quanto a mim, não é essa. Em Marinho, a cisão é irrefragável! Não há
humana afirmação de ser que dela, cisão, seja imaculada; o não-ser,
não sendo o que é, como que assiste o que é, a ser. Eis o enigma
fundamental que, segundo Marinho, move todo o filosofar.
LF – Sim, e Marinho teve a virtude de
levar toda a problemática da filosofia, da filosofia em geral e não
apenas portuguesa, para este tema axial. E poucos o entendem. E
embora seja um autor de relevância mundial, é intraduzível; a sua
escrita é inevitavelmente hermética, não suporta tradução. Há uma
cisão extrema, e a cisão extrema explica necessáriamente um
eleatismo de tipo metafísico. Nós temos a nossa velocidade própria
de pensamento, potencialmente infinita, e viajamos dentro de nós por
mundos infinitos, dentro dos quais nos sentimos concêntricos, como
se fôssemos senhores mas , bem no fundo, estamos a alargar as nossas
cavernas, ou seja, os nossos possíveis céus.
No contexto da Terra, alargamos os
nossos horizontes. E por isso as viagens dos homens adquirem vários
significados, porque o homem pode navegar infinitamente, através de
vários mundos. A cisão extrema, para Marinho, é pressupor que, no
fim de tudo, na grande finalização teleológica da História dos
Mundos e do Ser em relação a esses Mundos, mais uma vez, perante o
infinito inesgotável, o que o homem pode conceber, ou a realidade
que o homem pode usufruir, é sempre separada. A cisão extrema
fala-nos, e impõe-nos, autoritáriamente, que há sempre algo finito
que para nós serve, mas, no fundo, que está perante o infinito
inconcluido. A cisão extrema é para além dos homens e das
circunstâncias que os envolvem na sua própria evolução.
Sob o ponto de vista antropológico,
partindo do princípio que há um fim teleológico do homem nesta
dimensão espacio-temporal, há sempre uma cisão extrema, porque Deus,
como diria Pessoa, é sempre para além da ogiva, o grande ser acima
de tudo, acima de todos os anseios, acima de todas as nossas
especulações – e ainda bem! Sem isso, a nossa existência na Terra
poderia ser programada por etapas, poderia ser mais ou menos
definida e orientada, e não haveria algo, para além de tudo, perante
o qual nós sentíssemos que o mistério da existência tivesse solução
possível.
FSM – A autognose é concêntrica? Na autognose o homem não se conhece apenas a si mesmo... Na autognose
conhecemo-nos a nós, e a todo o Mundo!!!Não há, por isso, redenção
do mundo sem salvação do Homem, por muito que isso custe aos
ecologistas e aos amigos dos animais da nossa praça! E, já agora, eu
diria que só temos cisão na Criação... Perante a eternidade do
mundo, o que é a cisão? Aliás, para mim a cisão é uma noção
teológica, embora todos andem a tratá-la como se fosse uma noção
antropológica.
JSB- Caro Francisco, parece-me que quererá dizer que o Mundo é perpétuo, não eterno. A eternidade, como
sabe, está fora do tempo e da sucessão dos momentos, e o Mundo não o
está, certamente... A tese de Aquino, creio, é a da perpetuidade.
Quanto à cisão extrema, como lhe chama Marinho, ela é apresentada
quase como se fosse um atributo divino; mas se Marinho não carece da
inteligência que permite aos homens não limitar ou antropoformizar o
Divino, ao dizer que a cisão seja em Deus, terá de dizer que essa
cisão é para nós, e não para Ele; e é por ela ser para nós, que a
autognose de cada um não poderá abarcar nem uma só gota do que está
para além de cada um; no entanto, não haverá nenhum limite ao que a
graça Divina queira dar a conhecer a cada um... Mas isso, já será
sófico e misterioso, está, julgo, para lá da autognose enquanto
tal...
LF- A autognose é sempre concêntrica
em nós. E excêntrica em relação a Deus. É a graça que ultrapassa os
Mundos e as dimensões que temos como referências relativamente ao
nosso espaço e ao nosso tempo. Pensamos que o milagre não existe...
Pensamos até, embora não acreditemos, que é impossível uma
comunicação, mas o beneficio da graça é algo que nós recebemos para
além de todo o espaço e de todo o tempo. Isto foi uma das heranças
que recebi, não só das leituras de Leonardo Coimbra, com também da
mestria do Álvaro Ribeiro. A gnose, repito, como algo do
conhecimento que nos é dado, e que para nós serve como semente de
evolução e como ascensão para a nossa possível realização interna, é
algo que em nós se opera, em nós se confirma, em nós se dilata,
abrangendo, por si-mesma, tudo o resto, que no fundo é a realidade,
realidade essa a que chamamos mundo. Não tenhamos o receio de sermos
mónadas!
FMS – Se eu fosse a ave metafisica do
Sant'Ana Dionísio diria que na autognose todo o homem se sente
divino.
JSB – E esses momentos, como talvez
Marinho lembrasse agora, não são, na autognose, o entusiamo que
caminha sempre a par e passo com o lamento de Cristo”Pai, Pai,
porque me abandonaste”? Nenhuma monada subsiste apenas da sua
harmonia interna!Mas talvez, quem sabe, essa harmonia seja já em si
suficiente para fazer voar a ave metafísica...
LF-Porque é que a mónada é a
configuração? Por que razão nos aparece como o ser infinito de
Parménides, o ser concluso para o qual transferimos contradições,
interrogações... O que interessa nas mónadas, na sua sua
conclusividade que parece negar o infinito, não é a contradição do
infinito. O infinito, para o ser humano é como um imenso oceano de
reserva a partir do qual todas as finitudes se dispoêm nas suas
múltiplas correspondências e nas suas especiais simpatias. Mundos
diferentes sim, mas conclusos na sua harmonia, sabendo nós que essa
harmonia faz parte dessa outra harmonia geral que é aquela que nos
movimenta o espírito e que ao mesmo tempo faz com que tudo o que
pensamos possa ser concebido. Verdadeiramente, não há conceitos
singulares que por esta génese não sejam universais. E que por esta
luz interna, fogo activo, não se torne propriedade comum universal
de tudo o que é o nosso conceber. Os conceitos a priori serão
sintéticos? Nós pensamos que todos os conceitos serão gerados em nós
porque fazemos parte da universal geração de tudo o que é o nosso
conceber. Presumo que não é nas ciências evolucionistas que está a
geração de toda as coisas. Nem estas ciências tem ainda a atitude
firme de receberem em seu seio aquilo que é o movimento
evolucionista do mundo! Mas há no espírito humano como que um polo de
referenciação que vai distinguir aquilo que é o nosso conceber.
