Pensamento e Consciência
A consciência não se esgota no acto de pensar.
Dando todo o possível valor aos conceitos de
subconsciente e inconsciente, admitindo até, sem contestação, (porque esse não
é o nosso propósito), o sentido e as funcionalidades que a tradicional
psiquiatria atribua ou possa atribuir a um e outro, “continentes mentais” que
Freud inscreveu no mapa, no decurso das suas circum-navegações pelos mais extensos
e recônditos oceanos da mente humana, não aceitamos, porém, que neles apenas caiba
toda a actividade mental que não seja pensamento e reflexão, essa sim,
atribuída em exclusivo ao consciente.
O diálogo interno
O pensamento desenvolve-se no espaço interior
onde se inicia e processa o diálogo interno de cada um. As palavras que povoavam
o mundo vivente, e que ouvi enquanto infante e aos poucos fui começando a
repetir, ou invocar, em espontânea simpatia e imitação dos interlocutores que
me rodeavam, foram ecoando na gruta que é o meu cérebro, até que esse espaço
interior se definiu e ficou marcado, para sempre.
Mas nesse exercício de ouvinte balbuciante
ganhei uma outra competência - consegui identificar o meu nome, ganhei
consciência de uma intimidade subjectiva e pessoal em que podia, ou reagir, ou
usar, as palavras, segundo a minha vontade própria: isso foi o meu primeiro pensar:
este é o meu nome, e “isto” é o que eu quero, o que eu posso, o que eu faço, o
que eu não gosto: em suma, iniciei uma acção progressivamente autónoma e
voluntária.
Portanto, revendo o significado que atribuí à
palavra “pensar”, direi que pensar é a actividade mental que gera a minha fala
actualizada, a fala de um sujeito vivo, que na sua actividade diária, entre
outras coisas que faz, se ouve a si próprio e, enquanto tal, avalia, escolhe ou
reprova palavras, numa gradual e nunca terminada aferição das palavras com a
vida circundante e movente. E com essas palavras compõe tanto a sua fala mais
simples e imediata, como os juízos mais complexos e meditados.
O pensamento tende a ganhar, com a idade, a
noção e medida da sua própria eficiência. O sucesso da actividade mental trará
mais espaço reflexivo, ou seja, o pensar vai ganhando peso e importância nas
opções do sujeito, que cada vez mais vai apostando na sua autonomia, confiando
e utilizando essa faculdade para a exercer e dirigir. Quanto mais a autonomia e
a auto identificação se desenvolvem ao longo da vida, tanto mais a expressão “
cada cabeça, cada sentença” resume de forma feliz a relação do pensamento com a
individuação.
Não me lembro exactamente, até porque foi uma alteração
gradual, quando é que o meu crescimento, no decorrer da meninice e da
adolescência, aumentou a frequência com que eu pensava, até chegar ao ponto de
me esquecer do silêncio interno e da imaginação vívida que, frequentemente,
preenchia esse silêncio com presenças e eventos exaltantes ou, no mínimo,
convincentes.
Brincar é o oposto de pensar.
Quando o pensar atinge, em nós, uma qualidade
e uma vivacidade tão intensas que se equipara à intensidade e vivacidade do
mundo interior da imaginação infantil, vamos ficando gradualmente desligados da
nossa inocência interior e substituímos por pensamentos as imagens da infância.
Depois o pensamento confronta-se com o fluxo ininterrupto dos estímulos
exteriores e começa a organizar esse fluxo. O confronto não é fácil e vai
sulcando os traços da personalidade adulta. Quando o pensamento se torna mais
vívido e compreensível que os estímulos do mundo exterior, das impressões que
dele recolhemos, o pensamento pode então transformar-se num Cogito Cartesiano,
ou, se quisermos, passa a merecer esse nome.
Os perigos
Mas este espraiar do pensamento enquanto
actividade mental enfrenta alguns perigos. Não faz sentido contar uma história
que não tenha perigos, se for uma história de humanos.
Pensamos sempre, é um facto, no interior de
nós próprios, e para nós próprios, e esse é o gérmen do primeiro risco –
trata-se de um solilóquio, e o solilóquio não está livre de inevitáveis
tendências solipsistas, até mesmo nihilistas, basta caminhar em direcção aos
solos pantanosos, em que a mente perde o pé e se afunda a cada movimento, viciada
no prazer quixotesco do estoicismo extremo, quase heróico, do discurso
abismalmente solitário. Lembramos aqui alguns textos de Nietsche, decerto um
possível e sugestivo exemplo deste tipo de discurso, a que a Física do Universo
Infinito de Newton dava o ambiente tragicamente certo para o estimular
.
