Nicolau de Cusa
A DOUTA IGNORÂNCIA
(Extractos da edição da Fundação Gulbenkian, tradução
de João Maria André)
[cap. IV, Livro Segundo, 113.]
“Deus
é a maximidade absoluta e a unidade, antecedendo e unindo absolutamente
todas as coisas diferentes e distantes, como é o caso dos contraditórios,
entre os quais não há posição intermédia. Essa maximidade absoluta é, de
modo absoluto, aquilo que são todas as coisas, é o princípio absoluto em
todas, o fim das coisas e a entidade. Nele, todas as coisas são sem
pluralidade o próprio máximo absoluto de modo simplícissimo e indistinto.
Tal como a linha infinita é todas as figuras, assim do mesmo modo o mundo
ou universo é o máximo contraído e uno, que precede os opostos contraídos,
como são os contrários, e que existe contraidamente no que são todas as
coisas, e é o princípio contraído em tudo, o fim das coisas, o ente
contraído, a infinitude contraída para ser de modo contraído o infinito.
Nele todas as coisas sem pluralidade são o próprio máximo contraído com
contraída simplicidade e indistinção, assim como a linha máxima contraída
é, de modo contraído, todas as figuras.
[114]
Daí
que, quando se considera rectamente a contracção, todas as coisas são
claras. Pois a infinitude contraída ou simplicidade ou indistinção desce,
na contracção, em grau infinito, daquele que é absoluto, de modo que o
mundo infinito e eterno caia, sem proporção, da infinitude e da eternidade
absoluta e o uno da unidade. Por isso, a eternidade absoluta está desligada
de toda a pluralidade. Mas a unidade contraída que é o universo uno, apesar
de ser o máximo uno, uma vez que é contraída, não está desligada da
pluralidade, embora não haja senão um só máximo contraído. E assim, ainda
que seja maximamente uno, a sua unidade é, contudo, contraída pela
pluralidade, como a infinitude é contraída pela finitude, a simplicidade
pela composição, a eternidade pela sucessão, a necessidade pela
possibilidade, etc… como se a necessidade absoluta se comunicasse sem
mistura e terminasse de modo contraído no seu oposto. E se a brancura
tivesse em si o ser absoluto, sem a abstracção do nosso intelecto, e fosse
por ela que o branco fosse contraidamente branco, então a brancura
terminaria pela não brancura no branco em acto, de modo que este fosse
branco pela brancura porque sem ela não seria branco.
[115]
Daqui
poderá aquele que investigar extrair muitas coisas. Pois assim como Deus,
sendo imenso, não é nem no sol nem na lua, embora neles seja o que são no
modo absoluto, assim o universo não é nem no sol nem na lua, mas neles é o
que são de modo contraído. E porque a quididade absoluta do sol não é
diferente da quididade absoluta da lua – porque é o próprio Deus que é a
entidade e a quididade absoluta de todas as coisas – e a quididade contraída
do sol é diferente da quididade contraída da lua – porque assim como a
quididade absoluta de uma coisa não é a própria coisa, assim a quididade
contraída de uma coisa não é diferente dela própria - torna-se então claro
que como o universo é uma quididade contraída, que é contraída de um modo
no sol e de outro modo na lua, então a identidade do universo existe na
diversidade, tal como a unidade na pluralidade. E, assim, embora o universo
não seja nem sol nem lua, é, contudo, sol no sol e lua na lua. Mas Deus não
é sol no sol, e lua na lua, mas é aquilo que é o sol e a lua sem
pluralidade e sem diversidade. Universo significa universalidade, ou seja,
unidade de muitas coisas. Por isso, assim como a humanidade não é nem
Sócrates nem Platão, mas Sócrates em Sócrates e Platão em Platão, assim é o
universo em relação a todas as coisas.
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