O Aristotélico insubstantedo platónico Marinho - IIIA eufonia e o laconismoO extraordinário florescimento das artes da palavra ocorrido na Grécia Antiga não pode deixar de provocar admiração em todos os que chegam a conhecer as obras e os feitos desses nossos surpreendentes antepassados.As palavras que estão ditas nos poemas homéricos, lembrando outras palavras míticas ainda mais remotas, e as que se foram posteriormente compondo em comédias, em tragédias, em diálogos e em tratados, todas elas procuram alcançar a perfeita sonoridade atribuída à flauta de Orfeus, simbólica presença da eufonia, e como ela desejam atrair, convencer ou encantar todos os ouvintes. Mas os Helenos deixaram-nos também o laconismo, com os seus apoftegmas e aforismos, dos quais o mais famoso será a exortação do templo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo”. Esse exemplar costume dos guerreiros da Lacedemónia, ou Lacónia, com as suas características de humilde contenção e firme sobriedade, completa e equilibra o inebriante cultivo da eufonia; assim convergem ambos para uma mesma finalidade – dar poder ao dizer! Mas eufonia e laconismo realizam essa finalidade de modo diverso, como contrários que se harmonizam; no laconismo, é falando o menos possível, na eufonia, falando o melhor possível. Se tiver em mente a excepcional qualidade do discurso dos Gregos, todas as traduções da “Metafísica” que conheço me parecem sobrar-lhes em tédio o que lhes falta de entusiasmo; todas me parecem cair num estilo palavroso e redundante. É certo que os tradutores, cientes da Ateniense eufonia, se terão sentido tentados a atingir uma fluência à altura da perfeição clássica. Mas como a “Metafísica” nunca foi obra de arte literária, como o eram os diálogos de Platão ou seriam os diálogos perdidos do próprio Aristóteles, mas antes texto de estudo, compacta exposição didáctica, científica e filosófica, o seu estilo não convive bem com as tentativas de gongorismo dos académicos. E quanto mais difícil se torna a compreensão dos filosofemas de Aristóteles, mais o estilo é redundante, a disfarçar... A “Metafísica” dos vulgares cânones universitários não goza de autoridade por ser verídica, mas por ser fatídica. Irremediávelmente afastados, assim parece, dos Helenos, da realidade da sua natureza e do espírito que os inspirava, aceitamos o fado, complacentes e conformados: não se consegue fazer melhor... Boas exegeses da “Metafísica”, que as há, não são traduções propriamente ditas, mas ensaios e excertos interpretativos de filósofos que ao longo dos séculos foram interpretando a obra do Estagirita. Embora eu esteja convencido desta lastimosa situação, porque encontro nos textos da “Metafísica” que vou lendo frequentes exemplos de tradução assente em seguros e superficiais consensos, sem risco nem rasgo, não me move o intento de a alterar, mas sim a simples curiosidade perante um Aristóteles que fala uma voz que, por vezes, se torna perfeitamente audível. É então que, por entre parágrafos de aceitável, esforçada e erudita tradução, encontro súbitos eclipses totais ou parciais de laconismo e eufonia, parágrafos inteiros onde impera confusa verborreia e vejo totalmente falhada a compreensão do falar original do Filósofo. Dou agora este exemplo, à sorte, de entre muitos outros: Met. Liv III, 995 a - 24ἀνάγκη πρὸς τὴν ἐπιζητουμένην ἐπιστήμην ἐπελθεῖν ἡμ ᾶςπρ ῶτονπερ ὶὧν ἀπορ ῆσαιδε ῖπρῶτον-traduções académicas (em inglês e português):“It is necessary, with a view to the science which we are investigating, that we first describe the questions which should first be discussed.”