O segundo perigo é que, ao pensarmos, estamos
a ser juízes em causa própria. A dado passo, parece “que temos sempre razão…”
Daí se passa, caso a mente desenvolva um poderoso motor raciocinante, para a
tentação reguladora da dogmática, do discurso auto-justificativo e autoritário,
que ressoa e reflecte uma já imparável paixão pelo papel de juiz único e
omnipotente, na solidão do espaço mental.
Enfrentando os perigos…
Para estes perigos há, felizmente, diversas estratégias
de recuperação da segurança.
Não faz sentido contar uma história com
perigos que não tenha caminhos para os ultrapassar, se for uma história de
humanos.
Para algumas doenças mentais, porém, nenhuma
entidade terapêutica parece conseguir melhor que a estupidificante alternativa
das drogas inibidoras. Nesses casos patológicos mais agudos dificilmente se
percebe onde colocar o consciente e não se vislumbram os resultados da
actividade do pensar, tal como acima o defini. É como se, uma vez ausente em
parte incerta o sujeito/agente que se autonomiza na subjectividade de cada
pessoa, não fosse mais possível encontrá-lo, para repor essa “presença” num
corpo que parece quedar-se num movimento involuntário e inconscientemente…
As terapias preventivas, ou mesmo curativas,
dos casos correntes e não patológicos de pensadores obsessivos são as inúmeras possibilidades
de participar em diálogos, conversas e quaisquer outras formas de comunicação
existentes na sociedade… Todas elas nos dão uma oportunidade efectiva para arejar
as ideias, num confronto saudável que a filosofia, por exemplo, actividade
típica de um certo ritmo e intensidade de diálogo social, tentou transformar num
caminho de aprendizagem e de ascese.
A libertação da consciência
Algumas culturas, como a dos Índios
Americanos, cultivavam rituais de fortalecimento do eu e da voz própria de cada
um, em eventos especiais para ingestão colectiva e convivial de “peyotle”.
Percorrendo o caminho inverso das sociedades
ocidentais, com os seus receituários de drogas usados pela psiquiatria para
adormecer os egos sem suficiente socialização, os Índios Americanos usavam nessas
sessões o peyotle ou a mescalina para fortalecer a individuação e os consequentes
laços entre indivíduos.
Ao amortecerem o vão diálogo interno, eco de
um pensamento rotineiro e viciado, os Índios conseguiam silenciar a voz do
mecanismo que, algures no passado da sua infância ou juventude, lhes tinha
sequestrado a imaginação livre que vive na mente humana consciente.
Este silenciar permitia-lhes, assim, recuperar
ou libertar essas faculdades da consciência. Esta, novamente alada e desejosa
de voar, dirigia-se para novas tarefas e outros itinerários, para imagens, sons
ou palavras únicas, tão nitidamente ouvidas ou ditas como se fossem as
últimas….
Até onde pode ir a consciência humana, quando
assim libertada, nesses ou noutros rituais?
Ninguém pode dar resposta definitiva ou certa;
a certeza, aqui, é totalmente experiencial, logo, individual. Nenhuma resposta
baseada em “palavras” ou generalizações serve, porque todas elas são enquadradas,
para terem sentido, num determinado contexto de referência. E não há, no mundo
físico onde a consciência processa o pensamento, um contexto de referência
único, necessário e universal, um ponto absolutamente imóvel onde apoiar a
alavanca.
Múltiplos são, portanto, indiscutivelmente, os
cultos e as culturas. Mas esta multiplicidade em movimento integra e compõe uma
universalidade, ou não?
A dificuldade desta questão está no facto de
não haver um Sujeito que a consciência reconheça, de imediato, como o
depositário de toda a simplicidade, ou seja, um Deus Uno.
Sem Deus Uno, a esta multiplicidade de cultos
e culturas não se junta outra coisa senão a numerosíssima plêiade de
consciências individuais. Há, em cada um, um sujeito, e por cada pessoa ter uma
consciência para responder por si, nenhuma responde pelos outros.
Só Deus Uno pode “ser
para todos”.
A dificuldade de lidar com a Multiplicidade, mantendo
sempre a noção de Unidade em suspenso, sem sujeito, nome ou Substância, é a
nobre dificuldade do ateísmo.
Fica pois sugerida, senão comprovada, a
impossibilidade de uma qualquer resposta “geral” poder impor-se absolutamente,
como um universal.
