O Aristotélico insubstante do platónico Marinho – VI
ἅπαντ᾽ ἐπαχθῆ
πλὴν θεοῖσι κοιρανεῖν: ἐλεύθερος γὰρ οὔτις ἐστὶ πλὴν Διός.
Todas as tarefas pesam, excepto reinar sobre os Deuses; livre é nenhum, senão Zeus.
Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, 35
A era de Zeus
Segundo a Teogonia de Hesíodo, Sócrates, Platão ou Aristóteles viviam na era de
Zeus.
Ao abrir o sentido da “Metafísica” com as chaves forjadas na anamnese, deparei-me com o que chamei um vero Aristóteles,
cujos contornos se foram compondo ao longo de quase dois anos de hermenêutica. Nesse percurso, tanto me fui afastando do “Aristotelismo” -
a visão consensual e milenar do Filósofo, que uma nova matriz causal unificante me foi exigida. Essa matriz, a dado
momento me apercebi, já sem surpresa, só podia ser identificada como “a era de Zeus”. Sem surpresa, pois os construtores do “Aristotelismo”
- tanto os mais notáveis comentadores como a interminável multidão de estudiosos anónimos - tinham vivido, todos eles, já nas eras proféticas
do Cristianismo e do Islão, e essa sua condição existencial afectava radicalmente a sua hermenêutica.
E nem mesmo a visão inovadora de Nietzsche e seus epigonos alterou essa situação.
Na medida das minhas possibilidades, vi-me então forçado a tomar em devida conta o significado e as consequências de Aristóteles ter vivido
nessa diferente era.
Uma vez este dado já conscientemente interiorizado, novas ramificações se me abriram na lembrança, mostrando o genuíno refulgir da era jupiteriana
na vida e obra do fundador do Liceu.
Mas que podemos saber, ou dizer, da “era de Zeus”? Ouçamos José Marinho, que é aqui um interlocutor desde o início ( mesmo que em silêncio)
: ”O saber que foi, da cisão divina e da cisão cósmica, e ainda é ao homem possível, queda hoje velado e subtil nos mitos remotíssimos,
ou no que deles revive sempre na alma e no inocente viver desde a infância inspirada.”
É algures nesses mitos remotíssimos que está descrita a passagem da era de Cronos para a era de Zeus. Nessa passagem, planetáriamente
cataclísmica no seu auge, mas também gradual e estendendo-se por muitas gerações, tomamos por assente que ocorre uma mutação ou alteração
no composto humano; essa mutação conclui-se quando a psique se densifica num húmus simpático e
compatível com a vida sensível à face da Terra, e os sensos terrenos que
hoje denominamos por “os cinco sentidos” actuam finalmente em plena e
competente articulação com os orgãos físicos e mentais.
Esta alteração, esta nova sensibilidade, potenciou uma gradual obnubilação dos sentidos genesíacos, ou seja, das faculdades noéticas, e um
desenvolvimento e reforço das faculdades logóicas; eis, em brevíssima síntese, a descrição dos dados do tempo vertical que estavam presentes e
actuantes nessa época, em que Zeus rege o Olimpo e Apolo Hiperbóreo chama a si o protagonismo na eclosão dos oráculos que ligam os humanos
às suas origens. E quando diz - “conhece-te a ti mesmo” - é como se dissesse “lembra-te quem foste, quem és, quem serás”.
Consequentemente, na Hélada do apogeu, ou mais especificamente na época da Atenas de Péricles, cruzavam-se nas ruas e pórticos das cidades
gregas, oravam nos seus templos ou discursavam na Bolé, três diferentes tipos de pessoas:
-
os que ainda nasciam com faculdades noéticas activas e eram vulgarmente
chamados “grandes almas”, cujo nascimento, lendário e invulgar,
aparece associado a sinais e prenúncios da sua grandeza; exemplos
disto serão Pitágoras, Sócrates, Platão, ou Alexandre.
