O Aristotélico insubstante

do platónico Marinho - V

O Platonismo de Aristóteles e a 1ª frase da Metafísica

1 - A Floresta e a selva

Na recente reedição do livro “From Solon to Socrates, Greek History and Civilization During the 6th and 5th Centuries BC”, escreve no prefácio o conceituado erudito Germânico Victor Ehrenberg:

“Escrever hoje sobre história antiga, mesmo sobre períodos relativamente bem estudados, é como entrar numa selva – uma selva de tradições e modernas conjecturas, assentes num escasso número de factos indiscutíveis. Há muito tempo que perdemos a bela inocência de outrora, daqueles cujo amor pela Grécia se unia a uma inabalável crença na verdade das tradições mais importantes dos próprios Gregos.

Temos hoje, na procura da absoluta verdade histórica, um juízo crítico menos exigente do que o tiveram os nossos mais próximos antecessores, até por já não acreditarmos na possibilidade de atingir essa verdade... Somos, efectivamente, uma geração perdida, vogando num vazio espaço intermédio entre a certeza absoluta do positivismo lógico, certeza que já não temos, e essa outra certeza, tão em voga, da intuição racionalista, de que igualmente descremos.”

Elucidativo, o segundo parágrafo desta citação expõe claramente o dilema de uma filosofia nórdica espectante e desiludida desde os meados do século XX. Vê-se que essa filosofia, de há muito incapaz de crer para inteligir, ainda não chegou a inteligir aquilo em que descreu.

A esse dilema, porém, fica alheio um filosofar atlântico como o que me anima, e o parágrafo está aqui quase que só a título de curiosidade... Já em relação ao primeiro parágrafo, a citação tem plena justificação, uma vez que, vindo da pena de uma autoridade académica tão distante e díspar da minha condição de ignorado ignorante, este parágrafo vem corroborar parte do que eu afirmei, no início, sobre o Aristotelismo (ler aqui).

Mas nisso que escrevi se poderá perceber que, para mim, o Aristotelismo mais se assemelha à floresta, onde alguma ordem ainda impera, onde o que nos faz perder os pontos de referência é uma cerrada uniformidade, do que à selva de que se queixa e ressente o erudito Germânico, onde nenhuma ordem se consegue impôr ou sobrepôr à exuberante e luxuriosa flora que torna debalde qualquer esforço, mesmo o mais diligente, para delinear uma orientação.

Quanto à “bela inocência de outrora”, quem mais que Ehrenberg tem autoridade para dá-la por totalmente afastada dos corredores e claustros universitários, onde sucessivas gerações de académicos, pela Europa fora, cultivaram o cinismo que permitiu ir vergando o saber ao poder, modelando os ritmos da sabedoria em ritos da academia? Do alto dos seus símbolos, dos seus selos, dos seus mottos e de suas vestes - o que os estadunidenses chamam, sugestivamente, de regalia - os académicos e universitários cobrem-se com as insígnias que se destinam a exaltar o seu disciplinado e persistente esforço, talvez sincero, quiçá dedicado, até altruísta, mas nunca submisso, já não inocente.

E, todavia, essa “bela inocência de outrora” vive por si, como tudo o que é diáfano e não fica preso nas densas tramas das palavras maliciosas. Essa inocência é como um perfume que qualquer de nós pode apreciar, se tiver oportunidade de entrar no jardim onde essa flores germinam.

2 - A primeira frase, o primeiro parágrafo

A incompreensão do conceito de forma, a morfê, que Aristóteles irmanava com a energeia, ou a energética, e logo, com a cinética, levou os comentadores, gradual e erroneamente, ao conceito da forma como figura, irmanada com o limite, com o que encerra a matéria, ou ulê, e logo, queda na estática.

Esta incompreensão, que degrada a forma Aristotélica, mórfica ou movente, em figura Euclidiana, estática e coisificada, aprisiona numa cegueira infeliz muitos dos que estudaram e estudam os principais filosofemas dos dois filósofos de Atenas, e leva-os a concluir que Aristóteles se opôs ao mestre, dadas as diferenças que julgam encontrar separando e opondo a doutrina aristotélica das Formas à doutrina platónica das Ideias.

