Comentários Incompletos sobre a Prova da Incompletude

(ou o génio de Kurt Godel…)

 

Em lógica pura de primeira ordem a verdade das proposições é relativa ao conjunto de regras sintácticas que compõem o sistema de onde essas proposições emanam. Por outras palavras: definido o sistema formal, o que implica definir os signos e seu valor e as regras da sua utilização, ficam determinadas as condições da validade sintáctica.

 

Elaborado o conjunto das proposições consideradas axiomáticas, ou seja, aquelas cuja validade ou é intuitivamente evidente ou é deduzida (provada) de outro sistema axiomático, podem seguidamente deduzir-se dos axiomas os teoremas, que são deduzidos na obediência estrita às regras sintácticas ou combinatórias. Todas as teorias matemáticas são baseadas em axiomas, mesmo aquelas que, tendo entrado no uso comum, são utilizadas na sua vertente operativa sem qualquer referência aos axiomas que as sustentam. Depois do matemático Guiseppe Peano, em 1901, ter apresentado os cinco axiomas que, segundo ele, eram a base axiomática de todo o sistema dos números naturais, o sistema continuou a ser intensamente utilizado, como até ali, na total ignorância desses axiomas, garantes da fiabilidade lógica do sistema.

 

Os sistemas formais, ou de lógica pura, não são concebidos para serem descritivos da realidade física, antes pretendem fixar em símbolos alguns elementos formais e operações combinatórias ou relações lógicas que preenchem o pensamento. Como tal, as proposições elaboradas no âmbito destes sistemas não são julgadas pela sua verdade semântica em relação a entidades físicas concretas, como o seriam se fossem teorias científicas, mas sim, como ficou dito acima, em relação à validade sintáctica ou rigor dedutivo com que foram elaboradas.

 

Mas é também essa sua natureza abstracta, formal e sem conteúdo descritivo ou referencial que torna possível “preencher” alguns dos constituintes dessas proposições, como as variáveis, as constantes ou os predicados por qualquer tipo de objectos ou conteúdos.

 

Vejamos o caso da proposição (x)P(x), cujo significado estritamente lógico será “dado um qualquer x, P é uma propriedade de x” tanto pode significar “dada uma alface, ser verde é uma propriedade da alface” como “todos os seres humanos são mortais” (ou seja, dado qualquer ser humano, a mortalidade é uma propriedade desse ser).

 

Assim, a única vertente semântica própria destes sistemas eminentemente formais é o sentido que possam ter as próprias regras lógicas que regem o sistema. Para os Platonistas, este sentido da “verdade” das regras lógicas, que parece impor-se ao pensamento, é dado, e garantido, pelas Ideias. É da contemplação das Ideias que a inteligência ou intuição retiram os axiomas fundadores e os critérios de orientação da sintaxe lógica. Mas para um empirista lógico, ou um positivista lógico (assim se identificavam os intelectuais que rodeavam Godel, no círculo de Viena), este tipo de sentido, que é inerentemente “metafísico”, não existe. Essas Ideias também não existem. O que existe, afirmam eles, está dentro da realidade objectiva que nos é dada pelos sentidos, pela experiência.

 

 Portanto, para estes empiristas, toda a Lógica se resume a uma sintaxe convencionada que regula as relações entre conceitos que a faculdade racional permitiu abstrair da experiência sensível. A Lógica existe apenas como um conjunto de representações mentais, que utilizamos na linguagem como no pensamento, mas não exprime, descreve, ou refere qualquer conteúdo cognitivo sobre o mundo real ou sobre alegados modelos metafísicos.

 

Um sistema formal será considerado consistente se nenhuma das proposições deduzidas no seu domínio combinatório de referência for contraditória. A proposição contraditória mais não é que o diabólico “paradoxo”, que desde os tempos remotos de Zenão de Eleia ensombra as expectativas optimistas dos formalistas e logicistas de todos os tempos que pugnaram, e pugnam, pela pura formalidade.