Neste caso, concebemos pelo espírito. Por isso mesmo concebemos para
as ideias e isto sustenta em nós uma perspectiva abençoada e
possivelmente transcendente de todos os mundos que possamos
conceber.
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Novos Textos
Mário Ferreira dos Santos
O Arithmós
( Excerto de «Platão, o Um e o Múltiplo» )
Qualquer manual de filosofia nos diz que Pitágoras ensinava, e os pitagóricos repetiam, que a essência, neste caso a forma, de todos os entes são os números. Usava
Pitágoras o termo grego «arithmós», e ao prescrutar a essência de todos os entes desenvolveu uma verdadeira aritmologia, uma ciência do
número.
Ponhamos de parte o erro vulgar de considerar os números pitagóricos como apenas quantitativos, como o são os números da aritmética, produtos de uma abstracção da
quantidade; Pitágoras repelia tal perspectiva, chamando aos números quantitativos de «arithmos logistikós», e diferenciando-os dos números que eram considerados por ele
como qualitativos, como valores, tensões, conjuntos, funções, relações, harmonia, símbolos, fluxos, etc...Esse erro vulgar, portanto, é realmente um erro crasso - afirmar
que os Pitagóricos consideravam os números aritméticos, ou quantitativos, como a essência dos entes sensíveis.
Toda a forma, que é intrínseca a cada ente, é uma proporcionalidade interna que, para além de quantitativa, é qualitativa, relacional, funcional etc... Essa forma
é o pelo qual o ente é o que é, e não é outra coisa, ou seja, essa proporcionalidade é a essência do ente, é uma harmonia dos opostos intrínsecos de cada
ente. De facto, para Pitágoras a essência de cada ente, de cada coisa finita, implica sempre a cooperação de opostos.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
Cisão Extrema
Excerto de «A Situação Cultural do Escritor»
Teoremas de Teatro, 1967
Assim como consideramos enigmática a situação da nossa cultura, por não revelar influência dos grandes pensadores nossos contemporâneos,
estranhamos agora que as grandes obras epocais se subsumam numa semi-obscuridade, ausentes dos programas universitários e da actualização
que à crítica e ao ensaísmo crítico compete iniludivelmente fazer.
As obras de Pessoa já ganharam a confiança das escolas médias e superiores, em consequência, note-se bem, das razões exteriores que a
«Mensagem» concitou. Mas as obras de Pascoaes e de Leonardo Coimbra? O «Verbo Escuro» e «A Alegria, a Dor e a Graça»?
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Agostinho da Silva, filho pródigo
in revista Leonardo, online
É, com Sant’Anna Dionísio, António Duarte, Azeredo Perdigão, Álvaro Cunhal, Miguel Torga, talvez mais algum, um dos patriarcas da cultura portuguesa. Cada um
à sua maneira, naturalmente: Azeredo Perdigão tapando misérias com o ouro, que as põe mais à vista, Álvaro Cunhal veiculando por instituições universitárias e jornalísticas
a propaganda da mediocridade de charra obediência moscovita, Miguel Torga em gesticulações terrunhas oferecendo o peito ao Nobel que nunca mais vem, António Duarte realizando
um olímpico exemplo de liberdade artística, Sant’Anna Dionísio e Agostinho da Silva representando o escol de uma geração portuense que, só ela, assegura a sobrevivência da
pátria portuguesa num mundo em que nada é eterno a não ser o próprio mundo.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
Soledade, Incompleta Saudade
Comunicação ao Congresso Anteriano»
Ponta Delgada, Açores, 14-18/10/1991
Independentemente de averiguar se a poesia constitui a forma mais adequada à expressão do pensamento anteriano, elejo para matéria
desta reflexão os últimos vinte e um sonetos que, na edição de Oliveira Martins, são datados de 1880 a 1884. Aceito, portanto, como significativas
as cartas a Guilherme Storck e a Jaime Magalhães Lima, localizando em tais poemas o essencial do seu ideário filosófico.
Com isto fica posta em causa a validade dos outros textos em prosa ou verso, confessionais ou objectivos, que compõem o acervo escrito do
filósofo e poeta.
Distingo filósofo de poeta apenas porque a junção dos dois atributos num mesmo sujeito já tem uma conotação crítica que nem abona a noção de
filosofia nem a de poesia.
De novo se aflora o problema da autêntica expressão filosófica ou dos géneros formais que lhe são próprios. Não partilho da tese de que a filosofia
é um género literário, tão-pouco da afirmação que exclui a poesia de veículo verbal da expressão filosófica. Creio que este problema, assim colocado, está fora
da sede que lhe convém porque, como escreve indignado José Marinho, «o filósofo não é um escritor» e, acrescento agora, nem a filosofia se integra
em qualquer problema que a escrita possa suscitar.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luís Furtado
O Humanismo de Leonardo Coimbra
Pode o discurso humano, históricamente instaurado, fundar uma autêntica razão universal?
O humanismo acredita que a razão humana nunca é isolada ou impermeável. Através do diálogo entre o sujeito e os outros, pode resultar uma coerência de fraterno e solidário
entendimento! Acontece que esta coerência é, contudo, posta em causa quando se trata de construir a urgente objectividade do quotidiano humanista. Damo-nos conta de que a
vontade histórica, ao conseguir no tempo o triunfo de determinados ideais, nunca porém os consolida em vitórias autênticas e definitivas... Os imperativos categóricos da sociedade,
em palavras de ordem constantemente repetidas, acabam por tornar fútil, senão ridícula, a linguagem nobre dos valores humanos.
A razão só instaura, só é liame fraternal entre os seres, quando nos princípios que defende encontra a ressonância interior do sujeito, que é a sua verdadeira alma! É, pois,
indispensável que o consenso apologético do discurso tenha uma garantia intimamente vivida por uma consciência revelada.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
Apresentação do livro de Manuel Cândido
«A Filosofia Criacionista da Morte»
II Colóquio Tobias Barreto, Açores, 20/10/1994
As gerações só se encontram na compreensão, nunca na crítica, porque a crítica, em qualquer dos seus sentidos, é sempre separar.