-
Os que nasciam já “esquecidos” mas, após a adolescência e a sujeição a
ritos inicáticos ou experiências taumatúrgicas, recuperavam, em
maior ou menor grau, as faculdades dianoéticas de clarividência, de
clariaudiência ou de anamnese; exemplos disto serão, entre outros,
Tales, Anaxágoras, Heraclito, Parménides, Zenão de Eleia, Aspásia,
Aristóteles.
Os que, durante toda a vida, permanecem “esquecidos” e privados das
faculdades noéticas, mas que exercem, em plenitude, as faculdades
logóicas, totalmente envolvidos na dinâmica dos cultos e da cultura
helénica, lembrando ainda, e assumindo, a condição trágica e úbrica
do ser humano prometaico, afastado do contacto directo com os
deuses, é certo, mas provido de uma centelha cujo brilho pode
determinar um destino heróico, gravado para sempre na memória dos
homens. Exemplos disto temos em homens como Sólon, Clístenes, Péricles ou
Demóstenes.
O que aqui importa também salientar é que os Helenos não tiveram imagem, ideia,
noção, teoria ou teodiceia do que, vindo da tradição semita, se veio a
chamar o “transcendente”, e depois o “transcendental”, e se sobrepôs ao
paganismo Helénico, impondo as eras proféticas do Cristianismo e do Islão.
Da anamnese
A anamnese, método que tomo aqui como sendo “o método platónico”, tem como origem
a memória imperturbável.
Para lhe marcar a margem e a tornar acessível aos aventureiros que a procuram em
vida, ou os que nela têm de entrar forçados pela morte, está o caudaloso rio do esquecimento, o Letes.
Atravessar este rio significa, simultâneamente, adormecer para despertar, e
despertar para adormecer. À noite, quando adormecemos, despertamos para o sonho, em que a consciência se liberta das peias deste mundo. E
quando, de manhã, acordamos para o mundo que nos exige vigilia, ou vigilância dos sentidos, é a consciência sonhadora que adormece, e nos
esquecemos dos sonhos. Nascer e morrer eram, para o Heleno da era de
Zeus, a primeira e última vez que alguém percorria esse trânsito.
Quem pratica a anamnese depressa se familiariza com a silencial e palpitante solidão
das auroras em que, no decurso de uma espera atenta e paciente, a memória imperturbável se manifesta, brisa matinal
soprando, audíveis ou visíveis, as hipóteses (a «upotesis» platónica é um degrau na subida aos arkê) e conjecturas que abrem novas
perspectivas e rasgam novos quadros de entendimento.
O primeiro a surpreender-se com as conjecturas anamnésicas,
algumas das quais já apresentei nos textos anteriores, sou eu próprio... Da surpresa que senti, e sinto, deduzo que tais conjecturas não resultam de mera ou
fortuita associação de conhecimentos já préviamente assimilados, ou de perpectivas exóticas de temas de um qualquer “Aristotelismo” menos
ortodoxo a que tivesse tido acesso pela vias, hoje labirínticas, dos meios informáticos...
Foi a voz da “memória imperturbável”, ou os seus lampejos, que me forçaram a atender à relevância da era de Zeus como
contexto existencial e histórico de um Aristóteles que, sendo dos que a ela se deveria ter sujeitado, não
recebeu a iniciação Pitagórica na Academia!
A iniciaçao, nos ritos Pitagóricos, destinava-se, como dissemos
acima, a despertar os que nasciam "esquecidos". O recém-nascido,
ao afastar-se da protecçao do seio materno, aventurando-se a tactear, ver, ouvir, saborear, vai fiando e tecendo um manto memorial, cada vez mais denso, de sensações, manto que acabaria por
cobrir totalmente a alma, como a mítica floresta rodeou e cobriu a Bela Adormedida, se o infante não iniciasse um processo de esquecimento, de
escolha e rejeição.
