A Questão (Cartesiana...)

Um dos problemas que Descartes tentou resolver, para salvar o Conhecimento, pode resumir-se a esta questão: como é que os objectos, que são distintos, separados e existem fora do sujeito, externamente, têm a possibilidade de afectar o sujeito e de comunicar com ele de tal maneira que o sujeito chega ao ponto de «possuir conhecimento perceptual» que «representa» o objecto com verdade, acuidade e fiabilidade???

Anular a Questão

Nos dois últimos séculos de filosofia encontram-se, com cada vez maior frequência e ênfase, teses como as que seguem:

1- O conhecimento «objectivo», ou científico, é nitidamente superior ao conhecimento filosófico, pelo menos àquele que é eminentemente subjectivo (o conhece-te a ti mesmo filosófico), que está destinado a ter cada vez menos espaço, utilidade ou razão de ser.

2- O verdadeiro conhecimento é o conhecimento das realidades "objectivas", exteriores ao sujeito. As ideias meramente intelectuais e que não parecem derivar de impressões exteriores, como as figuras geométricas, os axiomas matemáticos, as regras lógicas, as ideias platónicas como a Beleza ou a Infinitude, ou são meras relações sintácticas e tautológicas, desprovidas de sentido real e conteúdo semântico, ou são fantasias da imaginação. Qualquer conhecimento do sujeito sobre si próprio é uma provável ilusão, sobretudo se esse exercício introspectivo conduzir, como se atrevem a dizer alguns filósofos desde a Antiguidade, à identificação de um «sujeito transcendental», um «cogito», cuja existência não pode ser verificada objectivamente, com os métodos com que se pode verificar, por exemplo, a actividade electromagnética do cérebro.

3 - A linguagem só tem sentido quando é expressão de comunicação pública e se refere a entidades objectivas e existentes. No entanto, a sua flexibilidade estrutural e a liberdade com que pode ser utilizada permitem a expressão da subjectividade, mesmo a mais imaginativa e delirante, contribuindo para manter as mentes iludidas, senão até doentias e fantasiosas. Se a filosofia ainda tem algum papel, será o criticar, evitar ou anular estas utilizações desviantes da linguagem.

4 - O sujeito só faz sentido na sua vivência social e no seu relacionamento com a chamada realidade objectiva. Não havendo consciência, nem princípios perenes que a possam reger, todos os valores referentes ao comportamento cabem numa moral convencionada, que historicamente nos rodeia, mas podendo essa moral ter sido outra qualquer, num tempo e lugar diversos.

Seja qual for a razoabilidade destas teses, elas, de facto, não respondem à questão Cartesiana acima referida, antes a evitam, ou rodeiam, ou simplesmente anulam. Durante o correr dos séculos que já passaram após a publicação da obra Cartesiana, muitos se alhearam dessa questão, ou a “resolveram” com teses que não tomam a questão em consideração nem tampouco pretendem refutar os argumentos aduzidos por Descartes na sua própria resposta ao dilema.

Um exemplo recente disso é um filósofo activo nas últimas décadas, Richard Rorty, que no seu livro «Philosophy and the Mirror of Nature», Princeton University Press, Princeton, 1979 evita a questão afirmando que não necessitamos de responder a Descartes. No entanto, admite que tal tese, ou atitude, nos conduza a criar «pessoas sem mente»(pag.70).

Resposta à Questão

Kant, no entanto, entendia que tal questão tinha de ser cuidadosamente avaliada e sobre ela disse muitas coisas. Por exemplo, a certa altura da sua Crítica, afirma:

«O que primeiro nos é dado é aparência. Quando esta se combina com a consciência, chamamos-lhe percepção. (Não fora a sua relação com a consciência, que a torna assim possível, e a aparência nunca poderia chegar a ser, para nós, um objecto de conhecimento!!!

Como tal, seria nada para nós; e como, em si mesma, não possui realidade objectiva, mas existe apenas e só enquanto é conhecida e para ser conhecida, será nada em si mesma.»
(Immanuel Kant, Critique of Pure Reason, traduzida por Norman Kemp Smith, St. Martin's Press, Novas Iorque, 1965,, pp 141-142)

Mas Kant avança ainda mais na análise do processo do conhecimento ou do relacionamento da consciência com o objecto, e diz:

«É fácil constatar que este objecto tem de ser pensado como algo em geral, um x, uma vez que, fora desse nosso conhecimento e pensar deste objecto nada temos que possamos colocar em contraponto a esse conhecimento e que possa ser este objecto, ou a ele corresponda de forma mais verídica.

Mas é óbvio que, uma vez que nós somos forçados, e estamos limitados, a lidar apenas com o conjunto das nossas representações sobre o objecto, e que este x (este objecto) que corresponde a essas representações é, para nós, nada - sendo, como é e tem que ser, algo distinto e separado das nossas representações, - a unidade que o objecto necessariamente cria, ou impõe, nada mais pode ser que a unidade formal da consciência, a qual é o agente que sintetiza esse conjunto de representações no objecto representado, x


[Ibid., páginas 134-5.]