 

Um sistema formal será considerado completo se a verdade de todas as suas proposições (axiomas ou teoremas) puder ser provada dentro do próprio sistema.

 

A consistência e completude dos sistemas lógicos foram as características almejadas pelo esforço de ilustres matemáticos e lógicos que, quer durante o século XIX, quer no século XX, reuniram esforços para resolver alguns dos paradoxos ou enigmas que contaminavam alguns dos sistemas e teorias lógico-matemáticas.

 

Foi o famoso matemático David Hilbert quem tocou a rebate para essa exaltante e arrebatadora tarefa de percorrer e mapear todos os mares da Lógica e da Matemática. Se a Lógica é o domínio puro do pensamento, como Hilbert julgava, essa pura formalidade não podia encerrar obstáculos estranhos à mente nem "Adamastores"….                                                                       

                                                                                                                                                                                                             David Hilbert

 

“Em Lógica não há ignorabimus, afirmou enfaticamente Hilbert na sua célebre comunicação ao Segundo Congresso Internacional de Matemáticos, em Paris, no ano de 1900. Nessa solene comunicação em início de século, Hilbert toma a iniciativa de enumerar os 23 problemas que ele julgava serem os maiores desafios e os problemas de mais premente e necessária solução nas décadas seguintes. O primeiro desses problemas era produzir a prova da validade da hipótese do continuum de Cantor.

 

Kurt Godel, que parecia destinado a gerar profundas desilusões a muitos dos seus colegas do Círculo de Viena, fossem eles logicistas ou formalistas, veio a demonstrar, juntamente com Paul Cohen, que não era possível provar a validade ou a falsidade dessa hipótese, no âmbito das capacidades combinatórias do sistema dos conjuntos, de Cantor, de onde essa hipótese é inferida. Eis, desde logo, a primeira situação em que, contrariando as expectativas optimistas de Hilbert, se manteve, pelo menos por mais algum tempo, um ignorabimus em relação a um tema específico da área da Matematica.

 

Numerosos pensadores, e entre eles algumas das figuras gradas do já referido Positivismo Lógico, meteram-se ao trabalho, ansiando por resolver os problemas listados por Hilbert. Pretendiam também delimitar a lógica, como se disse já anteriormente, a um formalismo total. Foi neste ambiente intelectual que Godel se formou, primeiro como estudante e mais tarde como membro do Circulo, que se reunia regularmente nos cafés de Viena e promovia sessões públicas de trabalho intelectual.

 

A tese de licenciatura de Godel não podia deixar de versar algum dos temas mais discutidos no Círculo de Viena.

 

Não surpreende que Godel tenha escolhido para tema da sua dissertação apresentar a prova da completude dos sistemas de lógica pura, ou cálculo predicativo, embora fosse um assunto que era dado como garantido, porventura pouco profícuo atendendo até a que a sua consistência havia sido já anteriormente provada. No entanto, algumas das surpresas que Godel acabou por trazer a lume tiveram o seu prenúncio, como iremos ver mais adiante, neste seu primeiro trabalho académico.

 

    Godel e seu amigo Einstein

 

Passemos agora em revista os tópicos principais de um sistema de lógica pura, também chamada de lógica quantificacional, em que as proposições são despidas de qualquer conteúdo não formal.

O modelo de um sistema formal, também chamado interpretação, consiste num conjunto de elementos:

- um “universo do discurso”, ou seja, um domínio de indivíduos, quer representados por variáveis, quer por constantes,

- um conjunto de predicados, sua representação simbólica e significado

- as relações entre os elementos acima, e sua representação simbólica

A estes elementos constituintes não lógicos acrescem os elementos especificamente lógicos, ou seja:

-os signos representativos de operações e conexões lógicas e dos determinantes quantitativos como um, algum, qualquer, nenhum, todos.

 

Exemplos:

“Um indivíduo” será representado pelas constantes a, b, ou por variáveis x,  y.