É necessário, tendo em vista a ciência que estamos investigando, que façamos em primeiro lugar a descrição das questões que primeiro devem ser discutidas. Ora eu leio: “É inevitável, para procurar o crível, que eu avance primeiro para os princípios ligados às aporias.” Por esta mínima amostra se perceberá, desde logo, a óbvia impossibilidade de conciliar a minha leitura e audição com qualquer tradução homologada nas universíadas da erudição! Vale a pena avançar com mais umas linhas deste parágrafo, não só por este texto ter muito a ver com a minha conjectura sobre a não iniciação de Aristóteles nos mistérios Pitagóricos, como também para que fique claro como, quer no tratamento de algumas palavras fulcrais, quer em frases ou partes mais longas de texto, as diferenças de tradução podem ser abissais e conducentes a filosofemas completamente diversos. Acontece que nos parágrafos agora em apreço a palavra crucial é “aporia”; e, com espanto, verifico que a tradução universitária liminarmente banaliza, ignora e desdenha essa palavra, apesar de, nestas escassas linhas, ela aparecer em profusas e fecundas flexões – aporia, euporia, diaporia e três formas verbais de sentido convergente e contrário, aporeo, euporeo e paraeporeo! Contudo, na minha interpretação esta palavra tem um significado determinante! E se não tivesse, como explicar a sua tão frequente incidência (e igualmente frequente ausência nas traduções académicas...) e variadas flexões, tanto neste como noutros parágrafos de textos Aristotélicos e Platónicos? Aporias, no sentido interno da tradição Pitagórica desenvolvida na Academia de Platão, são exercícios de finalidade iniciática, que se destinam a paralizar o fluxo discursivo num “casulo” de inteligibilidade contemplativa, onde a visão noética ( perdoe-se o pleonasmo...) desperta e a enteléquia pode, então, desenvolver os seus sensos paranormais. Afinal, o verbo aphoreo, ou aporeo, significa como que não olhar... para ver! Met. (cont) ταῦ τα δ᾽ ἐστὶ νὅσατε περὶ αὐ τῶ νἄλλωςὑ πειλήφασί τινες, κἂ ν εἴ τι χωρὶς τούτων τυγχάνει παρεωραμένον. ἔ στι δὲ τοῖ ς εὐ πορῆ σαι βουλομένοις προ ὔ ργου τὸ διαπορῆ σαι καλῶ ς: tradução académica (só o português): “Estas consistem em todas as divergentes perspectivas que são mantidas àcerca dos primeiros princípios, e também qualquer outra, além destas, que aconteça ter sido esquecida.” A minha tradução: “Estes (princípios) são os que tanto suportam o mesmo como o outro e apesar de cada um, por si, poder surgir a dado momento como se fosse abrir, desejando prover a passagem, para tudo se ultrapassar até ao belo.” |
Met. (cont) ἡγὰ ρ ὕστερον εὐπορία λύσις τῶν πρότερον ἀ πορουμένωνἐ στί, λύειν δ᾽ οὐκ ἔστιν ἀ γνοοῦ ντας τὸ νδεσμόν, ἀ λλ᾽ἡ τῆς διανοίας ἀ πορία δηλοῖ τοῦ το περὶ τοῦ πράγματος: Tradução académica: “Ora, para aqueles que desejam livrar-se de perplexidades é um bom plano penetrar neles profundamente, pois a subsequente certeza faz desaparecer as prévias perplexidades, e esse desaparecimento é impossível se não conhecermos o nó. A perplexidade da mente mostra que há um nó no assunto.” A minha tradução: “Eis o que, depois da passagem, nos purifica da anterior aporia; purificar que não é passar a ignorar as grilhetas, mas sim “ver” (dianóia) a aporia mostrar-se em sua concreta realidade.” Met. (cont) ᾗγ ὰρ ἀπορεῖ , ταύτῃ παραπλήσιον πέπονθε το ῖς δεδεμένοις: ἀδύνατον γ ὰρἀ μφοτέρως προελθε ῖνεἰ ς τὸ πρόσθεν Tradução académica: “Pois essa perplexidade é uma condição que muito se assemelha a homens aprisionados; em ambos os casos é impossível o progresso.” A minha tradução: “Aporia que se assemelha a estar sujeito a grilhetas, sendo impossível suportá-la ou evitá-la.” Creio que este exemplo deixa patente o que disse acima! Mostra-se totalmente perdido o sentido de certas asserções de Aristóteles... Aqui, é o caso da teoria aporética, que o Filósofo ainda tentou manter no Liceu e passar aos discípulos, transmitindo-lhes, senão a energética, pelo menos a lógica ou memória discursiva dos processos que tão perto de si, durante anos, na Academia se desenrolaram. Mas o facto é que também o próprio Aristóteles, o mais genial dos discípulos de Platão, foi sendo, por causas diversas, umas conhecidas e outras desconhecidas, paulatinamente afastado do convívio e dos ritos que, na Academia, preparavam os melhores dos seus membros para a inciação nos segredos pitagóricos. Assim conjecturo, claro. O que se passou? Aristóteles chega à Academia com dezassete anos, no ano em que Platão se deslocara pela segunda vez a Siracusa, onde mais uma vez convive com os ritos da Escola. Pouco tempo foi necessário para que o jovem Ateniense Seusipo, que tanto desejava suceder a Platão na