Aliás, a compreensão faz a diferença entre o juízo metafísico, que Leonardo Coimbra define, e o juízo crítico, que não tem por pressuposto essencial a
reflexão compreensiva. É o juízo «apressado», que José Marinho tanto desvalorizava, mas que fundamenta, inconscientemente, a vida activa contemporânea e,
conscientemente, a vida intelectual portuguesa.
Sofremos, na nossa comunicação de ideias, do equívoco que, a partir da geração de 70, se foi tornando predisposição habitual, de dar à crítica um carácter sistemático,
por tal forma que examinamos o pensamento novo pelos critérios cognitivos do pensamento pensado.
Há, neste estado intelectual, «uma singular inversão do processo do conhecimento, que só uma filosofia do amor e da diferença poderá encontrar». Uma filosofia criacionista como
a de Leonardo - acrescento eu às palavras de Manuel Cândido, que acabo de reproduzir.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
O que pensar da Injustiça?
ARSP Archiv fur Rechts und Sozialphilosophie, 1973
1ª Parte
I. As Formas
1. O sistema do formalismo
Tudo o que é tem uma parte formal, mas o direito é formal em todas as suas partes e organizou este seu formalismo num sistema fechado e
auto-suficiente. O sistema funda-se nos três pontos seguintes:
a)As formas em si
Em geral as formas são, seja manifestações do que contêm, seja representações do que significam. Elas dependem, por consequência,
daquilo que manifestam ou daquilo que representam, tanto na substancialidade dos entes, na sua união original com o conteúdo ou a matéria,
- tal é o caso nas formas da natureza, - como na sua unidade indissolúvel com o significado - tal é o caso das formas artísticas.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
O Modo de Pensar Português e
a Cultura Internacional
Cong. Int. Filosofia de S.Paulo, 1954
O modo de pensar dum povo não se pode senão sugerir. É necessário ser sujeito passivo desse mesmo pensamento para possuir todos os segredos
da sua comunicabilidade, e então pertence-se anímicamente a ele.
Mais isolado está o pensamento dum povo que ao pensar actua, isto é, actualiza as potencialidades não só racionais, mas sobretudo
sentimentais e anímicas. O modo de pensar do povo português é exemplo extremo desta afirmação.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Leonardo Coimbra
A minha esposa
Dedicatória em «A Luta Pela Imortalidade»
Minha querida amiga:
Lembras-te daquela madrugada trágica em que na casa de meu Pai, sob o uivo dos cães e duma aragem rápida, fina, incoercível, de Junho, nos
fômos do quarto onde morrera o nosso filho?
Muito enleados, árvores destroçadas pelo ciclone, fômos para o quarto onde, dez anos antes, quási nos meus braços morrera meu Pai.
A tua dôr era toda do nosso filho, a minha dôr era a dele e a tua; nunca senti tão claramente que o homem é o protector da mulher, que lhe cumpre
trazê-la ao colo e no coração.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
Do lear, ou da Lealdade
excerto de «ABC da Lealdade»
in Rev. Cultura Portuguesa,nº2
A filosofia é coloquial. Todos os grandes filósofos escreveram ou falaram para alguém. D. Duarte fê-lo expressamente para senhores e gentes
de suas casas, isto é, para os aristocratas do espírito que, regendo suas casas segundo a ética posta pelo rei em tratado, puderam, em estas e
posteriores gerações, levar Portugal às Descobertas.
Em consequência, não admira que se note neste tratado de lealdade a ausência de uma concatenada sequência de noções, conceitos e princípios
a definir-lhe um sistema. Dos cento e três capítulos desta obra só um aborda específicamente o tema. No entanto, do primeiro ao último, procurando
mais a compreensão do género do que a da espécie, o movimento do verbo do que a passividade do substantivo, é com a lealdade,
e lealmente, que D.Duarte tece a obra inteira.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Suaves Cavaleiros
in «A Ilha» de 1 Jan. 1971
1 - O que os governos idolatram
O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o
princípio da economia.
O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse
domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente,
até abrangerem a quase totalidade dos homens.
Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de
aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único,
reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros
capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação
sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua
soberania continua a ser total.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Álvaro Ribeiro
Doutrina Fadista
O fado é uma arte popular.
O primeiro problema duma doutrina do fado consistirá, pois, em investigar quais sejam o verdadeiro significado e real valor da arte popular.
Arte popular não pode ser entendida como arte que ao povo se dirige, descendo e simplificando, divulgando e degradando, até se tornar
acessível ao público e à multidão. Arte popular não é o contrário de arte para raros apenas. Arte popular não é a arte que desce, pelo
contrário, é a arte que sobe, a que procura sempre uma expressão mais alta. O artista que desce até ao povo demonstra, nesse movimento, que
do povo não provém; a sua missão cultural, por muito útil e valiosa que seja, é estranha ao povo. Tal como um professor de língua estrangeira; tal como
um missionário ou um conquistador.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
João Seabra Botelho
Orlando Vitorino, ao Undécimo Ano
Sou pela viagem! Prefiro-a à homenagem, em que, vulgarmente, o que se faz é prender o falecido sujeito, que valoramos merecedor, a um
volumoso busto, a uma lápide tumular, ou a um nome de rua.
Em vez de assim imobilizar tal meritório viajante, que percorre já outros mundos, remetendo-o a uma situada, ilusória e carente
intemporalidade, prefiro, neste undécimo ano após a morte de Orlando Vitorino, ousar fazer com ele um viajante discurso que, a ter alguma
filosófica interrogação, será também incursão na memória imperturbável, onde todas as viagens são possíveis e ficam devidamente seladas.
Como é sabido, após o golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, as autoridades militares reunidas em Junta chamaram diversas personalidades
civis e disseram-lhes: criem partidos políticos.
Não vou aqui perder tempo acrescentando peripécias desse enredo, já que viajar na memória imperturbável não corresponde a ser memorialista.