Para sua própria protecção, portanto, o ser interno, a que os Gregos
chamaram de
nous, perante esse jorro constante da sensibilidade
guardava-se cativo e adormecido na alma, até à puberdade; dava-se então
o normal desenvolvimento dos orgãos e faculdades da mente e do corpo, até
à idade em que a Vida, cumprido o crescimento adequado e
atingido o equilíbrio entre a dinâmica interna e os estímulos externos, tornava a reacender a centelha da individualidade através da eclosão do
desejo e da energia sexual: eis Eros, o príncipe que deverá acordar, com o seu beijo, a Bela Adormecida, ou, em termos mais próximos de Hesíodo,
o nous, ou o titã Prometeu, que traz de volta aos humanos o perdido fogo divino.
Mas esse acordar espontâneo do efebo podia falhar...
E assim fica clara a necessidade da iniciação nesta era: se, na grande maioria dos casos, o despertar
espontâneo do efebo podia já falhar, então os rituais iniciáticos seriam necessários para provocar, forçadamente, pelo culto e pela cultura,
o despertar do nous que, por simples força da natureza, não chegasse a ocorrer.
Dois caminhos adversos
Os mais antigos rituais de iniciação que se praticavam na Hélada provinham da
civilização Micénica, mas esta civilização desapareceu estranha e
abruptamente. Foi no Egipto, portanto, que Pitágoras reencontrou, ainda
viva, a tradição que, graças à poesia de Homero tão frequentemente
recitada pelos seus pais, conhecia desde menino.
Sob os auspícios de Ares, senhor da areté da virilidade, ou virtude, os efebos
eram sujeitos ao processo de iniciação, para ficarem cientes da sua autonomia e
preparados para os desafios do seu destino único.
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É esse o exemplo dos desaparecidos heróis de Micenas, lembrados na poesia de
Homero, figuras lendárias que iluminaram a imaginação Helénica por
muitos séculos e muitas gerações, como Nestor, com a sua iniciática
batalha com o monstro, ou como o imbatível Aquiles, cuja iniciação foi
tão árdua que lhe exigiu que passasse cinco anos disfarçado de mulher,
vivendo escondido entre as cinco filhas de Licomedes de Siro.
Mas a Polis, que emergiu
e adornou o mundo helénico como a flor do crescente intuito gregário dos
descendentes de Heleno, foi, no caso de Atenas, engendrada por Sólon e
Clístenes com a ostensiva e intencional pretensão de afastar os jovens
da família, e as famílias da sua tribo. Tal desiderato destinava-se a
impôr um novo caminho – o ideal da vida em cidade – em que os jovens se
integravam na vida citadina e as famílias, dissolvidas nas demas,
aceitavam e participavam no novo modo de coexistência colectiva, regido pela Bolé.
Este novo projecto de vida colectiva instituia a supremacia do genérico e abstracto
poder Político sobre as formas específicas e concretas dos rituais e do
poder tribal dos séculos anteriores. No caso concreto, aqui relevante, da Polis Ateninense, em vez de se desenvolver
a tradicional iniciação e louvar a oportunidade dos jovens despertarem para o
espírito, apontava-se-lhes como mais recompensadora a aprendizagem das técnicas e artes
citadinas, nomeadamente a oratória, com o seu mágico poder de conduzir
as multidões a decidir na Àgora os problemas politicos segundo os desejos do orador.
Para concretizar a aprendizagem dessas artes citadinas formou-se na Polis uma
ilustre pleîade de mestres e peritos, e destes, aos chamados sofistas
coube a tarefa de apresentar à mente dos jovens todos os aliciantes do
modelo do novo homem, do político apolíneo – o homem como medida de todas as coisas...
Não estranha, pois, que Pitágoras tenha fundado as suas escolas, para
nelas contrariar o esquecimento de uma antiquíssima sabedoria
tradicional e, também, o esquecimento dos processos gnósicos, ou de
auto-conhecimento, e os processos sóficos, ou de contemplação das Ideias, já que os sofistas apenas ensinavam processos písticos,
próprios da retórica e inerentes ao programa de ensino da cidade.
Sócrates, certamente um pitagórico, tentou pela maiêutica, tal como Platão nos
narrou, ajudar as almas dos jovens Atenienses a darem à luz o seu nous.
