Com meu sôfrego amor inexperiente,
Quis amar e ser amado.
Amei eu toda a gente
Que se encontrou a meu
lado...
Os amigos, porém, não me
entenderam,
Nem eu os entendi; ai deles
e de mim!
Os laços que se deram se
desderam...
Fugimos de o dizer; mas foi
assim.
Mesmo assim, julguei eu que
os aceitava
Em que recantos nem sei bem
do peito!
Nenhum deles, porém, mo
acreditava...
Eis a razão por que os já
não aceito.
Minhas mais íntimas
virtudes, vi-as
Por eles próprios
humilhadas.
E as mãos que lhes abria,
retraía-as,
Como quem pede, embalde,
nas estradas.
Mas serei eu melhor? Serei
mais justo?
E eis o meu desespero
maior!: ver
Como torço e retorço, a
todo o custo,
Para acusá-los e me
defender.
Excerto de:
"Poema de Amor sem Fé nem Esperança"
José Régio, As Encruzilhadas de Deus.
As palavras da Poesia são bálsamo
para a mente-alma deixada seca por árduos passeios, dados passo a passo por entre perdidas veredas do pensamento cansativo e
necessário, no caminho duro que vai da ignorância à
sabedoria que cada um exige; impõe-se depois o silêncio, pois
não há saber
que não vá desaguar no apaziguado silêncio, e repousamos na breve
melancolia do sem mais que dizer. É então que a poesia, atrevida e viçosa como
criança a brincar em jardim, pode vir redizer alguma da humana
simpatia.
Depois de alguns anos a ter aqui a pergunta:
"como é possível não filosofar?", que abria interrogativamente este "sítio"
(de monólogo
fatalmente egocêntrico, por ausência de companhia...) na aspiração furtiva e
ingénua de
transmitir a uns mais novos alguma da inquietação saudável e saudosa que nos
faz ser humanos, resolvi agora passar à pergunta: -"como é possível
resistir à poesia?"
Digamos, desde já, que este propósito é tão
ridiculamente insensato como o anterior, pois todos os segundos, horas, dias,
semanas, meses e
anos da vidinha que corre pelas nossas veias entorpecidas de medo e
ensombradas de mesquinhez nos grita sem cessar: "O que é que isso
interessa?", "O que é que ganhas com isso?"
Ora... A bem dizer, nada!
Não me expliquei bem? Então Régio conta. ( Por mim, por agora, por
aqui me fico.)
No circo cheio de luz
Há tanto que ver!...
«Senhores!»
- Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores -
«Entrai, que não custa nada!
« À saída é que se paga...»
(E eu sou aquele palhaço
Com listras!, e estardalhaço,
Chamando público...)
Na arena,
Está toda a companhia,
E o público contracena.
Excerto de "Amén", "As encruzilhadas de Deus".
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(A Introdução de Março 2006)
Como é possível?
Como é possível não filosofar?
Não corre o pensamento, incansável e inquieto, pelos mais recônditos
recantos da nossa mente? E ao fazê-lo não está, as mais das vezes,
pensando-se a si mesmo?
É um facto, ou um fado,
que todos nós, nesta época e nesta sociedade, pensamos com a mesma cadência
e naturalidade com que respiramos...
Desde
crianças, e durante todo o "período educativo", ainda frágeis e incautos, vemo-nos incapazes de
escapar ou
alterar as condições em que, dia após dia após dia, nos inculcam esse hábito de
pensar ininterruptamente...
E, no entanto, apesar de educados neste país Europeu, filho da
Cultura Ocidental, não podemos pensar ou aceder à Filosofia Portuguesa... A
nossa ilustre Academia e seus ilustres Académicos apenas refere, com
modéstia de louvar (?), a Filosofia em Portugal, registando assim o
que podemos interpretar como sendo as passagens ou as estadias, porventura
turísticas, da Filosofia no nosso hospitaleiro e solarengo País.
Os que, a partir de 1957, se agruparam em torno de um exercício
filosófico Português, constituindo o chamado grupo da Filosofia
Portuguesa, parece que não conquistaram, para eles e para nós, o direito
à cidadania intelectual Portuguesa, uma vez que continuam parcialmente
ignorados, e por alguns avatares até mesmo marginalizados, como se comprova
na leitura dos éditos curriculares da ilustre Universidade de Lisboa, e sua
Faculdade de Filosofia - a única que refiro por me ser possível visitá-la
com alguma facilidade.
Entretanto, como não escapamos à moderna benesse de sermos moldados
no hábito de pensantes obsessivos, acabamos moldados no pensamento dos
outros, disfarçadamente dependentes de outras culturas e outras línguas.
A inexistência existente... Prosseguindo, assim, uma vetusta tradição deste País, a dos
estrangeirados, zarpamos céleres em direcção às Lovainas e Sorbonnes,
para ai arrecadar a autoridade que depois, já na Terrinha, nos permitirá
então, em opúsculo certeiro, confirmar a inexistência de qualquer
Filosofia Portuguesa.
Fica-nos
bem esta singela e paciente pequenez, este contentamento descontente com o
nosso modesto rés do primeiro andar, a contar vindo do Céu!
Mas,
mesmo na solidão desta Cultura sem coragem para afirmar a sua Filosofia,
como é possível resistir ao desafio de orientar esse hábito de pensar para
os sobressaltos aventurosos do livre pensamento?
Como é possível não tentar transformar esse processo mental, tendencialmente repetitivo e imposto pela necessidade, num exercício
de liberdade e descoberta, num caminho de autonomia e autoria, numa dinâmica de identificação e partilha?
Sei que não vou por aí!
Finalmente...reduzir a
"Filosofia" a uma disciplina escolar e ver nela a "matéria para marrar", é
um dos tristes resultados de um sistema de ensino alienante,
tristonho e incompetente. Em vez de promover a autonomia do pensamento, esta
"filosofia" é mais um molde para completar o modelo do "cidadão
europeu" - um
votante pacato, culto mas conformado, consumista compulsivo mas
ambientalista, escravo do trabalho mas viciado na reforma e, portanto, um
refém do
politicamente correcto. Não, isso não!!!
Há que dizer,
como disse José Régio em poema inesquecível:
Não sei por onde vou,
Não sei para
onde vou,
- Sei que não
vou por aí!
Para ler o
poema completo, clique aqui.
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Os
escritos...
(ou será
melhor desistir da Filosofia no ensino obrigatório????)
Os ditos...
-
Filosofia? É filosofar...
O resto são restos.
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a curiosidade,
no filósofo, morre depois da esperança!
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Errar é humano;sejamos
errantes...
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Com a Net... há
muito para navegar!
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A informação
já não esta fechada em mãos avaras!
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Mas
há quem queira mantê-la fechada!
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Aqui conversa-se, em Português, claro...
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Mas, como sempre,
esforçados poliglotas
-
(até onde o
engenho nos permitir)
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Todos os planos
são para falhar, está planeado.
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Qualquer frase fresca
merece vir à janela da mansarda
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Quem escreve,
responsabiliza-se.Quem lê, arrisca-se.
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Só há autores.
Leitores? Felizmente, já escrevem...
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Não leia só os outros...
Escreva-se a si.
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Não por vaidade, mas
por curiosidade.
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