
Marx, Hegel e o Teorema
de Godel
Autor: K.
Podnieks
Tradução do Inglês: João Seabra Botelho
Hegel morreu em 1831, Marx em
1883. Teriam eles gostado de ler o trabalho de Godel,
apresentado em 1931?
Na já desaparecida União
Soviética todos os estudantes e doutorandos eram obrigados a estudar a
doutrina filosófica Marxista (as disciplinas desse estudo eram designadas por “Materialismo
Dialéctico”– a designação da doutrina filosófica e “Materialismo
Histórico” – a designação da doutrina sociológica). Como tal, eu tive a “oportunidade”
de estudar o Marxismo durante um longo período – de 1968 até 1975.
(Nota do Tradutor – curiosamente, foi exactamente no ano lectivo de
1974-1975 que inúmeras
disciplinas de “Materialismo Dialéctico” e “Materialismo Histórico” invadiram o
Curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, na sequência do 25 de
Abril de 1974 e da imposição, pelo Partido Comunista Português e seus apêndices
esquerdistas, da ultrapassada e antiquada cultura “revolucionária” que Podnieks seguidamente refere…)
É evidente que, sendo uma
disciplina politizada e ensinada num regime totalitário, não era possível levar
totalmente a sério a "filosofia Marxista". No entanto, ela continha algumas
ideias interessantes, misturadas com as opiniões de alguns autores que eram
simplesmente apresentados como “peritos” (assim eram designados pelo regime),
ou “clássicos”.
Mas abandonemos todas as adendas
acrescentadas no tempo do Leninismo e dos Estalinistas, abandonemos também algumas contribuições
ingénuas de Engels e perguntemos, então, quais são as
ideias interessantes que ainda podemos encontrar na filosofia Marxista?
O “materialismo dialéctico” baseia-se,
obviamente, em dois conceitos principais – o materialismo e a dialéctica.
O Materialismo
Enquanto ideia (não sistema!), o Materialismo
apenas recomenda que eu tome consciência de que vivo num ambiente envolvente
que existe independentemente de mim e das ideias que eu possa ter acerca dele.
Chamemos então a este ambiente “realidade”. Esta hipótese é muito útil e pragmática
e permite-me pôr em ordem o meu mundo mental. Conhecem alguma ideia mais útil e
prática?
Se Você estivesse a programar um
robô, seria forçado a pensar acerca desse robô e do seu ambiente envolvente.
Esse ambiente existe “tal como é”, em nada dependendo do robô… Como tal, será
necessário carregar na memória do robô um modelo (ou teoria) deste ambiente
envolvente. Eu sou uma espécie de robô ( mas um muito
bom…)
No entanto, e como é evidente, o
Materialismo não é a única ideia útil. Surpreendentemente, até a ideia que lhe é
directamente oposta – “a dúvida sobre a realidade” (que os Marxistas chamam “subjectivismo
idealista”) parece ser bastante frutuosa. Por exemplo, recordemos a excitante
sequência histórica que vai de Hume a Kant, passando
por Mach e Einstein, e que resultou na teoria da
relatividade…
Então e a dialéctica?
A Dialéctica
O segundo conceito - dialéctica – foi adoptado por Marx do sistema de Hegel “tese,
antítese e síntese”. A dialéctica de Marx é uma espécie de heurística; recomenda um modo específico (ou universal?) de
resolver problemas, que consiste na procura de contradições e das forças
opostas que nelas estão envolvidas. Os Marxistas deduzem esta heurística das
seguintes teses “ontológicas” – nenhum esquema ou sistema complexo pode existir
inalterado por muito tempo. Um dia, inevitavelmente, rebentará pela acção das
suas inerentes forças opostas.
O teorema da Incompletude de Godel parece ser uma evidência a favor desta hipótese…
De facto, o resultado puramente matemático deste teorema é que prova a afirmação
de que nenhuma teoria formal
pode ser, simultaneamente, poderosa, consistente e completa. Suponha-se que levantamos
a seguinte questão: as teorias (ou sistemas, N.T.) formais são um modelo
adequado de sistemas fixos e auto-suficientes de raciocínio?
Se são, então chegamos depois à
seguinte conclusão “dialéctica” : nenhum sistema fixo
e auto-suficiente de raciocínio pode ser 100% perfeito. Tais sistemas serão,
inevitavelmente, ou muito restritos no seu âmbito ou poder (apenas o mais
simples modelo da lógica formal, o cálculo predicativo, como Godel mostrou, é passível da prova da completude
- N.do T.) e assim mantêm a sua rigidez e auto-suficiência,
e são restritos ao ponto de não poderem sequer exprimir a noção de número
natural ou de indução, ou, se são sistemas de poder considerável, então vamos
encontrar neles inevitavelmente, ou contradições ou proposições que não podem
ser provadas como verdadeiras ou falsas...
Hegel morreu em 1831, Marx morreu
em 1883. Eles teriam tido prazer em ler o Teorema de Godel
publicado em 1931, não acham?
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Escrito a 18 de Abril de 1999
Traduzido
a 12 de Julho de 2006