Eis como Kant chega aos a priori e, consequentemente, ao fenomenalismo, pois Kant afirma que aquilo que conhecemos, sendo sempre resultado de uma síntese do objecto com a consciência cognoscente, mais não é que um fenómeno.

Embora querendo evitar quaisquer exageros ou optimismos metafísicos da razão pura, à moda de Descartes, Kant também não sufraga o realismo empirista, que Hume tão bem representa, que afirma a correspondência entre as impressões sensíveis, o conhecido, e os objectos reais que provocaram essas impressões.

Quanto ao verificacionismo positivista, que dessa correspondência totalmente depende e que a eleva de único critério aceitável de verdade científica ao único critério de "realidade" racionalmente aceitável em termos existenciais, o númeno kantiano – ou seja, o ser verdadeiro ou existência do objecto exterior e que não é cognoscível - ou é uma ilusão, ou reduz a cinzas essa certeza positivista dada pela verificação ...

Mas Kant, ao contrário do que poderia supôr-se, e alguns julgam injustamente, como Schopenahuer, não se descarta da realidade existencial deste númeno, caindo num Berkeliano subjectivismo transcentalista, que nega existência real à «matéria» que compõe as aparências que integram a nossa percepção.

Kant afirma a indispensabilidade deste númeno real, porque a consciência que age e sintetiza a representação do objecto, que assim é percebido enquanto fenómeno, não tem poder para criar a existência em si do objecto. Kant diz:

«Ou é o objecto que, por si, tem de tornar possível a representação, ou é a representação que, por si, torna possível o objecto... Analisando esta última alternativa, temos de dizer que a representação, por si, não produz o objecto no que à sua existência se refere.»[Ibidem, pagina 125]

Ora bem, ao evitar afirmar que a existência da realidade exterior depende da consciência subjectiva cognoscente, embora reconhecendo que conhecemos o fenómeno e não a existência real dos objectos em si, Kant chega a um novo e claro sentido do conceito de «existência» - A existência é o que faz a diferença entre o real e o meramente fenomenal.

Como tal, anular esta existência, apenas por ela parecer metafísica, isto é, porque parece nos escapar e não se deixa representar, significaria perder a possibilidade de diferenciar as nossas representações ilusórias e alucinatórias das nossas representações «verdadeiras», ou seja, aquelas que representam veridicamente objectos reais, ou existentes.

No entanto, Kant não subscreve o optimismo do realismo empirista, ao crer conhecer o que existe através da experiência, dos sentidos, e tomando esta experiência como a justificação da validade deste conhecimento, que estava irremediavelmente condenado, como mais tarde se veio a constatar, a alimentar ilusões, apesar delas parecerem firmes, estáveis, úteis e eficazes.

Kant entende, ao invés, que o conhecimento fenomenal, não o empirista, tem objectividade, assenta numa relação coerente com os objectos que representa, com a realidade, graças à universalidade e objectividade da razão que opera as sínteses segunda regras necessárias e a priori. Modernamente, este optimismo Kantiano contrasta com o cepticismo que vemos tão espalhado pelas academias, o cepticismo que resultou da descoberta da ilusão empirista/positivista.

Este cepticismo parece expressar-se, actualmente, por um relativismo bastante paralisante, pois sendo o fruto da tomada de consciência das ilusões do empirismo, transporta consigo o sentimento de desencanto e desespero do fim de um ciclo... Quanto ao optimismo kantiano que acima referimos, seria descrito hoje da seguinte forma: que a linguagem tem uma estrutura sintáctica que se impõe à realidade semântica exterior, mesmo quando esta parece não a admitir, mostrando-se paradoxal ( como a realidade dos quanta, a dualidade paradoxal da onda-particula).

Novamente... a Questão

Mas como é que chegámos a este ponto? Como chegámos a duvidar de algo tão primitivo, fundamental e até simples como a nossa percepção do mundo exterior? Não significa isso que duvidamos até das nossas representações internas, porventura acreditando, Descartes dixit, que estas são perturbadas e distorcidas por um Demónio Enganador???

Se ainda não conseguimos ultrapassar a dúvida hiperbólica, temos de concluir que somos incapazes de acompanhar o Filósofo Francês e, como ele, contemplar e absorver, com a luz natural da nossa alma, a iluminante experiência do cogito, isto é, a experiência da existência indubitável, assente na total liberdade da consciência de duvidar, até ao limite, deixando para trás toda a extensão, toda a intensão - ficando apenas com o ser que se reconhece existente.

É esse o derradeiro passo, que Decartes nos desafia a dar; se o não damos, é porque estamos ainda petrificados perante o medo da solidão abismal do cogito. Pois é no abismo dessa solidão que se abrem os olhos da alma à visão do Ser Perfeito.

Mas como é que chegámos a este ponto?