A razão de invocar tal acontecimento, ocorrido há quatro decénios, apenas serve de contexto para dizer que, embora Orlando Vitorino não estivesse
no lote de «personalidades» a quem uma Junta Militar chamaria para fazer tal encomenda, dado não ter currículo político relevante, tanto ele como
muitos outros portugueses decidiram organizar, ou comparecer, em iniciativas destinadas a discutir um possível ideário para um possível partido.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
Morte essencial e morte existencial em Leonardo Coimbra
Algumas notas pessoais e inéditas de José Marinho, feitas à margem da conferência de Leonardo sobre a morte, sugerem que vários passos
desta reflexão denotam já a génese de «A Alegria a Dor e a Graça», que ele havia de publicar apenas três anos depois.
Marinho considerava que este último livro, mais do que a obra programática, «O Criacionismo», contém a essência, os princípios e o ritmo
do pensamento do seu mestre. Por isso nos estimulava frequentemente a aprofundar a leitura do texto, que não tinha até então a necessária
hermenêutica.
Aprofundar era o verbo por ele usado como acto imprescindível ao movimento especulativo. E, realmente, ajusta-se bem à imagem leonardina
da alma que, no início de «A Morte», é comparada a um poço que nos atravessasse de lado a lado em cujas funduras abissais se vissem de novo
as estrelas.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
José Marinho
Sete Aforismos
1 - O homem que concebe a imortalidade, esse mesmo a não concebe perfeitamente; isto equivaleria, com efeito, a tornar-se imortal. Todo
o perfeito conceber leva ou deveria levar a ser. Mas que sentido tem um perfeito conceber? Não é todo o conceber necessariamente imperfeito
e sinal de imperfeição? Conceber é assim relação extrínseca do ser e do sentido. Assim seguindo, já nego o que antes afirmara. Mas prefiro
negar-me a mim próprio do que negar a verdade ou ignorar a sua solene e terrível exigência. O nosso conceber não nos leva a ser perfeitamente,
apenas certifica da possibilidade de ser e a desenvolve ou manifesta no plano de ser em que existimos. Cai abaixo da geração vital e supõe o
conhecimento mais perfeito.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
A Filosofia
como Imagem da Pátria
Há várias imagens de Portugal. Uma é formada pela história da acção que os portugueses exerceram e aquela a que foram sujeitos. É outra a da
história da política e dos políticos, dos sucessivos regimes e governos. Uma terceira é a da história das artes, com natural relevo para a
literatura. Faltava, até agora, uma última imagem, decerto a mais decisiva: a oferecida por aquilo que os portugueses pensam, a da história da
filosofia portuguesa.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Diário das Presidenciais de 1986
Os Dois Primeiros Dias
1.° Dia
O José Luís Gala é quem lança a pergunta.
Estamos todos, como se tornou habitual ao fim da tarde, no "café" onde se reúne a tertúlia de jovens estudantes que têm gosto em comentar
comigo livros, imagens, eventos e ideias. A pergunta deixa-nos a todos perplexos, mas a verdade é que ela não é mais do que um convite para
prolongarmos em obras nossos pensamentos e palavras. Ou um desafio para pormos à prova nossos pensamentos e palavras sob pena de eles não passarem
de fáceis orgulhos, cómodas certezas, inconsequentes displicências de "intelectuais".
Todos sofremos a situação em que os Portugueses se encontram e todos sabemos que ela constitui, essencialmente, mais uma confirmação do
preceito de Álvaro Ribeiro segundo o qual "não há política portuguesa sem cultura portuguesa".
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luís Furtado
Budismo ou Aristotelismo?
O que é o Budismo? Ou, para nossa mais modesta compreensão, o que é o estado búdico? O que é ser Buda?
Recordo-me, em concentração respeitosa, à qual não falta uma certa saudade, dos tempos mais antigos em que eu, na companhia de outros
mestres que já não estão entre nós, pensava estes temas que, aliás, preenchiam a minha alma, na aurora ainda imatura do seu pensar filosófico.
Falava então eu para o Álvaro Ribeiro de Rudolf Steiner, e da relação que se devia fazer, bem distinta, entre a teosofia e a antroposofia.
Penso eu que agora essa questão, de novo, vai acontecendo entre nós. E que todas as religiões têm tendência, não para uma síntese, mas para uma
síncrese, ou seja, para uma mistura!
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969
(Ed.de autor, de 500 exe.)
Notas contra a
degradação do espírito
Terceira (e última) Parte
Conta-se Klages entre aqueles que atribuem a Frederico Nietzsche o papel que ele a si mesmo atribuía: o de quem se apercebe com nitidez que
algo de radical separa neste momento toda a filosofia que no passado remonta até Sócrates e «aquela nova raça de filósofos que vejo erguer-se
no horizonte»(18).
Será difícil mostrar que tal separação reside no que distingue um pensamento que aceita e um pensamento que recusa
«a hostil oposição do espírito e da vida»; na aceitação, ou na recusa, persiste na fidelidade ao espírito ou a abandona.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luis Zuzarte
O Mito de Diónisos
Num artigo recente referimo-nos ao estudo que o filósofo Heidegger escreveu sobre o poeta Holderlin, esse poeta louco de Diónisos, que ombreia com
Nietzsche nessa singularidade, já que este foi o filósofo louco de Diónisos. Proponho-me agora abordar a relação entre Diónisos e Cristo, já que
Diónisos é, na mítica grega, o deus que corresponde ao deus crucificado e, assim, que é crucificado na alma do mundo, ou melhor, na alma
da terra, pois tal é a característica própria de Diónisos.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969
(Ed.de autor, de 500 exe.)
Notas contra a
degradação do espírito
Segunda Parte
3. A psicologia moderna - especialmente aquela a que Klages chama «psicologia de escola» como a que domina o nosso ensino - procura evitar a
palavra alma. E mais procura evitar a palavra «espírito». São, ambas, palavras que comprometem ou palavras que se dão por comprometidas.
De poucas terá a demagogia e a hipocrisia, sobretudo a dos políticos, abusado mais que da palavra «espírito». Por outro lado, ficou ela presa,
no pensamento contemporâneo, ao sistema filosófico de Hegel, sistema demasiado rico, complexo e profundo para que do espírito se possa falar sem
o ter em conta, sem que, de algum modo, haja um compromisso hegelianista em todo o espiritualismo. Restituir a uma palavra degradada o sentido
que lhe vem da noção que designa, seria a nobre tarefa dos filólogos, a que poucos pensadores se entregam. É significativo que o mais significativo
filósofo do nosso tempo tenha a nobreza de o fazer.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Leonardo Coimbra
excertos de
«A Alegria, a Dor e a Graça»
A liberdade existe, a graça é o seu corpo
É um universal que vem encher o vazio da forma.
