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      João  J. Seabra de

         Sousa  Botelho

   intrépido  e  errante

 filósofo (desde a mais

     tenra idade).

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de

Heródoto

11/07/2007

 

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Nota sobre  a actividade da classificação de filósofos

21/08/2007

 

O ocaso do Reducionismo

07/09/2007

 

OS PRIMEIROS ANOS   Nasci a 26 de Março de 1952, sem culpa nenhuma. Mas, apesar disso, durante o primeiro mês de vida mal me consegui alimentar. Por pouco não me abriram o estômago, para ver se a válvula, o pilorum, não estaria fechada! Mas não, era uma reacção alérgica ao leite...

    Lembro-me, com três anos, de passear de mão dada com o meu pai no recreio da escola "Ave-Maria", em Lisboa, que estava a ser calcetado com a calçadinha lisboeta. Nesse recreio, em anos seguintes, sofri reveses e glórias, conforme me corriam bem, ou mal, os jogos de "matas" que fazíamos nos intervalos. Aí, felizmente, aprendi a escrever e a contar.

   Outra coisa que me aconteceu sem que eu tivesse culpa foi ter nascido de pai filósofo. Afonso Botelho, o senhor meu Pai, foi um dos participantes e autores do Grupo da Filosofia Portuguesa. Por isso, falar de Filosofia, em minha casa, era coisa normal para mim e com a qual estava tão familiarizado que, aos dez anos, no exame da Quarta Classe ( naquela época, faziam-se Exames Nacionais, que davam acesso ao Liceu...) deixei, involuntariamente, boquiabertos os meus examinadores ao mostrar um invulgar conhecimento desses temas. De facto, quando respondia à pergunta:" Diga os planetas do sistema Solar", enganei-me e disse, no final da lenga-lenga ... Saturno, Urano, Neptuno e Platão!

   Os dois Professores, que me examinavam, entreolharam-se, e um deles repetiu, em tom algo irónico: "Platão"?

   "Peço desculpa, Plutão.", corrigi eu de imediato. Para logo acrescentar, com toda a naturalidade "Platão era um filósofo"... Esta saída, invulgar num País que desprezava a Filosofia, valeu-me darem por terminado o exame, em que tive a nota máxima.

 

DENTRO E FORA DE CASA    A minha casa eram convidados não só alguns dos filósofos da Filosofia Portuguesa, como outras figuras da Cultura. Parece que cheguei a estar ao colo do Teixeira de Pascoaes, que me achou um miúdo patusco. Francamente, disso não me lembro, mas nunca me esqueci do verso de Pascoaes que sempre acompanhou o meu fascínio pela Natureza:

 "Na folha que cai,

A Alma que sobe..."

   Em caligrafia redonda e compassada, três folhas manuscritas de Álvaro Ribeiro ficaram numa gaveta, por mais de trinta anos; um breve testemunho da sua nobreza de carácter, bem visível nessa caligrafia, e no texto comovente que acedeu escrever, a convite do meu Pai,  para ler na nossa festa dos Reis Magos. Foi assim que aprendi, naquelas linhas a "tinta permanente" azul, o que sei sobre a tradição daquela Festa e do tradicional Bolo Rei.

   Foi com algum espanto e bastante desencanto que, já rapazinho, comecei a perceber que, fora de casa, o meu País era culturalmente pobre, provinciano, desconfiado. O Salazarismo entrara na sua curva descendente... Como não havia ideias novas e a estratégia de manter o Império não tinha nem alternativa, nem viabilidade, tudo parecia organizado, naquele regime, para parar o tempo e negar a existência da criação renovadora.

   O mercado cultural Português era, à época, tão pobre e fechado que não havia ainda escritores profissionais a tempo inteiro. Por isso, tive a desagradável experiência, que me marcou, de ser gozado por um funcionário do Arquivo de Identificação de Lisboa, onde tinha ido tirar o meu primeiro Bilhete de Identidade, porque eu, no formulário a preencher, tinha posto no campo onde perguntavam a profissão do meu Pai,  a palavra  "Escritor".