“Qualquer” ou “Todos os indivíduos” serão representados pelos signos acima, envolvidos em parênteses (). Os predicados serão representados por P, Q, e as relações serão representadas por R. Além destes signos, temos os seguintes operadores lógicos:

 

->      se… então (if..then)

 

<->    se, e apenas se…

 

        existe

 

( )       todos, qualquer

 

=        igual

                                                                  

&          …e….

 

Podemos agora “escrever” proposições como:                                                                                                                       Carnap e Sclick, membros do circulo de Viena

 

x P x                  existe um indivíduo x tal que a propriedade P é dele

                         ou

                    um indivíduo x tem a propriedade P

(x) P(x)                dado qualquer x, P é propriedade de x

 

R(a b)          dados os indivíduos a e b, estes têm uma relação R

 

(x) (P(x) & Q(x)) -> Q(x)

 

Dado qualquer x, se x tem a propriedade P e se x tem a propriedade de Q, então  x tem a propriedade de Q.

 

(x)(y) ((x=y) -> (P(x) <-> P(y)))

 

Para qualquer x, para qualquer y, se x=y então x tem a propriedade P se, e só se, y tiver a propriedade P.

 

Como dissemos antes, nada nos impede de atribuir um significado qualquer ás variáveis e constantes de uma proposição deste tipo. Tomando como exemplo a proposição anterior, ela pode ser lida como:

 

- dado “eu”, e dado “o autor deste texto”, se “eu” sou “o autor deste texto”, então “eu” só sou Positivista Lógico se o “autor deste texto” for Positivista Lógico.

 

Acontece que esta proposição, de validade formal suficientemente garantida pela sua correcta sintaxe, até é, neste caso específico, verdadeira em termos factuais… De facto, alguém que leia este texto poderá reconhecer se eu sou, ou não, Positivista Lógico. Mas essa veracidade factual da proposição, esse valor semântico é, apenas e só, uma mera consequência de os termos com que substituímos as variáveis serem plausíveis, o que é uma coincidência e não um resultado da sua validade formal e lógica.

 

Bastará substituir aquelas variáveis por algo diferente, para daí poder resultar uma proposição com pouco, ou nenhum sentido nem valor semântico concreto, apesar de se manter inalterada a sua validade formal.

Exemplo: -se as estrelas são luzes no céu, então as estrelas são pirilampos se e só se as luzes no céu forem pirilampos.

 

Convém agora lembrar que só os sistemas consistentes, ou seja, os que têm axiomas e regras de dedução tais que não integram, nem produzem, paradoxos ou proposições contraditórias, oferecem dificuldades na produção da prova da completude. Os sistemas inconsistentes, pelo contrário, têm completude a mais, ou seja, admitem “provas” até em excesso, porque tudo pode ser “provado” num contexto inconsistente, pejado de contradições e paradoxos.

 

Quando Godel apresentou a sua dissertação de doutoramento com a prova da completude dos sistemas de lógica pura, trabalhou com um sistema e proposições semelhantes ao que exemplificámos acima.

 

E dada a simplicidade e formalidade desses sistemas, julgar-se-ia que tal tarefa exigiria pouco esforço combinatório. Porém, tal não aconteceu!!! E Godel, que obviamente se apercebeu, e foi surpreendido, pelas dificuldades que teve de enfrentar, logo pensou e alvitrou que haveria uma forte probabilidade, contra muitas opiniões correntes, de ser impossível provar a completude de sistemas que fossem mais complexos, ou seja, menos formais e com mais conteúdo referente a elementos mais concretos. Mas nenhum dos seus colegas ou contemporâneo se alarmou. Ninguém se preocupou, sequer, com esta possibilidade… Embalados nas suas convicções filosóficas, não se aperceberam de nada. Mais tarde, quando Godel provou essa impossibilidade, a incompreensão e o espanto precederam as conclusões devastadoras que tal impossibilidade trazia ao logicismo e ao formalismo.

                                                                                                                                                                                                                                    

Lembremos que Hilbert tinha incluído na sua lista de “problemas a resolver” a elaboração da prova da completude de sistemas lógico-matemáticos. Para começar, essa prova deveria ser produzida para o sistema lógico subjacente à formação dos números, um sistema indubitavelmente formal, mas enriquecido com os axiomas da aritmética.