Para esses, os que professem, ou apenas simpatizem, ou apenas conheçam e aquiesçam com as teses de confronto e oposição teórica e filosófica entre Platão e o seu discípulo deverá ser causa de espanto e surpresa a minha hermenêutica da primeiríssima frase do primeiro parágrafo da Metafísica.

E porquê?

Para esta interrogação, na ensombrada floresta do Aristotelismo, não se encontrará resposta...

Como já afirmei antes,  dessa primeira frase têm os peritos e estudiosos em geral uma intelecção pétrea, sedimentada num estereotipo da exegese erudita, seca e desinspirada, que se perpetua recopiando-se a si mesma, qual fénix sempre disponível para renascer com cada nova geração de estudantes, fornada de tradutores ou fileira de expeditos editores. Com raras e nobres excepções, todos disseram, e dizem, o mesmo!

Para responder, então, à interrogação acima, retorno agora,  um ano depois 1, ao tema que ficou em suspenso desde o primeiro texto desta série:

 - a primeira frase do livro da Metafísica é a seguinte:

πάντες ‘aνθρωποι τοεδέναι ρέγονται φύσει

Como lê-la? O que diz?


3 - Da visão e da ideia, ou uma tautologia

Será um dia consensual, entre os leitores de Platão, qual o radical etimológico mais marcante em toda a obra Platónica? Na minha opinião, esse radical é o do verbo οἶδα /oida .

Tal verbo - οἶδα - é notável por várias razões, das quais aqui salientarei apenas duas: a primeira, é a sua enorme irregularidade; a segunda, é exactamente o potencial semântico desse étimo, que Platão explorou e desenvolveu filosóficamente.

Atentemos agora, em primeiro lugar, na sua enorme irregularidade... Essa irregularidade só sobreviveu porque as vozes desse verbo resistiram, com sucesso, durante os longínquos e longuíssimos trâmites da formação e sedimentação da língua Grega, à pressão conformadora das regras da boa flexão.

Não é fácil resistir a essa pressão, porque as regras da flexão regular são eficazes a gerar importantes benefícios linguísticos – seja a ordenação da multiplicidade dos fonemas e das palavras em grandes grupos homogéneos e coerentes, seja a anulação de repetições e equivocos e, finalmente, seja a prevenção e correcção de idiomatismos que, podendo contribuir para a riqueza de uma língua, não podem ser usados em excesso na fala corrente sob pena de sobrecarregarem insuportavelmente a memória, já que a sua evocação é casuística e não usufrui nem resulta do uso dos mecanismos facilitantes da flexão regular.

Observando a óbvia conveniência destas regras e os benefícios obtidos no seu cumprimento, infere-se facilmente que só um poderoso ímpeto terá permitido que o verbo οἶδα mantivesse tantas formas irregulares.

Ora, pergunto: onde encontraríamos ímpeto falante mais urgente senão nos conteúdos significantes que irradiam da visão?

Na nossa memória imperturbável sentimos os passos dessas gerações de descendentes do mítico Heleno, setentriões que tinham descido de Norte para Sul, ansiando pela chegada às paragens da apolínea luz. Incansáveis e ávidos, foram-se espalhando e colonizando as paisagens da Hélada, da Anatólia ou da Grande Grécia, as suas encostas rochosas e fragas escarpadas, os seus vales rasgados a vazar em praias amenas  banhadas em azul transparente, do Mediterrâneo ao Adriático.  

 

 

E na vida quotidiana desses descendentes do herói era a visão que exercia uma remota e arcaica predominância. Esse ver dos Helenos, curioso e originário, desejoso e atento, era como que um poderoso dínamo escondido nas suas entranhas, esperando pela energia que o fizesse dar as voltas que iriam geram as vozes do verbo οἶδα!