direcção da Academia, percebesse que estava ali, naquele jovem recém-chegado de Estagira, o seu único concorrente sério a essa sucessão. Fazendo-se então amigo do jovem, foi astutamente afastando-o, invocando a sua condição de estrangeiro ou estranho àquelas práticas de antepassados tribais e de mistérios envoltos no tempo mítico, dos vínculos sacrificiais e dos esotéricos simpósios em que o coração dos discípulos se preparava para os voos sóficos que, em Atenas como em muitas outras cidades, uniam e identificavam em fraternal escol todos os Pitagóricos, ou “filósofos”. Aristóteles, quando Platão chegou, era já, graças à presença disfarçada mas insistentemente inibidora de Seusipo, um “estranho” entre pares; era conhecido como alguém que, embora muito dotado intelectualmente, era pouco amigo da música e dos números e se afastava, incomodado, das sessões de prática experiencial aporética e das sublimes e culminantes passagens, ou diaporias. Á genialidade intelectual de Aristóteles bastou-lhe, todavia, uma frequência assídua, mas superficial, da Academia e o convívio com o próprio Platão para ver, ou idear, o Organon. No entanto, constata-se que Aristóteles espraia o seu pensamento num categorial mais diminuto que o da tradição Pitagórica e de seu mestre Platão. È um categorial que queda entre as estesias e as enteléquias, já que Aristóteles, por não ter sido sujeito, no tempo certo, à inciação na noese das Ideias e nos processos de metempsicose, não usufruiu da evidência que lhe teria aberto a intimidade à infinitude transcendental, não beneficiou, enfim, das ordenações de Delfos e da maiêutica tímica. Naturalmente desgostoso, aliás, com essa tradição esotérica ancestral que Seusipo lhe envenenara subtilmente com as suas hábeis manipulações da consanguinidade e da memória tribal, Aristóteles decidirá, já no Liceu, rever toda a sabedoria dos que o antecederam à luz estrita do que ficara patente e registado em tópicos exotéricos, e assim o vem a ensinar aos seus próprios discípulos. A poderosa didáctica dos Peripatéticos desenvolve-se, consequentemente, apenas nos modos pístico e gnósico, desenvolvendo as artes ou técnicas que já vinham até à Àgora e eram do foro público; essa didáctica é excelsa nesses modos, mas apenas indica, não inclui nem conduz ao superno modo sófico, o modo cuja fonte e caudal tinham sido os temidos mistérios das mais antigas tradições, que em lenta, penosa mas gradual derrocada, cedia perante a legislação e os novos costumes da bolé. Não verte, por isso, para a obra de mestres e estudantes do Liceu um fundo traço ou apego à memória das antigas seitas e seus ritos. Nesse âmbito, nada aí se inscreve, tudo apenas se descreve. Passados muitos anos de Academia e falecendo Platão, afastou-se Aristóteles para a cidade de Asos, uma vez que Seusipo, finalmente a dirigir a Academia, lhe teria assegurado que nunca seria esquecida, em Atenas, a sua condição de Macedónio... Os tempos eram mais agrestes, agora que o crescente poder de Filipe gerava suspeitas e agressividade para com os estrangeiros. Desprovido dos laços de interna lealdade que uniam os platónicos e pitagóricos iniciados e os protegiam das armadilhas políticas e das invejas rasteiras dos inimigos da Academia, os despeitados sofistas e políticos que Sócrates e Platão tinham combatido e desprestigiado, Aristóteles abandona Atenas. Já depois de ter desempenhado a tarefa de preceptor de Alexandre, Aristóteles regressa a Atenas, ao tomar conhecimento da morte de Seusipo. Julgaria Aristóteles, porventura, que o valor da sua obra lhe permitiria, agora, ser recebido como novo Mestre da Academia? Uma vez mais, porém, prevaleceram os vínculos de sangue e de entusiamo 1 e o Estagirita foi preterido por Xenócrates. Assim se decidiu Aristóteles, definitivamente, a fundar o Liceu. Era o ano 334 A.C., cinquenta e cinco anos depois da execução da pena de morte a Sócrates, 13 anos depois da morte do seu mestre, Platão. Lisboa, 10 de Maio de 2010 1-Como deixei dito aqui (Sentimentologia IV), entusiasmo é o sentimento de euforia que cresce na participação iniciática e sacrificial. regressar a página anterior |