 

Apesar de tudo, era um começo humilde e cuidadoso... A primeira prova referia-se à mais simples das áreas da matemática, o sistema aritmético…

 

E como os números são concretos e o seu sistema funciona bem, de há milénios para cá, naturalmente o seu modelo formal era visto como inquestionavelmente consistente e seria, com toda a probabilidade, também  completo.

       

 

David Hilbert               Em 26 de Agosto de 1930, algumas semanas antes de participar na conferência de Konigsberg sobre “A Epistemologia das Ciências Exactas”, em que

                             apresentou o seu (posteriormente famoso) trabalho sobre a Incompletude, Godel reuniu-se no café Reichsrat, em Viena, com Carnap, Feigl e Waisman, tendo confidenciado a Carnap parte da sua descoberta. No entanto, mesmo Carnap, que é assim avisado e tem algum tempo para ponderar as façanhas de Godel, comparece na Conferência totalmente absorto nas suas anteriores congeminações e apresenta uma comunicação “As principais Ideias do Logicismo”, onde reforça a sua posição de sempre. Insiste novamente na imperatividade da consistência dos sistemas lógicos e afirma que todas as verdades matemáticas podem ser reduzidas a tautologias lógicas, em nada dependendo da intuição meta-lógica ou metafísica. Assim, descurou totalmente a questão da possível prova da incompletude produzida pelo seu amigo Godel, prova que iria contrariar, senão mesmo refutar, a sua visão dos sistemas formais, que considerava necessariamente expurgados de qualquer paradoxo ou elemento não racional, paradoxo esse que reaparecia no cerne do teorema da incompletude, e gerado pela própria sintaxe do sistema.

 

Alguma razão tem Thomas Kuhn para afirmar no seu livro “A estrutura das Revoluções Científicas” que “em ciência…a novidade só emerge com dificuldade, dificuldade que se manifesta na forma de uma resistência filha das expectativas que constituem o pano de fundo. Inicialmente, apenas é experimentado aquilo que é já antecipado e usual, mesmo que em circunstâncias onde se já vêem, ou preanunciam, as anomalias que mais cedo ou mais tarde são irrecusavelmente detectadas.”

 

A comunicação de Godel, apresentada no segundo dia da Conferência, com a prova da completude do sistema de cálculo predicativo foi recebida com esperada indiferença pois, como já foi dito, a produção dessa prova coincidia com as expectativas gerais. No dia seguinte, porém, um dia destinado a debates sobre os temas já apresentados, Godel fez então uma brevíssima intervenção, onde afirmou que era possível provar a incompletude de sistemas formais. Esta tão surpreendente quanto fugaz revelação foi recebida em silêncio pelos ilustres Conferencistas de Konisgberg, parecendo que todos se encontravam atordoados com o seu próprio ruído argumentativo e se sentiam incapazes de reconhecer a relevância do trabalho que Godel aí anunciava... Um ano mais tarde, em 1931, ano em que publicou o seu famoso trabalho, ainda Carnap refere no seu diário: “Godel esteve hoje aqui. Acerca do seu trabalho, digo que é muito difícil de entender”.

 

No entanto, o seu trabalho tinha uma perspectiva geral relativamente acessível, como Godel explicou numa carta, “penso que o meu teorema (…) trata do facto que não é possível dar uma completa descrição epistemológica da linguagem A utilizando para isso apenas a própria linguagem A, porque o conceito de verdade das proposições construídas na linguagem A não pode ser definido nessa linguagem. Este teorema é que é a verdadeira causa da existência de proposições cuja verdade ou falsidade não pode ser decidida, ou provada, em sistemas formais que contêm aritmética.  

 

A questão, mais filosófica que lógica porque tem mais a ver com a verdade que com a provabilidade, a que Godel aqui se refere veio mais tarde a ser enunciada no chamado Teorema de Tarski, que diz: o conceito de “proposição aritmética verdadeira” não é definível em termos aritméticos. Ora esta descoberta foi realizada por Godel, quando explorou o sentido das proposições aritméticas recursivas e iterativas (repetitivas).

