A
barca
do Faraó
Agora que estou à beira do mar Oceano, nesta praia da Lusitânia, pressinto a invocação de um outro
espaço que me transcende. Vai despertando o que está adormecido no repouso antigo e consensual dos meus sentidos.
Digamos que é um espaço novo, em que a luz do Sol no horizonte do visível se prolonga.
Acordo lentamente no meu silêncio e ouço uma voz que é um murmúrio, em tempo e movimento, que desde o
ritmo das ondas vem até mim. E que ascende ao mar alto que é feito da substância dos meus antigos sonhos! Como me
prolongo, desde esta praia em que me encontro, com as ondas, ventos e marés até me reconhecer no mais longínquo
horizonte do meu imaginário!
Consciente estou da magia da viagem e nesta praia e nesta luz canto também o meu louvor de
gratidão ao Sol que é o reflexo e o brilho que faz reflectir o meu ser interno.
Oh Sol soberano, tu és a estrela intemporal que pinta os cenários de toda a minha fantasia. Desde a
primeira barca que foi o meu berço já pressentia os instantes sagrados em que o enigma da tua
luz se desdobra para além da luz dos meus olhos!
Tu és o Logos e o mestre maior de todo o meu ver, e também, pela luz que vem de ti, da claridade de
todo o meu ser! É nesta relação entre o ser e o ver que, no movimento efémero das águas que se agitam, posso sentir o teu
mistério e também o rumo no despertar discreto da barca dos meus sentidos.
É com veneração dócil que o meu instinto navegante espera distinguir esse caminho de brilho que no
céu se prolonga para além do arco crepuscular que, para mim, distingue a noite do dia. Que estranhas correspondências
sinto na curvatura por entre as sombras que ao entardecer decaiem sobre o horizonte longínquo!
Na fluidez dormente que me embala
levanto, pois, a âncora das minhas sensaçoes, já que para além das
cores poentes pareço estar, por magia, a navegar entre dois mundos.
Sou navegador!
Espero agora, nessa âncora que me
prende à minha praia sensitiva, a arte de pensar a barca que me
transporta. Quase sem me aperceber, tomo o rumo de um destino que me
está traçado nas estrelas. A luz já mais pálida na praia solar de
onde me afasto não parece agora ser mais brilhante do que a luz da
Lua...
E já me desprendo desse ponto de
partida, onde a minha percepção consciente se habituou a entender
como hora noturna. Há uma memória persistente de antes da partida,
que deve pertencer ainda a uma recorrência atávica dos meus
horizontes já passados.
Ainda perdura a circularidade
sensorial de uma obediência que teima em não reconhecer nas sombras
apenas o início do reino sublunar. Iludido estou, pois, na troca de
uma luz por outra luz... Pressinto que estou dentro de um outro
reino de claridade.
Reino das sombras? Não sei! Mas,
ao reconhecer a minha terrena humanidade, uma luz mais alta
concede-me a graça da aliança com o infinito.
Há sempre véus para essa
impercorrida distância. A regra douro é aquela que me diz que as
sombras me pertencem, porque elas são, no meu hábito, as trevas da
luz que eu devo diferenciar. Está nelas oculta e até dissimulada a
palavra esperança, porque representam, na viagem, a profundidade que
os meus sentidos agora percorrem, ao inverso do meu Sol, ocidente de
partida. Assim, e por enquanto, o mundo da noite passa a ser o mundo
de quem ainda vive.
Na noite plácida e imensa o meu
fantasma divaga, na palidez transparecente da Lua.
Parece-me saber das minhas representações que continuo viagem por entre as sombras. Admito ainda que
o meu corpo e a minha barca, como se fossem um só, se confundem, por mistério, na continuidade e se dissimulam pela
descontinuidade, neste recurso sombrio às minhas sensações antigas que são apenas o espectro das minhas humanas emoções.
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Neste encoberto, ou neste encobrimento, ser sombra é ser como fantasma.
