O Aristotélico insubstantedo platónico Marinho - II1 - Hipóteses longínquasUsa-se dizer que a Academia de Platão informava no seu frontespício que não aceitaria alunos que não tivessem vinte anos de geometria. Isto - concluem céleres os que gostam de recordar este facto - denotaria o alto apreço de Platão pela Geometria, denotaria que Platão reconhecia nesse saber um caminho que exige inteligência, e a desenvolve. Quanto a mim, há razões para supôr exactamente o oposto! Platão pretendia, aliás fazendo-o com a impenitente ironia que revela nos seus diálogos, anunciar a todos os candidatos à Academia que não lhes admitiria que ali entrassem ainda interessados em discutir os esquemas euclidianos. Vinte anos seriam suficientes para que esse tópico estivesse devidamente estudado e arrumado! A frequência da Academia Platónica levaria, sim, ao exercíco dos aritmos, do qual saíriam os discípulos preparados, ou não, para a experiência iniciática que daria acesso ao esotérico conhecimento Pitagórico. Quem se quiser dar a esse esforço, poderá confirmar uma das conjecturas que reforça a hipótese que avançámos acima: não é Euclides o principal mestre do “corte espistemológico” que Descartes pretendeu realizar, na companhia de outros racionalistas modernos, em relação ao pensamento medieval? Não é o brilho da axiomática euclidiana e das suas demonstrações geométricas a luz que nunca mais deixou de iluminar, e ofuscar, a mente humana? Não é a imperatividade das razões necessárias um poder inebriante e o mais precioso auxiliar e permanente estímulo do voluntarismo? Como estranhar, então, que o voluntarismo se tenha desenvolvido a par e passo com o racionalismo moderno? De Descartes, Espinosa, Newton e Kant a Comte, Frege, ou Russel (entre outros...), na epistemologia, na Lógica, na Ontologia e, até, na Teologia, o esquema Euclidiano está presente e vitorioso. Ouçamos Kant, se dúvidas restam: "O propósito principal desta crítica da razão especulativa pura consiste nesta tentativa de alterar o procedimento que até agora prevaleceu na metafísica, nela operando uma completa revolução segundo o exemplo dos geómetras e dos físicos." ( Kant, Crítica da Razão Pura, B XXII). Tal revolução racionalista chegou também à escola dos nossos dias, onde nunca falta a menção ao célebre “Teorema de Pitágoras”, o que ilumina... Mas o ensino desse teorema surge sempre enquadrado no estudo da geometria Euclidiana, o que ofusca, pois é uma “traição” a Pitágoras, mestre que não era do espaço, ou da figura, mas do tempo e do número. “Traição” que se completa quando até a aritmética é ensinada num modelo estático, mecanicista e figurativo, servo dos padrões perceptivos euclidianos, em que o verdadeiro saber Pitagórico sobre os números queda totalmente silenciado! Esta supremacia de Euclides, que durante os séculos de vigência da Filosofia Moderna aparentou tornar-se imbatível, só sofreu um irremediável revés com a obra do pacato platónico Kurt Goedel. Um visionário, o mais genial matemático do século XX, este obscuro pensador Austríaco, de que recentemente os seus compatriotas festejaram o centenário do nascimento, devolveu-nos a viagem no tempo e libertou-nos das grilhetas da mecanicidade que nos pode ser imposta pela axiomática auto-suficiente, de que foi pioneira e seu fundamental paradigma a "Geometria" de Euclides. Platão, na Academia, não só conteve e reduziu a sedução do fulgor Euclidiano, como deitou por terra muito do prestígio da retórica de alguns sofistas. E tudo isto porquê? Porque se desenvolvia na sociedade Grega um surdo conflito... E para quê? Para Platão prosseguir o seu plano, e realizar as tarefas que a si mesmo se atribuía na resolução desse conflito... |
Sim, Platão pretendia, mesmo depois do agravamento das condições em que era possível concretizar o seu plano, agravamento induzido pela
condenação de Sócrates à morte, devolver à Tradição da Escola Pitagórica o poder de reorganizar a pátria Helénica
2 - Peri philosophia - Da filosofia?Felizmente, não há testemunhos suficientes nem suficientemente claros que nos impeçam de recordar Aristóteles. Se houvesse, passaríamos, pelas mãos de simpáticos e laboriosos eruditos, de um exercício de anamnése para um exercício oftálmico - bastaria ver as provas, tudo se resumiria a mais um registo notarial. Admito que haja quem preferisse assim, em nome do império do rigor. Para mim, o que ganhasse em rigor, perderia em graça. De volta ao tema inicial, mas antes de nos embrenharmos na tradução da primeira frase da Metafísica, e outras frases cuja presença se imponha por motivo, ou motor, dianoético, não posso evitar uma referência ao próprio título da Obra. Meta ta fusica? Eis um nome cujo sucesso nos dá a medida da grandeza do equívoco que, na minha opinião, gerou. Temos notícia de que o tratado das Categorias poderia ter tido vários nomes, como “peri twn genwn tou ontos” ( dos géneros e dos entes) e que os cinco primeiros livros da “Física” se chamaram “peri arcwn” (dos arquétipos), e os três últimos “peri kinesews” (do cinético). Os primeiros Analíticos poderiam ter sido titulados “peri sunllogismos” (do silogismo), os segundos “peri apodeixews” (do apodítico). Perante estas variantes, torna-se plausível que “Metafisica” pudesse ter surgido, como alguns alvitram, da mera indicação, aos estudiosos, de que este livro deveria ser lido depois da Física. Neste, como noutros tópicos semelhantes, ficamos pela plausibilidade e pela conjectura, sem certezas factuais ou testemunhos definitivos. Ora o que me importa aqui dizer é que, se esta obra tivesse guardado o seu nome inicial “peri filosofia”, não teria dado azo a que surgisse uma tal “Metafísica” que, desconhecida na Hélada Antiga, veio dar, séculos mais tarde, nome grego a algo de que esses Gregos Antigos não falaram, e que surgiu no seio de povos Semitas, descendentes de Abraham, e ganhou corpo civilizacional com o Cristianismo – o transcendente. E assim a "metafísica" passa a disciplina filosófica que genéricamente trata do transcendente e da transcendência, e, já no tardio século do filosofo germânico há pouco citado, Kant, e a partir dele, também do transcendental. Mas fico indeciso, quando tento avaliar as consequências da adopção do título “Metafísica”... Se é certo que esse título gera o equívoco acima mencionado, o que é negativo, não é menos verdade que pode ser um sinal elucidativo ou, pelo menos, sugestivo, em relação ao tema anamnésico que, ínsistentemente, se tem vindo a intrometer nas minhas congeminações - e isso é positivo! O tema a que me refiro compõe a seguinte questão: será que Aristóteles foi realmente submetido aos ritos iniciáticos da Academia Platónica, que é como quem diz, da Escola Pitagórica? Ora, atentemos que, segundo a tradição, foi Pitágoras quem, num gesto de exemplar humildade, cunhou para si mesmo o termo “filósofo", afastando-se do aclamado
grupo dos “sábios da Grécia” em que o tinham incluído; depois, foram Sócrates e Platão, também "filósofos" a seguir o mesmo caminho, opondo-se aos
igualmente aclamados sofistas, ou sábios... regressar a página anterior |