 

Mas a questão mais formal da provabilidade era, na faceta da consistência dos sistemas, ou na da sua completude, o que lhe interessava, em 1931, realçar. E, numa outra carta, Godel vem esclarecer as causas da dificuldade que os seus colegas e contemporâneos tiveram, nessa época, em entender o seu trabalho, quando ele foi publicado:”embora pareça surpreendente, esta cegueira não parece difícil de perceber. A sua causa radica na abrangente ausência de uma atitude epistemológica correcta para com a meta-matemática e o raciocínio não finitarista. À época, quase todos julgavam que o raciocínio meta-matemático que incluísse elementos infinitos era algo sem sentido, a menos que essas proposições pudessem ser traduzidas ou interpretadas em termos de meta-matemática finita, ou finitarista. (De notar que esta doutrina ficou refutada, na sua quase totalidade, pelas consequências dos resultados que obtive e do trabalho subsequente).

 

 Segundo esta tese, a meta-matemática finita é a única que tem, de facto, sentido, e aquela a partir da qual os símbolos matemáticos (em si mesmos sem conteúdo particular, pois são meramente formais) adquirem, finalmente, algum sentido, através das regras de uso a que ficam sujeitos.

 

Como é óbvio, a essência desta perspectiva é uma rejeição de todo e qualquer tipo de objectos abstractos ou infinitos.

No entanto, os símbolos matemáticos mais não são, afinal, que um prima facie desses objectos abstractos e infinitos, e as suas instâncias”.

 

  Godel e Einstein, em Princeton

 

Ora bem… Godel deixa aqui um testemunho que dificilmente poderemos deixar de identificar como o de um Platonista. Ele afirma a intuição intelectual e imediata dos Modelos, objectos abstractos e infinitos que crê poder ir conhecendo, sendo desde logo expressão desse conhecimento, desde tempos imemoriais, o nascimento e desenvolvimento de toda a lógica matemática, aquela lógica onde os empiristas e logicistas só viam tautologia, proposições de rigor formal e vazio, ou uma ilusão cobrindo a simples e total ausência de sentido concreto, espelhada na impossível verificação da verdade das proposições. Para Godel, porém, era possível o que para outros era impensável: produzir, por exemplo, proposições aritmeticamente verdadeiras (resultantes dessa intuição ou visão intelectual) mas cuja verdade, porque não foi deduzida, não conseguimos provar no interior do sistema formal aritmético, recorrendo aos axiomas e regras combinatórias que terão estado na origem dessas mesmas proposições, para com esses axiomas e regras produzir a prova da sua verdade.

 

Para Godel, as regras sintácticas dos sistemas formais, inventadas para manter afastado o paradoxo e as contradições, não esgotam ou capturam, no seu sentido meta-matemático e capacidade combinatória, todas as verdades geradas nesse sistema, ou sobre esse sistema, incluindo a verdade da consistência do próprio sistema. Concomitantemente à possibilidade de intuir Ideias, Godel admite a possibilidade do paradoxo, que o formalismo de Hilbert queria ver escorraçada da Matemática, mas que ele considerava um preço acessível, que pagaria com gosto, se tal fosse necessário, para poder garantir o acesso à intuição de formas num espaço metafísico próprio, sendo os paradoxos a consequência necessária da transposição ou representação destas Formas em sistemas já imperfeitos, mesmo que aspirando, na sua rigorosa e ascética formalidade, à perfeição. O paradoxo, com os teoremas da incompletude de Godel, assentou arraiais no cerne da lógica-matemática... Mas também ganhou raízes a possibilidade dessa intuição meta-matemática frutuosa, sobre modelos de misteriosa mas fecunda infinitude. Godel pôs um limite ao fácil e estafado argumento da tautologia…

 

Não se pense que esta questão deixou de ser actual… Alguns aspectos da obra de Godel têm uma contextualização histórica mais restrita, e quiçá pouco relevante nos dias de hoje.