Nada retira ao pensar, e à consciência de cada
um, o exercício inerente à tarefa da individuação.
É, então, esta tarefa da individuação um
elemento universal, um elo rigosa e exaustivamente comum a todos os seres
humanos?
Hélas, o caso das doenças mentais, a loucura
humana em que a consciência individual desaparece, mas o corpo ainda não, parece
obstar a uma definitiva resposta afirmativa…
Outras actividades do consciente
Comunicamos o nosso pensamento aos outros principalmente
através da fala e da escrita, e tomamos conhecimento do pensamento dos outros
pelo sentido inverso, ouvindo e lendo.
Temos a psicanálise a dizer, e bem, que a
actividade da mente não se esgota no consciente. Basicamente, dizem, o
consciente lida apenas como o topo do “iceberg”… Isto é, das incontáveis
impressões que nos chegam à mente provenientes do mundo exterior e transmitidas
pelos sentidos, e daquelas que ela mesma produz em interacção e resposta a esse
mundo exterior, a consciência ignora e não considera grande parte.
O “consciente” é selectivo e discriminatório
na utilização e registo dessas impressões. E os psicanalistas atribuem ao
consciente essa rotina de, pelo acto de pensar, lembrar e congeminar, elaborar
o diálogo interno que reconhecemos, no dia a dia, como a nossa vida. Nós vemo-nos
como a história que contamos a nós próprios.
Mas, quanto ao resto do “iceberg”, que sabemos
ser bem maior que o topo, e que está mergulhado nas águas do subconsciente e do
inconsciente, como lidamos com ele?
Estar vivo, atento ou desatento, interveniente
ou passivo, não se esgota no acto de pensar. A minha mente executa, sem pensar,
alguns dos seus mais relevantes actos conscientes, como seja a medição do tempo.
O tempo vertical, o tempo horizontal e o tempo crucial
Começo por dizer que a minha consciência tem
um ponteiro para os grandes ciclos, um ponteiro para os ciclos intermédios, e um
ponteiro dos pequenos ciclos, ou momentos, ponteiro este a que chamamos,
normalmente, atenção.
A consciência é um registo presencial e
reflexivo (generalizou-se, a certa altura, a expressão “ com feed-back” para
designar o processo reflexivo…) da actividade de cada indivíduo.
Esse registo não é, claro, apenas o diálogo
interno a que chamamos “pensar”, mas a acção combinada dos três ponteiros. Este
registo só pode ser definitivamente subtraído do consciente e retirado ou
atribuído ao subconsciente se negarmos, ou formos incapazes de reconhecer, as
evidências dos estados de consciência inerentes aos dois ponteiros “mais
difícies”, e se mantivermos apenas acima da água, como o topo do iceberg, o
ponteiro dos momentos, ou a atenção voluntária.
O registo do tempo vertical, por exemplo, não
será o processo mental que mais facilmente se reconheça conscientemente, ou do
qual sintamos mais facilmente a acção ou presença na nossa consciência, mas
embora possa não ser um processo tão corrente e reconhecido pelo senso comum,
não deixa de estar bem documentado para o leitor avisado. Muitas vezes, a
percepção dum registo desse ponteiro é sentida como uma fina e breve angústia,
outras como um pressentimento, outras como um alívio.
Afundar o iceberg, desterrando para o
subconsciente, ou mesmo para o inconsciente, o ponteiro dos grandes ciclos, é
um acontecimento inevitável e sequencial ao nosso crescimento, mas contra o
qual, e para o redimir, iremos lutar o resto da vida.
Neste ponteiro dos grandes ciclos, ou do tempo
vertical, fica a indicação do ponto em que estamos, quanto ao percurso total da
nossa vida. Este ponteiro é também aquele que mede e regista os acontecimentos
que nos ultrapassam, que estão dependentes de causa, ou poder, ou Vontade, ou
Sujeito que não nós mesmos, o eu consciente. Este ponteiro é o guarda
fronteiriço, o posto avançado, a caravela a Oriente.
Pudéssemos nós ser suficientemente corajosos,
virtude exigida pela consciência para aceitar, assumir e compreender o fluxo
dos eventos e acontecimentos que nos rodeiam, e sobretudo daqueles que nos
ultrapassam e facilmente nos assustam, e já não teríamos de os rejeitar para os
planos inferiores da mente.