Foi um novo esforço prometaico que, tal como o primeiro, termina
cruelmente punido! Sócrates desafiou os poderes da Cidade, tal como
Prometeu desafiara os poderes do Olimpo.
Entretanto, o trabalho dos sofistas habilitava os discípulos a melhor dominar os novos
tempos e, diga-se, dificilmente seria censurável tal trabalho se ficassem por aí as suas consequências... Mas, para a grande maioria dos
adolescentes de Atenas, que já não acordavam naturalmente para a via do espírito, enredarem-se nos negócios da cidade era um motivo para
reforçarem o seu posterior desdém pelas tradições.
A Academia de Platão é fundada nestas circunstâncias, e enfrentava o problema crucial
do esquecimento iniciático, tanto nas intervenções públicas dos
Académicos e do próprio Platão, como nas acusmáticas actividades que
quedaram veladas, sem registos claros para a posteridade. Era no
secretismo, imposto pela ignorância da multidão que ocupava as ágoras,
que se davam os processos iniciáticos do pitagorismo e se firmavam as
relações de entreajuda fraternal entre os iniciados.
Concluindo a tradução da primeira frase da Metafísica
Aristoteles, ao fundar o Liceu, decide não dar aí guarida aos resquícios dessa secreta
tradição pitagórica, de que não usufruira nos seus vinte anos de estudo
na Academia. Ao mencionar a célebre lição, talvez a última, que Platão
deu publicamente na Academia, e que diz ter-se chamado “peri agatou” – do
Bem, Aristóteles deixa-nos mais um claro indícío da sua ausência e desconhecimento dos secretos simpósios pitagóricos.
Se neles tivesse participado, o teor dessa
lição não lhe pareceria tão excepcional, pois era esse o tema sobre o qual Platão certamente
mais desenvolvia as vibrantes exortações dianoéticas que
impeliam os discípulos para a contemplação epóptica das Ideias.
Mas uma coisa é constatarmos que Aristóteles não acolheu nem
cultivou, nas obras que
ficaram escritas no Liceu, as raizes dessa tradição secreta, ao contrário do
que fez o seu mestre Platão, mesmo que este o tivesse feito por escrito
em passagens suficientemente obscuras para não despertarem a ira dos
ignaros, outra coisa é, como faz o “Aristotelismo” em abundância,
atribuir a Aristóteles as afirmações mais triviais, através de traduções
que recusam ao Filósofo a sua condição jupiteriana de visionário.
Ora, se Aristóteles quisesse ter dito, na primeira frase da “Metafísica”, a trivialidade que
os tradutores do “Aristotelismo” afirmam que ele disse – “o homem deseja
naturalmente conhecer” - teria para tal usado o verbo gignwskw -gignosko,
que tem o significado pretendido na tradução, como o comprova à saciedade e de forma
indesmentível o lema, que ainda há pouco lembrei, do templo de Delfos “
γνwθι
σεαυτόν – conhece-te a ti mesmo”, verbo que, nesse sentido, é usado
consistentemente por Aristóteles na sua obra.
Acresce, recordando o já dito antes, que eidw/oida era o verbo próprio da dianoética e da anamnese.
Dificilmente
iria Aristóteles logo escolher e usar ali tão precioso termo, se tivesse pretendido iniciar a
«Metafísica» com
os longos parágrafos de frases banais que os tradutores do «Aristotelismo» lhe querem imputar.
Que os tradutores do «Aristotelismo» tenham podido conceber, para pórtico de entrada do mais importante compêndio do sistema de Aristóteles,
aquelas frases repletas de generalidades superficiais, é a mais evidente prova – se prova fosse necessária... - da distância que separa a Hélada do século V A.C. do mundo em que vivemos. Somos estranhos uns aos outros!
Os Atenienses, ainda representantes da era de Zeus,
mesmo sendo já os seus mais tardios representantes, guardam entreabertas as portas entre o físico e o metafísico, entre a alma e o
espírito; nós, os nascidos na era D.C., temos o espírito fechado num transcendental para o qual a alma é, segundo o senso comum, cega, surda e muda.