 

Mas alguns dos temas que tratou mantêm-se bem actuais, nomeadamente na actividade de produção de software, como se pode ver nos comentários abaixo:


 “Os métodos formais são técnicas de concepção de sistemas (system design) que usam modelos matemáticos rigorosamente especificados para criar sistemas de “software” e “hardware”. Em contraste com os outros processos existentes, os métodos formais usam a prova matemática como um complemento ao “teste dos sistemas”. Este “Teste dos sistemas” é o processo normalmente utilizado pelos engenheiros para atingir um correcto funcionamento dos sistemas criados.

 

No entanto, à medida que os sistemas se tornam mais complexos, e a segurança e fiabilidade dos seus processos se torna num problema mais premente e difícil de resolver, a utilização dos métodos formais oferecem um outro nível de resposta. E porquê?

 

Porque neste processo os princípios básicos do sistema são sujeitos a esquemas de verificação formal e só obtida a prova da sua validade são aceites e integrados no sistema em construção.

 

Ora o sistema tradicional, que se baseia no uso exaustivo de testes de funcionamento para provar a validade do sistema, só pode retirar conclusões finitas. Ou seja, os testes asseguram que os sistemas não falham nas situações testadas, mas nada dizem sobre o comportamento do sistema em situações estranhas ou não incluídas nos cenários dos testes efectuados. Em contraste, assim que um teorema é provado, permanece válido em quaisquer circunstâncias.”

 

Que fique aqui registada esta constatação científica da engenharia de sistemas computacionais sobre as limitações do finitarismo lógico, contra as quais, e contra quase todos, Godel combateu toda a vida.

 

Também ficou já dito acima que produzir prova, nos sistemas matemáticos, pode ser um trabalho penoso, exigindo grande esforço combinatório e muito tempo a fazer cálculos, como Godel teve oportunidade de comprovar ao elaborar as suas provas…

 

Antes da revolução informática, era tradição submeter qualquer novo teorema deste tipo a uma extensa verificação, efectuada por colegas académicos do autor, para detectar e expurgar eventuais erros de cálculo, antes da publicação definitiva do trabalho.

 

A tecnologia actual de computação, que progressivamente tem vindo a aumentar, de forma exponencial, a capacidade de efectuar uma imensidade de cálculos em tempo escasso, trouxe expectativas revolucionárias à própria matemática.

 

 Por um lado, foi possível criar programas auxiliares da concepção de sistemas formais, que automaticamente processam a verificação dos axiomas e teoremas. Estes programas, que estão para o matemático como o processador de texto e o corrector da ortografia estão para o escritor, tornaram financeiramente viável a aplicação dos métodos formais na engenharia de sistemas complexos…

 

Por outro lado, esta fonte quase inesgotável de capacidade de cálculo permitiu experimentar novas equações e tentar atingir a prova de "teoremas" difíceis, (em boa verdade sugestões de teoremas), como "o Último Teorema de Fermat", ou o Teorema das Quatro Cores, ou calcular a curva de Peano. Esses problemas matemáticos quedam suspensos, aguardando o génio que consega, num rasgo de inteligência, vislumbrar a sua prova ( Fermat, por exemplo, ao anotar eese seu "teorema", disse que tinha descoberta uma prova maravilhosa para ele, mas não a deixou escrita, por falta de espaço...), ou aguardando as condições que tornem possível a produção da prova pela execução dos cálculos necessários. Nesse capítulo, os computadores abriram novos campos à matemática… Mas como as provas produzidas pelo computador assentam numa quantidade de cálculos que nenhum humano pode realizar em tempo útil, levanta-se a curiosa questão de saber se aceitar essa prova não requer um acto de fé, uma crença justificada na exactidão dos cálculos efectuados.

