Anselmo de Cantuária

 

Este texto é composto de duas partes, a I Parte serão os meus Comentários, a II Parte serão os Excertos (de Santo Anselmo)

 

 

I Parte : Comentários

 

 

O conceito de Deus

 

 

Não há conceito mais complexo, e mais simples, e mais fácil, e mais difícil, que aquele onde os opostos coincidem, os limites são infinitos, e do qual o conhecimento é impossível, mas o conhecido é real, é o Verdadeiro Real, o Revelado (ou novamente velado).

 

Esse é o conceito de DEUS.

 

(Explicando as minhas afirmações do parágrafo anterior:

1- O mais complexo, por todos os seus atributos serem infinitos

2- O mais simples, por ser o Ser

3- O mais fácil, por ser dado, nunca recusado ou escasso

4- O mais difícil, por não ser à nossa medida e ser, portanto, impossível de conquistar)

 

 

A Idade Média

 

 

Parece ainda perdurar em certos meios culturais, onde se aceita que a Humanidade progride ou regride, a ideia que a Idade Média não foi uma era de progresso para a humanidade.

 

Como argumento para justificar tal juízo, diz-se que antes dela, em algumas notáveis culturas e civilizações da Antiguidade, e depois dela, como no Renascimento, Luzes ou Modernidade, foram bem superiores e relevantes os feitos do saber, os avanços do conhecimento, a fecundidade das artes. Diz-se ainda que a Modernidade teve como uma das suas maiores dificuldades a necessidade de criar os antídotos para alguns frutos venenosos da semeadura Medieval, como a superstição, o fanatismo, o dogmatismo.

 

A meu ver, no entanto, tal juízo não é suficientemente preclaro e justo. Há muita incompreensão sobre a Idade Média porque entender a Cultura Medieval requer um esforço de apreensão do mais difícil conceito que a mente humana pode conceber, que é, como eu no início afirmei, a Ideia de Deus… Tendo sido essa a primordial tarefa intelectual a que se dedicaram os filósofos da Idade Média, quem os quiser entender tem que os acompanhar nessa imensa viagem.

 

 

As Religiões da Revelação

 

 

De facto, foi na Idade Média que os Povos ligados à bacia do Mediterrâneo viveram a milenar e persistente expansão cultural e civilizacional das Religiões Monoteístas.

 

Dessa expansão resultou, em certas épocas, um caudal intenso e turbulento de alterações políticas, económicas, militares, com enormes consequências históricas e culturais.

 

Rodeada desse agitado refazer de impérios, nações, continentes, a Filosofia Escolástica procurou responder condignamente à Religião Revelada, mas não esquecendo, e progressivamente integrando, os saberes humanos mais profanos da Antiguidade. A Escolástica atingiu, assim, um cume de perfeição e equilíbrio na análise do intelecto e da linguagem, da intuição e da razão, da alma e do espírito humanos, à luz da Revelação, ou do conhecido real de Deus e perante a sombra do insondável e abismal Desconhecido potencial de Deus.

 

Nesse esforço ficaram, desde logo, inseminados, ou recuperaram novas raízes, muitos dos grandes temas e polémicas que se vieram a desenvolver nas épocas subsequentes e, ainda hoje, são visíveis e problemáticos, para quem souber ver...

 

No excerto abaixo pode-se vislumbrar, por exemplo, a temática do (Poder) Infinito no real Finito (do Acto), o despontar da polémica do “nominalismo” versus “realismo”, assim como a presença recursiva do (não) ser na negativa, que perturba (a completude) e desafia (a consistência), por exemplo, de todos os Sistemas Axiomáticos da Lógica de primeira e segunda ordem. 

 

 

Escolástica: Fé e Razão

 

 

Anselmo de Cantuária é um dos interlocutores da aventura Escolástica.

 

Os dois excertos aqui traduzidos são também exemplos de um esforço para inteligir os preceitos do intelecto e os paradoxos do conceito de Deus, tentando coadunar de forma tão exacta quanto possível a inteligência humana com a Verdade Divina, revelada nas extraordinárias ocorrências proféticas que fundaram e potenciaram o desenvolvimento do Judaísmo, do Cristianismo e do Islão.

 

Pergunta-se: quem, no Ocidente Cristão, entenderá “O Islão de Hoje”, se ignorar a cultura da Idade Média? É que, em alguns sentidos, o Islão está na Idade Média – o que, na minha maneira de ver, não é desprimor, apenas uma consequência inexorável da realidade histórica, tal como ela aconteceu.

 

A quem julgar a questão acima deslocada e irrelevante, lembramos apenas que, se nos nossos dias o suicídio religioso voltou a alastrar, chamado martírio pelas mais irredutíveis Comunidades Islâmicas, e terrorismo pelo Ocidente Capitalista, nos primórdios do Cristianismo, que são também os primórdios deste Ocidente, “ foi preciso que Agostinho de Hipona buscasse argumentação moral contra o suicídio por amor ao eterno, para que essa prática começasse a perder a sua força entre os cristãos” 1.      

 

Anselmo de Cantuária é um dos nossos possíveis ajudantes, tal como o serão outros grandes autores Medievais, como São Boaventura, São Tomás de Aquino, Escoto, Cusa. 