E esse dínamo moveu-se! Deu-lhe energia inesgotável o senhor do raio solar, Apolo,  benevolente protector da rutilante luminosidade daquelas terras meridionais. Sob a sua égide, a visão dos Helenos ganha acuidade e profundeza, maturidade e ambição; deleita-se na refração da incandescente luz, atemoriza-se na projecção das negras sombras, alegra-se na difração das cores, espanta-se no movimento das formas, repousa na simetria dos corpos e na perfeição das imagens.

Tão intensamente estimulada, tal visão só podia ter sido como uma fonte, de onde jorraram miríades de estímulos sobre a alma falante Grega. Esta, reagiu em conformidade e em sintonia! Atraiu, fixou e vinculou a essas percepções ópticas as sonoridades mais simples, tensas, tenazes e nucleares; assim se geraram, e sobreviveram, as múltiplas  formas irregulares de οἶδα; assim se agregou e  consagrou a sua polissemia, que tanto serviu homens de falar comum, como os oradores, os poetas e os Filósofos.

Assim, a fala originária das tribos que se iam espalhando pela Ásia Menor, a Ática, o Peloponeso, a Grande Grécia e a Itália, tecida e temperada na repetição dos hábitos ou na espontaneidade, no uso necessário ou fortuito, na insegurança ou no conforto, no conflito ou na bonança, acaba por solidificar as irregularidades de οἶδα, uma vez que estas davam adequada expressão holofrásica ao sublime idear dos Gregos.

Ver!

Eis o que, estando num ente, conhece o outro!... Eis a visão ou teoria do ser e do ver, ou como preferiu o platónico Marinho, do ser e da verdade. E se a visão unívoca precede e dispensa, em silêncio e plenitude, todo o discurso, já a cisão impõe-nos que falemos, para dizer o que vemos, e impõe-nos que vejamos, para haver o que dizer!

Neste ponto, está desenhado um circulo; estamos em tautologia, próximos da perfeição da esfera, que nos lembra o  sol de Apolo, o globo ocular e, ainda, a pupila, a porta que abre ou fecha o acesso ao coração.

O estudioso Richard Bentley (1662-1742), do Trinity College, com seus estudos sobre a prosódia Homérica, e depois dele também afamados académicos Germânicos, afadigaram-se a mostrar aos vindouros que, nos mais antigos alfabetos de Eólios e Iónios, quedava representada pela letra chamada “digamma” a sombra de um misterioso e indizível waw hebraico, trazido aos Fenícios e Gregos pelos Israelitas compradores de cedro, ou tuía, israelitas enviados por Salomão, o rei construtor, para comprarem no Líbano essa madeira indestrutível com a qual o rei profeta iria revestir o interior do Templo e erigir o tabernáculo para custódia da Arca da Aliança; essa subtil e fugidia letra, que para vogal era demasiado sibilante, mas para consoante demasiado vocálica e aspirada, não deixa rasto apenas nos dialectos gregos, insinua-se também, mais tarde, no Latim, acabando diluída em letras de tardia fixação como o v e o f; deixa igualmente a sua marca noutras línguas, como no Inglês, gerando o w.

Segundo a tese de Bentley, o digama , que algo inexplicavelmente foi caindo em desuso, parecendo também ele cumprir o destino de ocultação do waw original, inscrevia-se arcaicamente em muitas palavras do grego mais remoto, precedendo vogais ou separando-as com o seu específico sibilar. Este tema gerou, à época de Bentley, forte discussão académica, que só terminou quando ficou comprovado que só a presença do digama permitia acertar a métrica de muitos versos do poema de Homero. Foi este facto que tornou irreversível a aceitação da presença do digamma no alfabeto, letra que normalmente se representava assim: Ŧ.