Aposto que, com essa coragem, esse coração, iríamos
ter sempre uma noção mais ou menos clara do tempo que já vivemos, do tempo que
nos resta viver e, consequentemente, do significado e importância relativa de
cada momento em particular...
Essa percepção qualitativa dos acontecimentos,
resultante do cruzamento do registo do tempo vertical (os momentos fatais, ou
de fado, destino…) com o registo do tempo horizontal determinado pela passagem
contínua dos instantes, chamo-lhe a percepção do tempo crucial. Esta percepção
constrói a chamada sabedoria, ilumina a consciência e estimula a acuidade dos
outros ponteiros.
Normalmente, não suportamos por longos
períodos conscientes o registo do tempo crucial. Não temos capacidade para
estar, a todo o momento e num período longo, conscientes de “tudo o que está em
jogo”.
Abdicámos, convém recordá-lo, do silêncio
claro da consciência infantil, onde o tic-tac dos três ponteiros soava
cristalino, para aprender: aprender a ouvir e falar, para depois aprendermos a
falar para nos ouvirmos a nós próprios, ou seja, para aprendermos a pensar.
Foi um
abdicar confiante, porque o caminho é circular, ou talvez o espaço. Seja como
for, tem-se o tempo todo da vida para voltar a recuperar a perícia no uso dos
ponteiros esquecidos em benefício do “petit mignon”, o ponteiro saltitante dos
instantes. Ainda jovens, sentimos que temos muito tempo à nossa frente, e assim
corremos o risco de nos viciarmos no tempo horizontal. Começa então a incúria, ou
algum desdém, pelas indicações verticais e cruciais dos outros dois ponteiros.
A mescalina e o peyotle dos Índios Americanos são
o soporífero que adormece o irrequieto “petit
mignon”. Enquadrada culturalmente, com ritos e mitos adequados, a sessão de
abertura e libertação da mente devolve aos Índios a certeza dos limites do
ilimitado, devolve-lhes a coragem de trazer ao dia-a-dia os outros ponteiros.
Depois, no quotidiano, cultivam a fala curta e
sucinta, intensa, para que o excesso de verborreia não reanime a avidez do
ponteiro dos instantes, e para poderem estar atentos aos sinais dos outros
ponteiros...
Já na nossa sociedade, a Ocidental, a
apetência pela libertação da mente através das substâncias psicadélicas
transforma-se num vício e numa dependência que a legislação proibicionista dos
Estados transformou na indústria mais lucrativa do Mundo. Sem sabedoria, ou
tempo crucial, parte da Humanidade debate-se, ou a sua Consciência, nos
pantanosos terrenos do subconsciente e do inconsciente. Uma vez as feras à
solta, chamam-se os domadores. Armas, bandidos e polícias, é o filme patético
de um dos aspectos mais tristes da condição humana actual.
E assim, tal como um grito apaga um sussurro,
ou uma dentada anula uma carícia, vão-se apagando os registos do tempo vertical.
Sem eles, como lidar então com o tempo crucial? Revistas de Astrologia? Gurus?
Meditação?
A fatalidade
O ponteiro dos ciclos longos, como dissemos, regista
alguns dos momentos únicos da vida, ou que raramente se repetem, e que são
superiores à nossa capacidade de intervenção.
Este ponteiro, portanto, oscila de extremo a
extremo, registando os momentos únicos de êxtase e bem-estar, e os momentos da experiência
mais dolorosa ou maligna. Os registos deste ponteiro oscilam também entre o que
a memória melhor conserva e o que, mais ou menos ostensivamente, queremos
esquecer ou ignorar.
Este ponteiro regista o exacto momento em que
tomamos consciência, por exemplo, do nascimento do primeiro filho, porque aí se
cumpre um fortíssimo impulso dos seres humanos, a transmissão da vida.
Esse mesmo ponteiro pode registar também o
exacto momento em que cometemos o maior erro da nossa vida, marca que vem
delimitar o outro extremo da escala dos valores, escala em que, de forma
implacável, porque imune a distracções ou rodeios, o ponteiro regista o nosso
destino.
Esse ponteiro também indica o momento
irrefragável do começo da arriscada idade adulta. Também indica quando passámos
definitivamente o limiar da velhice, e entrámos na fase descendente da vida.
Segundo as teses psicanalistas, estes registos podem ser descartados da
consciência e relegados para o inconsciente. São expulsos pela cobardia,
incapaz de enfrentar o seu próprio fado.