Cada ser conhece imediatamente o Espaço como um ponto de impenetrabilidade que é a sua afirmação de coexistência, conhece o Tempo como
o caminho da tendência, a distância entre o desejo e a acção.
Este conhecimento vago precisa-se pelo movimento, que dá ao Espaço e ao Tempo a sua mais alta organização.
No mundo da realidade, da harmonia, do caos ordenado, do Universo, o particular absoluto não existe. “Tudo é em tudo” é o primeiro
universal.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luís Furtado
in «Artes e Letras», D.N. 13/06/1968
Ano XIII nº693
Platão e os Cavaleiros do Amor
Para além do interesse que nos desperta como tradução exemplar feita por um espírito talentoso para a filosofia, o diálogo «O Banquete»,
recentemente saído a público, oferece-nos ainda um estudo sobre a perspectiva portuguesa de Platão (Coimbra, 1968) devido a Pinharanda Gomes.
Com base no tema do diálogo refere-se uma esclarecedora síntese a vários escritos que na literatura portuguesa trataram do problema do amor.
Sempre fiel à valia dos documentos históricos, vinca as possíveis influências de ordem mística que a nossa literatura foi haurir ao transcendente
idealismo platónico.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969
(Ed.de autor, de 500 exe.)
Notas contra a
degradação do espírito
Primeira Parte
No final da última destas notas encontrará o leitor a seguinte interrogação:
«Poderá isso a que o Cristianismo chamou alma e os Gregos chamaram psique, entender-se como um estado do espírito?
Será a persona, entendida quer como pessoa, quer como personagem, não o estado de alma que dela fez um teatro
simultâneamente primitivo e degradado, mas a imagem de um estado de espírito que a si mesmo se dá a forma e a matéria da alma ou
da psique?»
1. Nas chamadas «línguas latinas» - os actuais dialectos em que o latim ainda se fala - dá-se o nome de personagem ao que,
em teatro, o comediante representa ou que no comediante se representa.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Mário Ferreira dos Santos
Notas sobre
Abstracção e Metafísica
Via Ascendente e Descendente
1-
Abstração e Metafísica
Aristóteles estudou minuciosamente a abstracção e atribuiu-lhe diversos graus. Esses graus foram, depois, também estudados com não
menos atenção pelos escolásticos, e foram caracterizados em três graus abstractivos, três graus que são próprios da faculdade de
abstracção intelectual do ser humano.
Esses graus caracterizam-se da seguinte maneira:
1 - O primeiro grau de abstracção do intelecto consiste em tomar o
objecto abstraindo da sua mera singularidade; abstraimos as suas
propriedades, os seus acidentes, e chegamos a conceitos gerais como
casa, árvore, homem, etc..
2 – Na abstracção do segundo grau, a mente não apenas anula os
aspectos materiais e as propriedades sensíveis, mas, além disso,
especificamente, o intelecto vai considerar o objecto apenas na sua
condição extensiva, e quantitativa; e essa consideração pode ser
feita segundo uma extensão contínua ou segundo uma extensão
discreta. São estas abstrações, portanto, as que compõem a
matemática , dado que a abstracção na extensividade contínua dá-nos
a Geometria, as figuras geométricas, enquanto que a abstracção na
extensividade discreta dá-nos a Aritmética, ou os números.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Mário Ferreira dos Santos
Excerto de
«Análise de Temas Sociais»
Ácerca do conceito de Causa
1 - Factor
Factor, em sentido etimológico, é o que faz, do verbo «facere», e refere-se tanto à pessoa humana como a alguma coisa. Na matemática,
significa um de dois termos que, multiplicados um pelo outro, constituem um producto. Na linguagem moderna, tomado em sentido amplo, é tudo
quanto concorre para determinar um efeito, e é empregado, hoje, nas ciências culturais. Nesse amplo sentido, o termo é usado frequentemente
como sinónimo de causa.
Tal sinonímia deve-se a uma razão muito simples.
Nos séculos XVIII e XIX alguns filósofos, por não terem devidamente compreendido o conceito de causa, exposto por Aristóteles e pelos
escolásticos, decidiram combatê-lo. De tal modo o fizeram, que muitas mentes desprevenidas recearam continuar a usá-lo, preferindo substituí-lo
pelo termo factor.
Portanto, para que se tenha uma clara visão deste termo é mister analisar o conceito de causa, evitando os erros frequentes que muitos
filósofos modernos cometem.
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João Seabra Botelho
Prefácio ao livro de Miguel Bruno Duarte
«Noemas da filosofia portuguesa»
Prefácio
1 - Da filosofia portuguesa
Filólogo e pensador que merece o epíteto de luso-brasileiro, já que desenvolveu e deixou no Brasil grande parte do seu labor, o português
Eudoro de Sousa escreveu algures numa das suas obras: “Não preciso lembrar que, em certo ponto da escala temporal, o historiador da cultura
brasileira teria de enfrentar a cultura ibérica, e daí partir para a cultura européia, e que, no estado atual dos nossos conhecimentos, só
nos deteríamos no berço desta última, situado no mediterrâneo oriental pré-helênico, nas culturas neolíticas pré-cerâmicas da Ásia Menor.”
Sim, tem razão Eudoro...É exigível ao intelecto da maturidade humana que tenha consciência das suas raízes. É descabido julgar que
podemos ignorar as origens sem perder os fins; e perder os fins é o mesmo que andar irremediavelmente perdido.
Assim, hoje, os países do continente Americano que vieram a constituir-se como culturas autónomas,
interrogam-se sobre as suas raízes europeias, e mais particularmente sobre as suas raízes ibéricas, ou mais particularmente
ainda sobre as suas raízes portuguesas, tal como desde há já vários séculos aos portugueses do espaço
lusitano tem sido exigido que recordem as suas origens em longínquas paragens do Lácio, do Peloponeso, da Fenícia ou da Arábia.