Ao invés dos Helenos, porém, o nosso tempo exprime, até às suas últimas
consequências, o que veio a designar-se por «Vontade de Deus», noção a
que os Helenos são totalmente estranhos
Concluindo agora a tradução da primeira frase da «Metafísica», direi que “oregontai” e “fusei” pretendem dizer algo
que a língua Portuguesa pode exprimir num só verbo. E, sabendo nós que
há duas traves mestras no fluxo discursivo tradicional na Hélada – a
eufonia e o laconismo (ver aqui) – que o vero Aristóteles certamente
cultivava e cumpria, que motivo haveria para não obedecermos ao cânone
lacónico? Segundo este cânone ou regra dourada, é sempre desejável a
forma de expressão mais contida, compacta e com mais intenso poder de
sugestão... Assim, para mim, o que exprime conformemente “oregontai
fusei” é o verbo“realizar”!
Para este verbo, fruto gerado pelo génio Romano, nunca foi indicado um sinónimo rigorosamente
coincidente, ou mesmo sómente aproximado, na língua Grega...
Entretanto, sedimentou a tradução académica de “fusei” pelo acanhado termo “natura”, o que
demos por errado, logo no início desta série de textos, embora o verbo “fuw” também signifique originar e não seja, portanto, totalmente
errónea a tradução latina.
Os Helenos, portanto, à una, fluente e ordenada totalidade movente dos entes
chamaram «física». Esta «física» dos Gregos, era, para os Romanos, o «real», ou a presença constante e concreta das “res”...
Quanto a «oregontai», pretendeu o «Aristotelismo» atribuir-lhe o sentido de “desejo”. Mas “oregontai” significa
uma acção, não uma faculdade, ou seja, há um almejar, sim, mas que inclui o acto de obter, ou fazer para conseguir...
E se “oregontai” está imbrincado com “fusein”, então estamos perante o “fazer o real”, ou “realizar”.
Escreve-se, agora, toda a primeira frase, na sua chocante diferença para com a tradução do “Aristotelismo”:
πάντες
άνθρωποι τοι ειδέναι
oρέγονται φύσει.
Os humanos realizam-se ao idear. 1
A questão, entretanto, pode surgir: porquê o modo verbal reflexo?
Dizem muitos que «consciência» é sempre «consciência de si». Aqui
ocorre algo de semelhante, devido ao sentido do «idear», que é, como deixámos dito antes, uma epoptia, ou seja, a visão
dos iniciados e videntes que pode perceber a presença de entes etéreos, cuja radiância não é perceptível pelo olhar mundanal.
Ora, esta é a visão em que o próprio vidente se faz, ou revê; ao visionar o que é verdadeiramente humano, ou até, só humano e para humanos,
a sua própria enteléquia realiza-se, isto é, há uma actualização dos sentidos noéticos, antes
indistintos na sua mera potencialidade, tornando-os reais e actuantes.
1 O padre católico irlandês Brendan Purcell, que foi amigo e conviva do ilustre filósofo Eric Voegelin, conta no seu livro «From Big
Bang to Big Mystery» que Voegelin, nas suas leituras de Aristóteles, refere-se também à primeira frase da «Metafísica», sugerindo que seja
traduzida da seguinte forma (em inglês, conforme o original a que tivémos acesso): «All men are by nature in quest of the ground». Acrescenta
Purcell, explicitando o raciocínio de Voegelin: se olharmos para a segunda parte desta frase, sugere
este que a expressão «desejam conhecer» merece uma
interpretação mais activa – procuram conhecer – e afirma também que esse «conhecer»
(o nosso «idear»...) se concretiza num questionar que ascende
das questões menores até aos fundamentos da própria existência.
Foi apenas há uma semana, e fortuitamente, que tomei conhecimento do livro de Purcell, e da insatisfação de Voegelin com a tradução
comum de Aristóteles, insatisfação que me dá algum conforto, pois
reforça a minha própria, que até aqui eu tinha tido de assumir em
completa solidão.
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