O destino
O ponteiro dos ciclos intermédios, ou do tempo
crucial, dá-nos a percepção do nosso desenvolvimento estratégico na vida, da
forma como ligamos o que depende, e o que não depende, de nós. Este ponteiro
regista o modo como o presente se entrelaça com o passado e o futuro.
Como vai a realização dos nossos desejos, a
concretização dos nossos sonhos, a conquista de sucesso e da aceitação dos
outros?
A nossa opinião sobre nós próprios, enquanto co-autores
e actores do guião que descreve a nossa vida, vai sendo actualizada com o
registo do tempo crucial. Com o decurso dos anos, esta actualização passa a ser
o factor essencial desse guião, porque o conhecimento que temos de nós
próprios, em nós próprios, culmina numa visão muito profunda do dizer “eu sou”.
E é aí que está a chave mestra do guião.
Abrangendo o que, na nossa vida, podemos
controlar e manipular pela nossa vontade, o registo do tempo crucial é
subsidiário da vontade consciente, nomeadamente nas suas decisões, mas nunca
pode limitar ou fugir das interferências do ciclo longo, do registo do tempo
vertical.
A chamada maturidade deverá ser o
reconhecimento de que, na idade adulta, se vai progressivamente dando mais
atenção às indicações do ponteiro intermédio ou crucial. Baixou já a
intensidade juvenil do registo do ponteiro mais rápido? A utilização cumulativa
e sinérgica dos três ponteiros leva a estados de consciência, cada vez mais
frequentes e duradouros, do tempo crucial.
Mas não
são estes ponteiros os únicos processos ou faculdaddes, para além do
pensamento, a ocupar o “espaço” (ou será o tempo?) do “consciente”.
A imaginação do imaginário
Temos que falar da imaginação, que pode ser um
exercício praticado sob a égide da consciência já adulta e não infante. David
Hume dá uma pitoresca e sugestiva descrição desta “imaginação consciente”,
citada abaixo.
Enquanto filósofo, era esta “imaginação
consciente” que lhe interessava, por ser a imaginação que participa no processo
cognitivo, processo sobre o qual inquiria, assim ocupando as suas cogitações.
Reza assim o livro “An Enquiry Concerning Human Understanding”, de David Hume:
“Nada é mais livre que a imaginação do homem,
e embora ela não possa extravasar aquele conjunto de representações fornecidas
pelos sentidos internos e externos, tem um ilimitado poder de combinar, juntar,
separar e dividir estas ideias, em todas as variedades do fictício e do visual.
Pode engendrar uma sucessão de acontecimentos, com toda a aparência de real,
atribuindo a esses eventos um tempo e um espaço específicos, pode concebê-los
como existentes e pintá-los com todos os adornos das circunstâncias que rodeiam
qualquer acontecimento histórico, e neles acreditar com a maior das
convicções.”.
A imaginação do imaginal
Mas uns largos séculos antes, Ibn Arabi
caracterizava o mundus imaginalis
como o espaço onde é possível ao ser humano ter uma imagem dos seres
espirituais, entes sem presença corpórea que aí, nesse intermédio mundus imaginalis, se apresentam numa
imagem perceptível à consciência dos seres humanos. Esses entes espirituais,
fossem eles seres humanos, tal como os profetas que o próprio Ibn Arabi refere,
porque ele mesmo teve essa visão, fossem eles anjos ou fossem eles jinn, não eram representativos ou
conotativos de algo exterior a eles. Não se relacionavam nem representavam
outros dos quais dependesse o seu sentido. Ao contrário dos corpos físicos, que
não são suficientes para sinalizar a totalidade de cada indivíduo, porque são
opacos e não nos deixam ver a consciência de quem os habita ( “quem vê caras, não
vê corações”), essas imagens são a totalidade desses agentes do mundus imaginalis, puras presenças, aparições
simples e, nesse acto, portadoras de uma teofania irredutível ou imutável.
O imaginal, portanto, não é o imaginário. A
imaginação que, em toda a liberdade, constrói o imaginário, e que Hume descreve
acima, Ibn Arabi identifica como a actividade da imaginação indissociável da
actividade mental do sujeito, hayal
mutassir. Mas a imaginação criativa, que percepciona o imaginal, é uma
faculdade extra mentis, que se exerce
no mundus imaginalis, dissociada e dissociável da mente do sujeito, hayal munfassil. Essa imaginação
criadora tampouco conflui no cérebro; o seu órgão físico é o coração.
A consciência, digo-o agora novamente, não se
resume ao pensar.
Falta-me falar da memória, ou da mnésis.
Esqueci-me, acho eu.