  

Retomemos agora o sistema dos números naturais para dizer que este apresentava, já antes do trabalho de Godel, alguns teoremas cuja verdade ou falsidade não tinha sido possível provar. Julgava-se, à época, que tal se devia, provavelmente, a ser demasiado difícil produzir tal prova.... Godel, porém, vem provar que a improvabilidade, ou a indecidibilidade, ou indemonstrabilidade de certas proposições geradas num sistema lógico-dedutivo são características desse sistema, e não mero fruto da incapacidade ou da estupidez humana.

 

Um dos teroremas sem prova era o "último teorema de Fermat", referido acima, e que se pode enunciar da seguinte forma: xn + yn = zn não tem solução com números inteiros se n > 2, ou seja, é possível encontrar números inteiros, que são um quadrado ( exemplo: zn=52=25) e que são, também, a soma de dois outros quadrados (exemplos: xn=32=9  + yn=42=16  logo 9 + 16 = 25), mas tal não é possível com potências superiores (por exemplo, com números ao cubo, ou elevados à quarta, à quinta etc...). Era também o caso da interessante conjectura de Goldbach; todos os números par maiores que 2 são a soma de dois números primos, ou seja, 4=2+2, 6=3+3, 8=5+3, e por aí adiante. Até agora, ainda não se encontrou um número par que contradissesse esta proposição. Mas também não é possível provar que não possa, um dia, aparecer…. Ao contrário do "Último Teorema de Fermat", cuja prova foi elaborada por Andrew Wiles, em 19 de Setembro de 1994, depois de mais de dez anos de trabalho, este caso permanece por resolver. 

 

 Curva de Peano, que permite preencher

                totalmente o quadrado.

 

Estes “pequenos mistérios” permanecem ocultos e esquecidos nas rotinas e hábitos que envolvem a nossa utilização dos números. Distraídos, não atentamos nos segredos e enigmas que a aritmética ainda possa guardar. Por exemplo, a notação numérica que utilizamos no dia-a-dia parece-nos tão óbvia que ignoramos propositadamente os axiomas que sustentam as suas facetas combinatórias. Quem se lembra que 365 significa 3 vezes dez ao quadrado mais 6 vezes 10 mais 5???

 

Como ficou dito no início, Peano definiu os axiomas necessários para fundar logicamente todo o sistema de numeração que utilizamos diariamente. O primeiro axioma é a proposição que afirma: zero é um número.

 

                                                                                                                                                                                                                                                                 Giuseppe Peano

                                                                             

É deste sistema, baseado nos axiomas de Peano, que Godel teria de provar a completude, se quisesse responder positivamente ao apelo de Hilbert. O resultado dos seus esforços foi exactamente o contrário!

 

Como não é de estranhar, a complexidade dos cálculos efectuados por Godel no seu trabalho não facilita a compreensão de todos os detalhes a quem não tenha treino matemático, nem torna fácil resumi-los e expô-los numa acessível e sucinta explicação. Mas, em contrapartida, a estratégia que concebeu é elegante e bastante simples... Esta simplicidade é uma marca bastante comum nas intuições geniais!

 

Godel definiu o seu “alfabeto simbólico” de forma peculiar… Seguiu alguns dos passos usuais que mostrámos acima, utilizando a notação formal dos Principia Matematica de Russel e Whitehead; mas juntou os chamados “números de Godel”. Nos dias de hoje, em que levamos já algumas décadas de informática, essa numeração pode-nos parecer apenas mais um, entre muitos, dos sistemas possíveis de codificação, ou “linguagens”, que se vulgarizaram com os computadores, mas em 1931 eram inéditos e uma estratégia inovadora... Vejamos:

 

Signo básico                   Número de Godel                Significado

~                                   1                                    não

         ->                                  2                                    se… então (if..then..)

x                                    3                                    variável

=                                   4                                    igual a

0                                    5                                    zero

s                                    6                                    o sucessor de …

(                                    7                                    sinal de pontuação  

)                                    8                                    sinal de pontuação

                                     9                                    primo

 

Como se percebe, o quantificador “todos” e “qualquer” é dado pelo parêntesis, e a apóstrofe, ou primo, permite criar mais variáveis, como x’, x’’, x’’’ etc

 