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João Seabra Botelho
Excertos de
“Crítica da Compreensão Pura”
de Emanuel Kant
Selecção, ordenação, introdução e tradução livre de
João Seabra Botelho
Introdução:
É sabido que Kant teceu muito laboriosamente a argumentação exaustiva do seu sistema, pois era daqueles burgueses Modernos
convencidos de que a Humanidade tinha finalmente entrado na Idade da Razão e, como tal, era tempo de criar um sistema capaz de corrigir
os erros do passado Clássico e Medieval.
Não era só ele, porém, a desejar essa tarefa...Desde Lord Bacon que vários filósofos vinham dando a entender, de maneira mais ou menos
explícita, que iriam tentar oferecer ao mundo um novo «organon», suplantando assim Aristóteles.
O leitor sem pretensões de erudição universitária, simplesmente animado de curiosidade filosófica, apanha um susto ao ver Kant soterrado
sob centenas de versões, citações e traduções e um número abismal de interessados e seguidores... Quase parece que esses todos já disseram tudo.
Ao mesmo tempo, porém, fica no ar, lançada subreptíciamente, a seguinte sugestão: só grandes especialistas compreenderão realmente a obra...
Encontrar textos de Kant que apresentem, de forma sucinta mas elucidativa, alguns dos momentos em que o seu filosofar
serviu realmente de instrumento à inteligência universal, parece, pois, tarefa arriscada, qual incauto caminhante entrando em floresta densa
e agreste, onde só devem entrar experientes viajantes. A esse primeiro desafio junta-se
depois, como adiante explicitamos, o de traduzir esses textos para português.
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Francisco Sottomayor
O Culto e a Cultura
1. Os «Conferencistas do Casino» e a República Positivista
Nas bibliografias dos vários doutores, sábios e santos que, no decurso de dois milénios, se vieram sucedendo na Igreja,
ressalta ao leitor atento e paciente a constante preocupação e a permanente ocupação dos pensadores católicos de maior celebridade,
fama e santidade. Efectivamente, na resolução dos problemas, na descoberta dos segredos e na meditação dos mistérios, em suma na
actividade da razão, decorreu a vida nem sempre pacífica dos homens que, com maior entendimento e responsabilidade viveram a doutrina
católica tradicional.
Quem, reflexionando sobre esta constância, não duvidar da incontestável fé dos santos doutores, perguntará surpreendido qual o motivo
de tanto esforço humano. Pois quê: não é então verdade que, se o homem cumpre á risca todos os preceitos e ditames da Igreja será, ao
fim e ao cabo, digno de merecer a salvação? Para quê, portanto, estes sábios doutores, que depois foram santos, dedicam a sua vida a
tão profundos, laboriosos e pacientes estudos, na tentativa de conciliar a sua razão com a fé? Porquê, firmar numa filosofia uma
apologética que articulasse o culto católico com a cultura do seu tempo?
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luis Furtado
O dinheiro como valor de
representação
Para vos falar do dinheiro como valor de representação, como principiarei a explicar-me?
Tudo o que possa dizer passa pelo crédito. Se existe um poder incontornável, é realmente o do crédito.
Quem não admira o seu poder maravilhoso? Quem não reconhecerá a larga parte que lhe cabe do prodigioso desenvolvimento
económico da época actual?
No entanto, subsiste sempre uma antiga divergência de opiniões ligando-se à dimensão e funcionamento do crédito, que de tempos a
tempos se reproduz com uma vivacidade nova. O crédito representa a abertura ao poder criador e a faculdade de multiplicar os capitais...
Outros economistas não são tão optimistas.
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João Seabra Botelho
Sentimentologia – Excursão III
A Protímia
A protímia, dos Helenos, ou perseverantia dos Latinos, é o
fio-de-prumo que mantém a alma na vertical desde os primeiros passos da vida. Este sentimento brilha serenamente no olhar dos
recém-nascidos e responde, ou torna fútil, a questão: viver para quê?
A protímia é uma das fadas que rodeia o berço, e o seu condão é a energia dos feitos que nunca
dependeram do acaso. Ganha raízes no lado esquerdo do coração do fadado e fá-lo sentir-se animado, mesmo
no infortúnio
A protímia distingue-se bem da obsessão. Esta, é uma dependência que consome, enfraquece e incapacita,
enquanto aquela é uma anuência, que alimenta, fortalece e prepara para qualquer renúncia ou sacrifício.
A protímia só pode ser estimulada pelo exemplo. Aqueles poucos que a
praticam, despertam-na naqueles poucos em que está dormente.
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Francisco Saraiva
Do organon da lógica
à lógica transcendental
No anterior texto, “O que é a lógica”, elaborei acerca da essência da
lógica, propondo que ela se radica e fundamenta na essência do homem (um
animal racional ou uma alma em que reside o logos). De acordo com
esta tese, a lógica, buscando responder à questão da essência das
coisas (ou dos entes), constitui-se numa ontologia.
A lógica das origens (Sócrates, Platão e Aristóteles), procurando um desvelamento do
ser através do diálogo, do exame da linguagem e do silogismo, encontrou
uma convergência ou correspondência entre os princípios ou formas do
pensamento e os princípios estruturantes da realidade. Isso mesmo
verificamos nos princípios fundamentais da lógica, nomeadamente
identidade e princípio de razão suficiente ou causal. O mesmo nexo de
necessidade das leis do pensamento se encontrava na realidade. Nessa
medida, a lógica se constituira numa ontologia, palavra que é
habitualmente definida como ciência do ser mas que pode também ser
compreendida como “o logos do ser” ou “a relação do ser ao logos”.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Francisco Moraes Sarmento
Apresentação do livro de
Costa Bruno
'Madalena, Fragmentos de um romance'
Dia 23 de Outubro, Livraria Bertrand, Chiado, Lisboa
Caros Amigos
No 23 de Outubro, às 18,30, lançarei na Bertrand do Chiado, Lisboa, a obra
"Madalena, fragmentos de um romance". Trata-se de um conjunto de cartas de
C. Bruno à sua amada, Madalena. Para além dos encontros e desencontros entre
um homem e uma mulher, trata-se de uma teoria sobre o ideal amoroso, na forma epistolar. O tema será comentado por João
Seabra Botelho.