 

Mas a todos estes não poderemos deixar de acrescentar também os autores Andaluzes Averroes, Ibn Arabi, Maimonides, ou outros ilustres Muçulmanos de paisagens não Ibéricas, como Al Jilani, Al Ghazali ou Rumi, porque todos eles deixaram uma marca indelével na Cultura Humana e, em particular, no Islão.

 

 

II Parte : Excertos

 

Fraqueza

 

[24:16]

Sobre impossibilidade e necessidade, perturba-me o facto de dizermos que algo (por exemplo, mentir) é impossível a Deus, ou que Deus é algo (por exemplo, justo) por necessidade.

 

Pois a impossibilidade sugere incapacidade e a necessidade sugere obrigatoriedade ou constrangimento; mas, em Deus, não há incapacidade nem constrangimento.

 

Pois se Deus fosse verdadeiro pela sua incapacidade de mentir, ou se fosse justo por obrigação ou constrangimento, então Ele não seria livremente verdadeiro ou justo.

 

Se a tua resposta a isto é que, no caso de Deus, esta impossibilidade e esta necessidade derivam de Seu insuperável poder, então eu pergunto: se é como dizes, por que razão utilizamos, para nos referirmos a este poder, palavras ou nomes que significam fraqueza?

 

Aliquid

 

[42:22]

Ao falarmos de “alguma coisa” (aliquid), fazemo-lo em quatro modos:

1.      Pois nós apropriadamente consideramos “alguma coisa” aquilo que: referimos por um nome, e do qual temos uma representação mental, e que existe na realidade – sendo exemplos desta verdade uma pedra, ou uma árvore, uma vez que ambas têm um nome próprio, representação mental e existem na realidade.

2.      Também consideramos “alguma coisa” o que: referimos por um nome, e do qual temos uma representação mental, mas não existe na realidade – como, por exemplo, uma quimera, uma vez que, pela palavra “quimera” significamos um conceito mental semelhante a uma espécie animal mas que, no entanto, não existe na realidade.

3.      Também é nosso hábito considerar como sendo “alguma coisa” aquilo que: referimos por um nome (não havendo na nossa mente qualquer representação correspondente a este nome) mas que não tem qualquer existência como, por exemplo, “injustiça” ou “nada”. Pois nós tomamos “injustiça” por “alguma coisa” quando dizemos que alguém foi punido com injustiça, ou seja, foi punido com “alguma coisa”. E também tomamos “nada” por “alguma coisa”, não só quando dizemos “isto é nada” como quando dizemos “isto não é nada”, pois mesmo que um, ou ambos os juízos, sejam verdadeiros, ou falsos, nós estamos a dizer que algo é de alguma coisa, ou que algo não é de alguma coisa. Contudo, nas nossas mentes não existe um conceito de “injustiça” ou um conceito de “nada”, mesmo que estas palavras sejam significantes, tal como são significantes os substantivos universais referentes a infinitos, porque usar uma palavra de forma significativa não é o mesmo que formar um conceito na mente. De facto, dizermos “não-homem” tem significado, porque leva o ouvinte a compreender que “homem” não esta contido, (mas antes está expressamente ausente), no significado daquela expressão. No entanto, “não-homem” não forma, na mente, qualquer imagem que seja nomeada por esta expressão – ao contrário de “homem”, que tem o seu conceito próprio, de que esta palavra é o nome. Portanto, “injustiça” significa a ausência da esperada justiça e não traz ao entendimento qualquer outro elemento; quanto a “nada”, significa a anulação de qualquer coisa, e não traz coisa alguma ao entendimento.

4.      Também consideramos como sendo “alguma coisa” aquilo que não tem um nome próprio, nem tem um conceito, nem goza de qualquer forma de existência – como, por exemplo, quando nós chamamos algo de “não ser” e dizemos que esse “não ser” é… Por exemplo, quando dizemos que se deve ao sol “não estar” acima do horizonte o facto de não ser dia; se cada causa é considerada “alguma coisa”, e se cada efeito é considerado “alguma coisa”, então não podemos negar que “não ser dia” e “o sol não estar” são “alguma coisa”, uma vez que a primeira expressão é efeito e a segunda é causa. Temos ainda uma outra situação do mesmo tipo, em que também dizemos que “não ser” é. Trata-se dos casos em que alguém diz que “alguma coisa” não é a causa de um certo efeito, e nós respondemos que sim, que é como ele diz. Contudo, se falássemos em termos exactos, deveríamos responder que assim não é, como ele diz que não é.          

 

Concluindo: embora, ao falarmos de “alguma coisa”, o façamos em quatro modos diferentes, apenas em um a expressão “alguma coisa” é adequadamente utilizada. Tal não é o caso nos outros modos, onde o que exprimimos é “como se fosse alguma coisa”, pois delas falamos “como se fossem alguma coisa”. 

 

 

Traduzido do Latim, edição de F.S. Schmitt “ Ein neues unvollendetes Werk des hl.Anselm von Canterbury “ [Beiträge zur Geschichte der Philosophie und Theologie des Mittelalters, Vol. 33 (1936), Issue 3], pp. 23-48, para Inglês, em “Complete Philosophical and Theological Treatises of Anselm of Canterbury, translated by Jasper Hopkins”, donde fizemos a tradução destes excertos para Português.

http://cla.umn.edu/sites/jhopkins/PhilFragments.pdf

 

Regresso aos Autores