Estou com a noite, cuja opacidade me pertence e também estou com a bruma daquelas horas antigas cuja
contagem sou eu próprio. Estas formas circulares, estes mapas extensos, são apenas a circunstância passada
de mim mesmo, como navegante do meu devir astral. Sou o piloto, que respira pelas velas do meu pensamento
marinheiro, cúmplice da arte de todos os movimentos que fazem a subtil poesia do meu ignoto rumo. A barca
está no meu corpo, com o meu caixão, com a minha múmia, e já começo, na solidão da viagem, a pressentir as correntes
pausadas de outras marés que vêem de outros oceanos desconhecidos. É esta a solidão que marca a hora universal,
que sustenta o cálculo absoluto da longitude e da latitude, por dentro e por fora de mim, no acima e no abaixo
de todas as águas que orienta a barca de todos os solitários que navegam.
Agora os antigos mapas e as recordações finitas são apenas recapitulações funéreas do meu devir
astral. A barca e eu somos apenas o espectro. Está nas minhas sensações como sombra atávica ou imagem modelo
do navegar do meu corpo que revive ainda nos antigos ventos as lembranças que foram as velas ousadas da sua
terrena e humana fantasia. Haverá sempre um nevoeiro a transpor...
Tudo começa a partir de uma névoa, quando um outro horizonte de novo se alumia numa palidez auroral, quase
branca, um pôr do sol rosado ao inverso do sumo oriente da sua nascença absoluta. O mar, aberto, ainda mais se
aprofunda agora, até ao distanciado infinito, que tem por fim uma praia de âmbar, que é a cor da essência da luz das estrelas.
Mas algo me diz do passado que no meu presente ainda sinto que sou apenas a segunda natureza transformada em
mutação divina de mim mesmo. Lembro-me daquele humano que era um príncipe, para ser depois faraó, até ser
enrolado nas faixas da múmia, pregado nas tábuas do caixão e metido na crosta ou caverna da sua barca solar.
Ficaram essas recordações sensíveis na barca que agora paira, em suspenso, na linha do horizonte do meu mundo imaginal.
Na barca da minha viagem deve estar a múmia, ou o casulo da larva que eu fui, até ao momento da minha
ressurreição. No tempo profundo e infinito, vivo agora sob a luz âmbar das estrelas, como uma borboleta com
as asas douradas desse brilho, ou desse pó de ouro sobrenatural. Não há latitude nem longitude. Mas o
“brilho” que tenho nas asas é sempre um desafio a haver mais luz.
Não tenho Sol, nem conheço as constelações novas, mas sei que agora sou centro de todos os meus novos
horizontes. Já estou fora da minha imaginação em cativeiro! Devo, pois, ter em conta só aquele compasso pelo
qual deverei apenas designar, perante o universal, a abrangência, mas nunca o perímetro, porque tenho em mim
o eixo e o grau da correspondência daquela ilha paradisíaca que só a mim pertence.
Estou no mundo imaginal onde, só agora, me dou conta do meu novo reino. A barca lá continua, no
horizonte, como “imagem em suspenso”, satélite do meu devir, que eu agora contemplo na verdadeira realidade,
onde convivo e me reconheço, na correspondência do sensível com as formas do inteligível. Sempre preferi
a luz e a transparência cromática na ordem divina do mundo.
Por isso, talvez, eu sou borboleta, que é a transformação da psique em êxtase das cores, perante o infinito.
Há uma superveniência da visão em todo este destino, que acaba por ser contemplante.
O enigma do ver, através da transparência das sensações efémeras, acaba por ser o mistério do pensar!
Agora compreendo o que representam os olhos pintados na proa da minha antiga barca funerária, que flutua na
imensidão, sempre acima do abismo, sempre à flor do mar.
Isto é, para mim, um conto do infinito, ou, como alguns outros pensam, e que não sabem quem eu sou, um
conto que apenas pode ser extravagante.
Miraflores, Abril de 2010
( in Leonardo, revista de filosofia portuguesa)
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