Conto com a vossa presença
Francisco Moraes Sarmento
Orlando Vitorino
Traduções portuguesas de filosofia
Subsidios para a história da filosofia portuguesa
- Terceira Parte -
4. Filosofia Moderna
a) Descartes
A relação que há entre a obra de Descartes e a actividade da Companhia
de Jesus, que então denominava o ensino em Portugal, explica que de
todos os pensadores do Renascimento, tenha sido esse o mais conhecido e
divulgado entre nós até que Verney, certamente pelos mesmos motivos, o
tenha desvalorizado e desdenhado.
Não chegaram os primeiros a levar a divulgação de Descartes até ao ponto
de traduzirem os seus livros, tradução que, depois da obra de Verney e
da reforma pombalina do ensino, ficou comprometida.
Só em nossos dias, muito tardiamente portanto, se publicaram as
traduções das Meditações Metafísicas, por António Sérgio, e do
Discurso
do Método e Tratado das Paixões da Alma, por Newton de Macedo.
b) Leibniz e Espinosa
Ao contrário de Descartes, Leibniz e Espinosa seriam suspeitos à
filosofia que, na época deles, dominando o ensino, era oficialmente
cultivada entre nós. Ambos se relacionavam, no aspecto religioso, com
ortodoxias adversas ao catolicismo. E apesar de um ser de origem
portuguesa e de o outro se referir com admiração aos pensadores
portugueses, só em 1930 aparece uma tradução de Leibniz e em 1950 a da
Ética de Espinosa.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luis Furtado
A Janela
Nunca a humanidade esteve tão mergulhada no mundo da cultura! Hoje,
todos somos cultos só porque nos civilizamos, só porque julgamos que o
progresso, em si mesmo, se encarregará de fazer por nós mais do que
aquilo que representa o nosso desempenho no viver afadigado e
quotidiano. Escusamos até de pensar! Tão somente pensamos no modo
melhor e mais útil de levar a nossa vida. Tudo o que nos rodeia passa,
assim, a ser displicentemente aceite como facto cultural.
Na verdade, todos os factos comparticipam de uma cumplicidade de
modelos ou de acções que, fazendo parte do espírito humano, descrevem as
suas ansiedades, que pouco a pouco se vão sedimentando nos nossos
hábitos de viver e interpretar o mundo.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Traduções portuguesas de filosofia
Subsidios para a história da filosofia portuguesa
- Segunda Parte -
I. A filosofia grega
a) Os pré-socráticos
A cultura clássica, e sobretudo a filosofia grega, nunca despertou
entre nós o interesse e a atenção que outros povos lhe dedicam,
apesar de o aristotelismo constituir uma constante cultural e mental
do pensamento português.
Dos pré-socráticos apenas se traduziram os Versos de Ouro, de
Pitágoras, no século XVIII. Dever-se-á isso explicar pelas
dificuldades de erudição que a sua tradução e interpretação oferecem
e, sobretudo, porque o interesse pelos pré-socráticos só pode ser
despertado pelo prévio conhecimento da filosofia grega, em especial
de Platão e Aristóteles, caso não seja promovido por motivos de
erudição religiosa.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Francisco Saraiva
O que é a lógica?
Assim, de uma forma directa e inesperada, me interpelou uma vez numa tertúlia alguém
que sabia muito mais do que eu. Preocupava-o (creio) que estivéssemos falando de uma coisa sem realmente a compreender.
Não me recordo do que na altura disse, mas creio que terei defendido que a lógica é, em última instância, ontologia.
Muitos anos passados, respondendo ao convite, que muito me honra, para colaborar na «Homo Viator», retomo o tema.
O que é então a lógica? E porque é esta questão importante?
Não existe propriamente uma definição académica sobre o que seja a lógica. Em primeiro lugar, tal deve-se ao facto de não
haver, entre diferentes escolas de pensamento, um acordo acerca do “objecto” da lógica (o pensamento?, as regras do raciocínio
válido? as condições de possibilidade do conhecimento? a realidade?). Mas, se nos posicionarmos num plano ainda anterior às
decisões das escolas (ou sistemas) quanto ao problema (realismo, idealismo, nominalismo, epistemologia), verificamos uma outra
coisa: é que a definição é desde logo uma forma ou expressão do tipo de pensamento lógico.
Adiante desenvolveremos um pouco mais este ponto.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Orlando Vitorino
Traduções portuguesas de filosofia
Subsidios para a história da filosofia portuguesa
- Primeira Parte -
1. A tradução dos livros de filosofia pode considerar-se devida a quatro
ordens de motivos: a motivos culturais, quando se consideram tais
traduções como forma de enriquecimento de cada cultura; a motivos
literários, quando tais livros sao representativos dos mais altos
valores de expressão artística, como acontece com Platão, Cícero ou
Hegel; a motivos religiosos, políticos ou científicos, quando essas
manifestações encontram na filosofia ou um complemento que as prolonga
ou fundamento de que carecem; a motivos propriamente filosóficos, quer
quando um pensamento virtual, de demorada expressão, recorre à expressão
próxima ou análoga dada por filósofos estrangeiros, quer quando um
pensador ou um movimento original procura, na tradução de obras
filosóficas, a expressão de filosofemas e até sistemas que se conjugam
e vêm fortalecer e ampliar um pensamento original.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Mário Ferreira dos Santos
Da Perfeição e das ideias
É no tocante à perfeição que as concepções de Aristóteles e de Platão se dividem. Aristóteles é empirista-racionalista, e a esquemática da
conceituação física é nele predominante, levando-o a colocar a perfeição na substância individual.
Este cavalo, aqui e agora, é mais perfeito que a cavalaridade, é mais perfeito que a sua forma. Ademais, há apenas uma existência real para
ele, que é a individual, pois as formas não se dão fora das coisas. E é o indivíduo o mais perfeito, porque é mais determinado, já que ele é a
última determinação da sua espécie, e é uma existência real.
Para Platão, é o contrário. A perfeição é do logos de que os entes participam. Nenhum ser individual realiza plenamente a perfeição
específica, pois nenhum ente, individualmente, é tudo quanto, dentro da sua espécie, pode ser. Esta abrange, portanto, um âmbito muito mais vasto
e nela se incluem todas as perfeições possíveis das determinações, não actualizadas axiológicamente por Aristóteles.