Podemos agora escrever uma primeira proposição, que parece sintetizar outros axiomas de Peano. Nela podem reconhecer-se algumas das qualidades dos números naturais: 

 

P1 (proposição 1)        (X) (X’) ((s(x)=s(x’)) -> (x=x’))

 

Esta proposição significa, assumindo que o nosso universo de discurso é o conjunto dos números naturais, que cada número natural tem um sucessor e este sucessor é único, é diferente de todos os outros. A leitura “literal” é: Para todo o x e todo o x’, se o sucessor de x for idêntico ao sucessor de x’, então x é idêntico a x’

 

Se observarmos os números naturais, verificamos que assim é. De facto, 6 é sucedido por sete, e só por sete, e sete é sucedido por oito, e só por oito, e não há limite a esta capacidade assintótica de acrescentar mais um sucessor… Eis a infinitude do sistema aritmético, tão “complicativa” para os amantes dos cálculos finitaristas, mas tão fecunda para quem não tema os paradoxos!

 

Agora, vamos traduzir esta proposição P1 em números de Godel, substituindo, segundo a tabela acima, cada signo pelo seu correspondente número. Criamos uma proposição NG(P1) (números de Godel da proposição P1):

 

NG(P1)=738739877673846739882734398

 

Como se vê, a genialidade de Godel levou-o a criar, não um sistema, mas dois, em paralelo e articulados, por inerência, um ao outro.

 

Neste sistema dúplice, se podemos atribuir uma sequência numérica a uma proposição, poderemos também atribuir uma sequência numérica a uma prova, uma vez que uma prova mais não é que um conjunto de proposições significativamente sequenciais e mutuamente relacionadas em termos dedutivos.

 

Assim, juntemos agora uma outra proposição, P2, que será a segunda proposição a incluir na prova:

P2       s(0)=s(0)                             zero é um número  

 

Agora, vamos transcrever esta proposição para números de Godel, juntando-a com a anterior proposição:

 

NG(P1,P2)=7387398776738467398827343980675846758

 

(se o leitor está atento, descobriu um zero nesta proposição, signo que não faz parte do conjunto de nove números de Godel referido acima. De facto, o zero é aqui aplicado como um sinal de separação entre as proposições que se forem seguindo, para permitir continuar a identificar cada uma delas e a verificar a sua exactidão).

 

A dedução da prova da incompletude desenvolve-se a partir desta base. Os cálculos complexos, que só um matemático treinado pode acompanhar em pormenor, sucedem-se. Mas o que ficou já mostrado revela a estratégia brilhante que Godel desenvolveu… Torna-se patente que ficam disponíveis, não um, mas dois caminhos de demonstração, um de sintaxe formal e um numérico, um de signos formais lógicos e um de combinações numéricas. Estas duas vias, constituídas por dois tipos de proposições que se vão ordenando em paralelo, espelham-se e confirmam-se uma à outra, num jogo de retirar a respiração… Se houver uma relação entre as proposições P1 e P2, essa mesma relação ficará numericamente espelhada em GN(P1) e GN(P2).

 

Por exemplo, se a proposição P7 estiver implícita em P3, então tanto se poderão utilizar as regras lógicas formais para o demonstrar e efectuar a dedução de P7 a partir de P3, como se poderá fazer essa demonstração ao obter GN(P7) de GN(P3) multiplicando esta por um inteiro para obter aquela… Supondo que GN(P3) = 317, multiplicando esta por 617 obteremos o valor de GN(P7) que é = 195589.

 

Esta extraordinária articulação consequente entre as implicações lógicas e as relações numéricas irá constituir uma verdadeira sinfonia matemática. À medida que Godel vai compondo e ordenando o conjunto de proposições formais que irão constituir prova dos teoremas em causa, as sequências numéricas correspondentes a essas proposições irão apresentar uma qualidade numérica distinta e peculiar: poderão ser sequências numéricas só de números primos, ou todos impares, ou quadrados de primos, ou outras propriedades bem mais complexas.

 

(Continua - última actualização a 12 de Julho de 2006)