O Aristotélico insubstantedo platónico Marinho - I1 – A tradução, o “Aristotelismo” Remete-nos a leitura da primeira frase da "Metafísica" de Aristóteles à admoestação de Álvaro Ribeiro relativa à tradução da palavra grega "fusei" por «naturalmente», e não «fisicamente». Não foi Álvaro o primeiro, nem será provavelmente o ultimo, a manifestar discordância nessa sinonímia, já que «fusein», para os Helenos, era o fluir urgente ou orgânico do Cosmos, movimento de perene vitalidade que, manifestamente, «natureza», ou o nascido, nunca poderá representar; é consensual que nascer não significa o mesmo que viver, e viver poderá bem não significar o mesmo que existir. Alexandria, a terra do Farol e da Biblioteca, deixa-nos compilados textos e notas de discípulos de Aristóteles, textos que vêem a ser encarados como se obra do próprio Filósofo fossem. Nessa e noutras metrópoles começou então o que ainda hoje não terminou – a transcrição e tradução de tal obra do seu original grego para as mais desvairadas línguas; primeiro, para o arábico e o latim, depois para linguas vernáculas de nações Europeias sempre interessadas em revisitar “o milage Grego”, e o leque vai-se abrindo ao longo do tempo sem sabermos onde irá parar... É, pois, um Aristóteles ficcionado o que nos é trazido aqui, a Portugal, por essas traduções de textos de terceiros... Sabe-se que o Filósofo escreveu obra, nomeadamente diálogos, que desapareceram. Assim, privados do que foi escrito pelo punho do próprio Aristóteles, escapa-nos irremediavelmente,desde logo, um elemento fulcral para a compreensão do seu pensamento - o estilo. Acresce que a quantidade assombrosa de comentários e exegeses da obra, legado autoritário, quase irrefutável, académicamente ratificado e difundido, deixa-nos perante o que podemos chamar, merecida e compreensivelmente, de “Aristotelismo”, mas não perante o, ainda (e talvez para sempre...) por descobrir, vero Aristóteles. Só Álvaro Ribeiro nos poderia descrever o modo como lhe foi transmitido, ou trazido à mente, o que depois escreveu nos “Estudos Gerais”, referindo-se a Aristóteles, já que certamente não o encontrou lendo tais traduções! Passo a citar: “ A Física é um desenvolvido tratado do movimento e do repouso, da quietação e da inquietação. Erro lamentável foi sempre o de confundir com a física a ciência da natureza, limitada esta aos entes que vivem sob as leis do nascer e do morrer, quer dizer, do tempo.” É a seguir que Álvaro faz a admoestação acima referida – e, uma vez mais, só ele nos poderia dizer como tal lhe foi trazido à mente, nos parecendo porta-voz de um incómodo que soa como se fora do próprio Aristóteles -: “Erram os tradutores quando escrevem «naturalmente» por «fisicamente», como na primeira frase do livro da Metafísica”. A primeira frase do livro da Metafísica é a seguinte: πάντες ‘aνθρωποι τοῦ εἰδέναι ὀρέγονται φύσει . Não nos iludamos: a maior parte das traduções são cópias umas das outras... Guarda-se por perto o original, é certo, mas apenas para esclarecer alguma variação possível e, nem sempre pelas melhores razões, desejável! Este copiar e recopiar é facilmente disfarçado. Sendo, efectivamente, o texto a traduzir o mesmo para todos, até o senhor de la Palisse diria que as traduções se devem repetir... Assim, sistemáticamente se apresentam as traduções como sendo “originais”. Assim, é também sistemáticamente sancionada a repetição de erros. |
Quem quiser, aliás, reconhecimento de competência “inter pares”, está constrangido a repetir erros, ou será banido pelo sistema! O sistema que copia, o sistema que sanciona os erros copiados é, óbviamente, o Sistema Universitário. Quem, de facto, hoje corporiza a doutrina de que só há novos conhecimentos a acrescentar à erudição vigente, se houver novos “dados”, ou “documentos”? Quem defende a exclusividade do saber do tempo horizontal, ou, no mínimo, a óbvia superioridade deste sobre o saber do tempo vertical? 2 – Do “Aristotelismo” a AristótelesUtilizemos três traduções para comparar. Até podíamos usar trinta!... Em todas se reconhece, e reconheceria, o erro que Álvaro aponta. Elas são: 1 – Areal Editores, Metafísica, Texto Integral do Livro I, análise e tradução de José Ferreira Borges (livro didáctico, da colecção de Textos fundamentais de Filosofia, para alunos do 10º,11º, 12º Anos) 2 – Aguilar, Obras Completas, tradução e preâmbulos de Francisco de P. Saramanch. 3 – Oxford University, tradução de D. Ross, Complete Works of Aristotle E traduzem a primeira frase da “Metafísica” assim: “Todos os homens, naturalmente, desejam conhecer.” “Todo hombre, por naturaleza, apetece saber.” “All men naturally desire knowledge.” Ora, se todas estas traduções persistem no erro, de que vale então a Aristóteles, ou a alguém em seu nome, transmitir a homens como Álvaro Ribeiro, e este a nós, a evidência do erro, se ninguém se atreve a corrigir? O atrevimento é reprimido, já o sabemos, pela pesada sanção dos retrógrados sistemas universitários. No caso Português, a Universidade já mostrou não reconhecer em Álvaro Ribeiro a clariaudiência ou qualquer outra capacidade anamnésica que lhe desse o conhecimento do vero Aristóteles. E não havendo prova de que Álvaro tivesse tido acesso a algum papiro desconhecido, ou fosse mais versado em paleografia que os profissionais pagos pela nossa república das Letras, encerra-se o caso, e está sancionada a repetição do erro! Congratulam-se então os eruditos com a semelhança das traduções, das exegeses, das conclusões. Distribuem-se prémios e honrarias, distinguindo e consagrando os esforços como quem consagra maratonista ou lançador do peso. Em homenagem ao exemplo de Álvaro Ribeiro, e beneficiando eu do silêncio que resulta de estar afastado do “imbecil colectivo” e imune à aprovação ou censura do soturno sistema universitário, com o qual nada tenho a ver e do qual nada tenho a haver, vou pôr por escrito propostas de tradução e interpretação que, podendo ser controversas e sendo certamente escassas, não deixam de ser diferente. Não se tratará de “Aristotelismo”, mas de Aristóteles. Nisto seguirei o método, ou caminho, que é essencialmente o de atender a quem chega, como quem deambula mas não sai do mesmo sítio; e esperado, mas imprevisível, virá o hic et nunc onde convergem, sem aviso, novos conhecimentos e outros deambulantes; foi deste modo que se juntou José Marinho a este exercício, o que também mais adiante se verá. Março 2010 voltar á página inicial |