Mas o logos, que é o inteligível dos entes (para Platão não se separa do ontológico, pois este é o logos da entidade), é a razão
de ser do que é isto ou aquilo. O ser inteligente é aquele que capta a inteligibilidade do logos das coisas, e que pode analizar, extensa e
intensamente, o que um ser é.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
João Seabra Botelho
Devaneio sobre a Beleza e a Arte
Nota: Este texto foi escrito a convite de Manuel Bernardes, para integrar o catálogo da exposição individual de pintura
que realizou em Fevereiro de 2011
“Tudo o que n'Ele
tem permanecido invisível desde a criação do mundo será visto claramente ao apreendermos
as coisas que criou” (Romanos, 1:20)
Os que olham para uma pintura esperam que o intento do artista tenha sido o de abrir uma fresta nos limites deste
mundo, por onde passe uma réstea de Beleza. O artista, esse, espera que os olhares que procuram a sua pintura se deixem
guiar pela luz, as cores e as formas dos seus quadros, ao encontro das subtis energias que fluem dessa fresta.
E é assim que a Beleza se torna real, e visível, apesar de não ser deste mundo.
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Luis Zuzarte
A propósito de René Guénon
René Guénon é, decerto, o mais importante intelectual e pensador, diremos, exactamente, «metafísico», do tradicionalismo ocidental. Na sua vasta
e notável obra, estabelece o contacto, a ponte e a ligação entre o tradicionalismo ocidental e o tradicionalismo oriental, demonstrando, mediante pacientes,
penetrantes e agudíssimas escavações nas legendas, nos mitos e nos símbolos, quer ocidentais, quer orientais, que uma mesma e única tradição existe,
embora diversamente repartida pelos lugares e pelas épocas. A essa tradição chamou «primordial» e, dentro da linha que nos é própria e peculiar, podemos
afirmar ser aquela tradição que inspirou e se exprime e manifesta nos «textos bíblicos».
(excerto - clique no titulo para ler texto completo)
Afonso Botelho
A contemplação
Afonso Botelho
O espírito crítico
Álvaro Ribeiro
Recensão «A essência do
conhecimento»
Inéditos* de
José Marinho
Juízo Final
Em nome do Deus subtil se falou de juízo final. E os homens, enquanto são
também no engano de ser, e assumem a liberdade de pensar sem garantia no que chamamos insubstancial substante,
se atribuíram um juízo final.
Juízo final, porém, como tudo quanto foi revelado, tudo quanto se manifestou e proclamou, do mais excelso ao mais trivial,
é para interpretar-se. Ele não significa, como se tornou evidente pela nossa teoria, decisivo distinguir de verdade e erro, bem e mal,
justo e injusto, mas o sublime anular no insubstancial substante, em si e para si, mas em nós e para nós, de toda a distinção
e divisão da cisão, conforme a dissemos, a cisão pela qual há a distinguir e dividir no que sabe, ou no ser do que sabe,
ou no ser para o que sabe.
O homem é para si
como o encoberto
Só se descobre o coberto ou o encoberto.
Nós dizemos coberto o que tem sobre si algo que o esconde aos olhos. Deste modo, por exemplo, o corpo
se diz coberto pelos vestidos. Quando, porém, dizemos encoberto, ou hesitamos entre o cobrir e o encobrir,
coberto e encoberto, tal dizer, e a perplexidade no dizer, revelam sentido mais fundo, maior dificuldade
da apreensão e do conceito. Assim, ocorre já em expressões comuns, ao referirmos, por exemplo, o céu, ou o sol,
coberto ou encoberto. Coberto convém ao simplesmente sentido ou percebido como velado. Encoberto, por
seu turno, convém quando o acto ou o agente de cobrir de modo mais ou menos indirecto ou mais ou menos consciente se referem.
Se retiro os vestidos, o corpo aparecerá em sua nudez; como poderei, entretanto, retirar as nuvens que velam o que é para
mim céu indefinido, indeciso, ilusório, ou face do sol? Fui eu próprio, ou alguém, quem se vestiu: e o refiro num processo,
desde o primeiro ao último gesto. E tal como vou da nudez ao corpo vestido, posso regressar deste àquela.
Perante o que aparece coberto, depende de mim ou de alguém descobri-lo; perante o que aparece encoberto dificuldade
em grau maior ou menor se depara. O processo e a consequente situação escapam-me, de algum modo:
ou ao meu poder, ou, mais subtilmente, ao meu saber.
Tal a breve síntese das longas reflexões sugeridas pela situação do homem quando regresssa do sentido
do mistério remoto ou do drama insolúvel ou irresolúvel, ao sentido do renovado enigma do ser da verdade para si.
No sentido menos comum ou já trivial do drama insolúvel, um ser alheio ao ser do homem é, para ele, como o
de que o seu ser depende; no sentido exclusivo do mistério, toda a consciência, todo o conhecimento,
todo o saber quedam dependentes de uma verdade alheia ao pensamento.
Que significado, porém, pode encontrar-se para tal dependência? Pois o que depende do que é enquanto é, ou é ser
da verdade, e se dirá então absoluta ou estrita e inelutável necessidade, outro certamente será do
que ele. Se é, porém, o irredutível outro, como pode tal relação de algum modo estabelecer-se, como o que
se sente, como o que se crê, como o que se pensa?
E o que depende enquanto pensa, depende então da verdade substancial do que é, mas com a condição de algo haver
dessa verdade no próprio ser como o que é enquanto pensa, ou no próprio pensamento. Se, porém, no pensamento a verdade
é como substancial, ou como o que plena e necessáriamente cumpre todo o pensamento, que sentido tem então pensar?
Pois pensar é carecer de algum modo da verdade que na visão unívoca não foi, ou não foi para si, ou foi dada no limite
do ser qual somos ou do pensamento qual pensamos.
De qualquer modo, e isso importa atenta e reiteradamente considerar, o homem é para
si como o encoberto, e o será em seu ser, ou no pensamento, ou num e noutro.
José Marinho
* Homo Viator esclarecerá a origem destes inéditos
em devido tempo
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Nec
Oblitus!
Nunca esquecidos!
(em ordem alfabética)
Afonso Botelho
Álvaro Ribeiro
Francisco Sotto-Mayor
Jorge Filgueiras
José Marinho
Leonardo Coimbra
Luis Zuzarte
Mario Ferreira dos Santos
Orlando Vitorino
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