   Este imobilismo e provincianismo cultural era tanto mais chocantes quanto, naquela década de 60, tudo estava a mudar e a mexer, por esse mundo fora. Sobretudo, para os mais jovens, que tinham ganho uma voz autónoma, e uma presença na Cultura, talvez pela primeira vez na História.

   Infelizmente, essa ventania que varreu os anos 60 acirrou ainda mais o impotente autoritarismo com que, em vão, o regime Salazarista pretendia evitar a mudança dos tempos (e das vontades). Essa ditadura, se era violenta para os adversários políticos, para os cidadãos apolíticos, como era o meu caso, era essencialmente tacanha e burocrática, com uma autoridade paternalista que se estendia a detalhes tão ridículos como a famosa "licença de isqueiro" (brilhante medida de proteccionismo à industria fosforeira nacional?) ou a proibição de beijar na rua... Um dia, sentado num banco do jardim da Parada, em Campo de Ourique, com dezassete anos, beijei a minha namorada, com quem casei três anos depois. De repente, sinto que me tocam num braço, e vejo um polícia, a falar à Viseu, que me vem dizer que eu tinha de fazer "aquilo" em casa... Estávamos no ano de 1969!!! Enquanto no Jardim da Parada tudo continuava parado, em França já se tinha feito o Maio de 68 e em Inglaterra cantava-se o rock e o pop.

A IDADE DO CORPO

   Foi do Orlando Vitorino que li esta expressão, para referir a adolescência. A idade do corpo, sem dúvida. O crescimento, na adolescência, é de tal forma brutal que dificilmente podemos deixar de prestar permanente atenção ao corpo. O desejo sexual irrompe sem avisar e torna-se cada vez mais insistente.

   É a idade em que se aguentam todos os excessos... As minhas leituras filosóficas foram excessivas, percebo-o agora, pela simples razão que me faltava a maturidade para arcar com os pressupostos vivenciais da Filosofia. Não digo que essa maturidade esteja necessariamente sujeita aos ditames da idade, porque o génio pode sobrepor-se a essa condicionante... Só que eu não era genial.

Apesar da precoce erudição filosófica na minha 4ª Classe, já na adolescência vi-me incapaz de perceber muito do que se passava à minha volta, e fiquei intrigado quando o José Marinho, perante os meus protestos de perplexidade,

murmurou; "Pois, a Filosofia é um pouco velhaca, não é?"

(Escrito a 17 de Set. 2006 )

OS CAVALEIROS DO AMOR

Houve um livro que me impressionou, apesar da sua aparente modéstia (era um inédito, projecto de livro, pouco extenso, publicado postumamente). Refiro-me à obra de Sampaio Bruno "Os Cavaleiros do Amor". Editado na colecção de Filosofia e Ensaios da Guimarães Editora, uma das mais prestigiadas colecções editoriais dedicada a temas filosóficos, e que tanto se identificava também com os autores do grupo da Filosofia Portuguesa - por exemplo, aí publicou José Marinho o seu tão esperado título "Teoria do Ser e da Verdade"- com os seus livros capeados a um verde seco que me permitia distingui-los em qualquer estante de Livraria ou Biblioteca onde os meus olhos pousassem, tendo num livro dessa Colecção sido impresso o meu nome, pela primeira e única vez (até hoje... nunca se sabe o que o futuro nos reserva...),  dado que fui o autor da tradução desse mesmo livro, "O Homem e a Técnica", de Oswald Spengler, prefaciado pelo meu amigo Luís Furtado, - "Os Cavaleiros do Amor" chamaram-me a atenção pelo título, que atraiu de imediato um jovem como eu, tão perturbado pela avassaladora energia amorosa dos verdes anos.

  Pensava eu, nessas época de grandes expectativas e ávidas leituras, que aí estaria o conhecimento do Amor que me permitisse ordenar e disciplinar, no céu do Ideal, a constante perturbação das emoções e os frequentes ímpetos provocados pelo Belo Sexo.

Redondo engano!

"Os Cavaleiros do Amor" nada tinham a ver com o que eu, ansiosamente, procurava.