Ora, entre as muitas palavras onde incidia essa estranha letra contam-se várias das formas irregulares do verbo οἶδα!!! Compreender-se-á, agora, como é que, do ideo grego, nasceu o video latino... Formas do verbo οἶδα como Ŧidon ou Ŧidws sofrem, na escrita Latina, a conversão do digama inicial em v, dando corpo às formas do verbo videre; em Inglês, palavras como wit (visão, sagacidade) ou witness (testemunha, o que viu) advêm também dessas formas digamáticas do οἶδα Helénico.

Em conclusão: o idear Grego é um fluxo matricial de onde emergem muitas palavras que, parecendo diferentes,  mais não são que efeitos caleidoscópicos e tautológicos desse verbo. Ver, ver, ver. 

Cabe agora passar à segunda faceta, que acima enunciámos,  do verbo οἶδα, para dizer que o portentoso manancial semântico deste verbo faz dele o ubis consistam (ubicação de referência, o ponto axial) do pensamento platónico. Toda a obra de Platão, altissonante expressão do movimento que vai da inquietação filosófica à quietação sófica, tem a sua pedra angular neste verbo, donde emanam sentidos que tanto abrangem o mero olhar, como o ver, o idear, o lembrar, o conhecer.

Na estrutura do verbo οἶδα, e no modo como Platão o usou, encontramos vestígios patentes e consistentes das práticas iniciáticas da sua Academia. Como já tive oportunidade de escrever antes, e agora recordo, o fundador da Academia decidiu, enquanto mantinha actividades quotidianas de ensino público, de convívio e de debate intelectual, ao mesmo tempo orientava um grupo selecto de discípulos nos processos de iniciação pitagórica para assim, nessa outra Academia escondida dos olhos indiscretos, mesquinhos e maledicentes,  retomar e reavivar a tradição e sabedoria pitagóricas. Pretendia Platão, deste modo, lutar pela reordenação da Politeia nos quadros dessa sabedoria, já que, na sua época, se jogava o destino futuro dessa sabedoria dos mistérios, tradição pátria que parecia já votada ao esquecimento. O pitagorismo, estiolando em comunidades fechadas e receosas, era cada vez menos pujante e influente na vida das cidades-estado, tendência que Platão não considerava irreversível e pretendia, portanto, alterar.

 

4 - Aristóteles Platónico

Ora, retomando, de novo, a primeira frase da “Metafísica”, que leio?

πάντες ‘aνθρωποι το εδέναι ρέγονται φύσει .

Constato então que o verbo οἶδα, ubis consistam de Platão, é o primeiríssimo verbo que Aristóteles enuncia na Metafísica ( το εδέναι)!Idear... E qual o agente deste verbo? Os humanos (πάντες ‘aνθρωποι)!Seria um anacronismo julgarmos que Aristóteles queria dizer Humanidade, já que a Humanitas nao foi concebida antes da Roma Imperial de Octávio Augusto. Não! O que o Filósofo quis referir aqui são, exactamente, os antropos – aqueles cuja alma não tombou na condição animalesca, dita andrógina.

Concluo, portanto, que logo na primeiríssima frase da obra "Meta ta fusica", logo no passo inicial da caminhada, Aristóteles convoca e atribui àqueles que desejam passar da androgenia à condição antrópica, isto é, àqueles que não se contentam com a condição de cavernícolas, a faculdade do platónico idear , que na sua polissemia guardava os passos ascendentes dos processos gnósicos e sóficos. 

O discípulo, pese embora o facto de lhe terem sido negados os rituais de iniciação do mais secreto Pitagorismo2, mantendo-se, por isso, em silêncio sobre processos que não experienciou, não deixa, todavia, no pórtico do compêndio em que estão expostas as teses mais esotéricas do seu Liceu, de seguir bem de perto os passos do Mestre!

Como não ver nisto uma flagrante evidência do Aristóteles Platónico?  

(continua...)

João Seabra Botelho

Notas

1 Foi em Março de 2010 que escrevi e publiquei na “Leonardo” o primeiro texto desta série, que pode ler aqui

2 Pode ler aqui o texto onde inicio a exposição da minha conjectura sobre a não iniciação de Aristóteles no Pitagorismo esotérico

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