O que eu queria encontrar seria algo mais parecido com, à Julius Évola, uma Metafísica do Sexo, ou até algo semelhante ao arriscado, longínquo e transmutante, à Osho, Sexo Tântrico. Mas, a esse tipo de saberes ou dizeres só vim a ter acesso muito mais tarde, já depois da Revolução de Abril e da Revolução da Informática, qualquer delas importante para permitir, a um Português como eu, o acesso à informação cultural, mesmo a mais exótica.

Estava eu, então, algo desiludido, a ler as primeiras páginas dos "Cavaleiros do Amor" quando, por acaso, calhou comentar com o meu Pai que, afinal, ainda não encontrara referências ao Amor que justificassem o título do Livro, título esse que me levara a querer lê-lo... Como o meu Pai tinha esse e quase todos os outros títulos da colecção Filosofia e Ensaios na sua volumosa biblioteca, eu já me interrogava se não seria melhor escolher outro livro para ler.

O meu Pai riu-se. "Insista, insista. Talvez o título seja um anagrama", respondeu-me com ar divertido e algo misterioso.

Ahhh... filosofia velhaca, sem dúvida... então agora até os títulos dos livros filosóficos podem ser anagramas que um jovem inexperiente não consegue decifrar, limitado pela sua ignorante cegueira?

Anagrama, anagrama, deixa cá ver no dicionário; sim, já percebi.... Tenho de trocar letras e obter um novo significado...

Acicatado por este enigma, avanço na leitura do livro, e nele vejo então desenrolar-se a extraordinária erudição de Sampaio Bruno; mas não uma erudição pomposa ou arrogante, tão pretensiosa quanto inútil - não, era antes uma erudição febril e incansável, que abria uma profusão imensa de caminhos e oportunidades para investigar o sentido dos factos históricos, ou a justeza dos valores, ou a heroicidade dos gestos. Enquanto lia o livro, várias vezes caí numa telepática sonolência em que me via a medir, ou percorrer, a vastidão da mente do livre pensador Sampaio Bruno, uma mente onde pareciam caber todos os livros e todas os juízos, mesmos que perdidos na mais remota das bibliotecas ou na mais obtusa das referências bibliográficas, e que Bruno descobria e recolhia, com o faro e a persistência do mais competente cão de caça. E tanto no palmilhar desses caminhos de caça como, depois, já no remanso meditativo dessa catedral do saber que era a sua inteligência, o espírito de Sampaio Bruno movia-se e caminhava com ligeireza, sem se deixar prender aqui ou ali, sempre em direcção à tese da liberdade do espírito humano. Fosse onde fosse que a verdade estivesse oculta, distorcida, esquecida, alguém seria movido pela liberdade de a encontrar, decifrar, dizer ou criar.

"Os Cavaleiros do Amor" eram então, afinal, os Amantes da Verdade.

E a sua aventura era escapar ao pensamento monolítico imposto por uma mão pesada, dogmática, fanática mesmo - o poder da Inquisição, em suma, o poder de Roma.

Subitamente, apercebi-me que não havia só um anagrama para decifrar, mas também uma metáfora.

O anagrama: do Amor, são Cavaleiros os perseguidos pelo fanatismo papista de Roma  (R O M A - A M O R).

A metáfora: a Cavalaria, como já o dissera também a muito anterior "Arte de Bem Cavalgar" de el-rei-filósofo D.Duarte, estriba-se no Amor à Verdade. O Cálix do Cristianismo, o Verbo que afirma a equivalência da Verdade ao Amor, fica sob custódia dos nobres Cavaleiros. Os Bispos, esses, foram ficando, ao longo dos séculos, mais preocupados com a equivalência da Verdade.... ao PODER.

 Para mim, adolescente irrequieto, foi importante perceber que quem não ama a Verdade, não ama verdadeiramente ninguém.

A vida, mais tarde, se encarregou de me confirmar que quem aspira ao poder, renega o amor.   

 

 

(Escrito a 17 de Abril de 2007 )

 

 

      

 

 

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Última actualização: 02/11/07.