O Aristotélico insubstantedo platónico Marinho - IVO Aristotelismo de Álvaro Ribeiro“A diligência mental ofende quantos pretendem ficar para sempre adormecidos” Álvaro Ribeiro, “Estudos Gerais”, Proémio. O aristotelismo de Álvaro RibeiroMuitos dos que conviveram com Álvaro Ribeiro deixaram testemunhos que o classificam como sendo um “aristotélico”. Muitos outros, que o não conheceram pessoalmente mas leram as suas obras, concordam com esta classificação. Embora agrupados nesta concordância, todos estes comentadores do pensamento alvarino devem ser separados em dois grupos distintos: porque uns, fazem tal referência como um elogio, outros, consideram esse “aristotelismo” a evidência do anacronismo e irrelevància do filosofar do ilustre autor de “Estudos Gerais”. No primeiro grupo, o dos que não vêem o Aristotelismo de Álvaro como um demérito, se inclui, certamente, Luís Furtado, que um dia me disse: “Para mim, a grande referência aristotélica de Álvaro foi Maimónides, de que estudou profundamente a obra. O aristotelismo de Álvaro é o de Maimónides”. Aos que julgarem esta opinião surpreendente, ou até errada, sugiro que não a recusem liminarmente e se lembrem que Luís Furtado assenta a sua opinião não apenas na sua reconhecida perspicácia filosófica mas também num convívio pessoal de decénios com este seu mestre portuense. Quanto a mim, esta original observação de Furtado fez logo algum sentido, ao recordar-me uma “inexactidão” do aristotelismo de Álvaro Ribeiro, que já várias vezes me tinha saltado à vista e que, com essa perspectiva, talvez pudesse ficar esclarecida... Decidi então alinhar os vestígios e seguir a pista. Porquê Maimónides?Passo então a explicar a “inexactidão” que referi no parágrafo anterior: acontece que Álvaro Ribeiro menciona várias vezes, nos seus textos, os processos “gnósicos, sóficos e písticos”1, ou seja, a hierarquia ascendente das “estações” do saber na forma clássica da tríade, tão cultivada por Álvaro. Mas um leitor dos filósofos de Atenas terá de estranhar esta sequência, que não é de matriz verdadeiramente Helénica! Como é sabido, para os Gregos a “pistis” é a confiança que o orador consegue, ou não, conquistar aos que o ouvem discursar na Ágora, e é o próprio Aristóteles quem magistralmente estabelece e descreve a transição da pistis retórica, a credibilidade do mais simples patamar do saber – o discurso político ou juridico - para a “episteme” ou conhecimento científico, e a certeza apodítica dos silogismos a que este conhecimento fornece as premissas. Desta “episteme” se abrem os processos gnósicos, a ideação dos primeiros princípios e causas, e desta noética contemplativa se inicia a anamnése que potencia o processo sófico, um saber culminante que Aristóteles não desvela. Num outro texto desta série (veja aqui) adiantei a minha conjectura para explicar a ausência, nos textos atribuidos a Aristóteles, da exposição dos processos anamnésicos que a escola Pitagórica mantivera na cultura grega, Sócrates praticara e Platão recriara na Academia. Conjecturei então que Aristóteles, apesar de ter frequentado a Academia, não foi sujeito à iniciação pitagórica ou órfica. Sendo óbvio que, na sua obra, Aristóteles nunca se refere directamente a essa tradição esotérica e, pelo contrário, analisa e comenta o saber pitagórico num quadro meramente racionalista, reduzindo a tópicos de lógica o que era, antes do mais, uma escala sófica, tudo o que o “aristotelismo académjco” nos apresenta como causa ou explicação para tal forma de inteligir o Pitagorismo por parte de Aristóteles é uma falsa e superficial oposição entre este e o seu mestre Platão. Ora, nos textos que temos do Estagirita, é um facto que todos os tópicos são abordados pelo Filósofo com manifesta sinceridade, numa intencional atitude expositiva e didáctica, sem qualquer intuito críptico. Portanto, se tivesse sido iniciado nos processos anamnésicos, se tivesse percorrido os passos do saber pitagórico, por que motivo não faria referência aos mesmos e não os passaria aos seus discípulos? A tradição sófica dos Pitagóricos, no entanto, está bem implícita na obra de seu mestre Platão... A tradição semitaÈ a tradição semita, mais concretamente judeo-cristã-islâmica, que veicula uma nova fonte do saber, a fé! Este vínculo com o divino alimenta-se da própria benção ou Palavra Divina, e passa a entender-se como a participação humana numa relação amorosa entre Criador e Criatura. É esta fé, depois de milénios de incubação na restrita tradição profética de uma prole nómada que se converte em Povo Eleito, que adquire uma dinâmica universal, com a expansão do Cristianismo, e se apodera num ápice da palavra "pistis", passando a ser a sua nova essência. Isto aconteceu logo nos primeiríssimos passos do Cristianismo; prova indiscutível disso está nas primeiras frases do Evangelho de João, flamejante reabertura das portas do Paraíso, que não resisto a reproduzir de seguida, no grego original, no latim da Vulgata, e em tradução livre, e em que o étimo "pistis", pela primeira vez, é revitalizado e redirecionado para um novo e sublime sentido: ΕΝ ΑΡΧΗ ἦν ὁ λόγος καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος IN PRINCIPIO erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum AO PRINCÍPIO era o logos e o logos era em Deus e Deus era o logos Ο ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν hoc erat in principio apud Deum Tal era, ao princípio, o que estava em Deus1 πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν. omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est tudo, de Si Mesmo, veio a ser; se outro de Si, nada do que é, seria. ὃ γέγονεν ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων: in ipso vita erat et vita erat lux hominum Nele estava a vida e a vida era a luz dos humanos; καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει καὶ ἡ σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβεν et lux in tenebris lucet et tenebrae eam comprehenderunt e a luz luziu nas trevas, e as trevas não a encobriram Ἐγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ ὄνομα αὐτῷ Ἰωάνης fuit homo missus a Deo cui nomen erat Iohannes Um humano vem a ser, apóstolo (enviado) de Deus, nomeado mensageiro (de nome João) οὗτος ἦλθενεἰς μαρτυρίαν ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός ἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι᾽αὐτοῦ hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum e que veio mártir (testemunha); do seu martírio (testemunho) ácerca da luz a todos, através dele, chegou a fé (pisteusousin) |
Já com esse novo sentido ascensional, da crença á fé, a “pistis” é invocada, amiúde, na Patrística, que tanto marcou os primeiros séculos da Era Cristã, e logo depois, no século VI, com o Pseudo-Dinis, suposto discípulo de S. Paulo e o ressurgimento do Neo-platonismo, ganha novo fôlego! Afinal, tratava-se de assinalar, de registar nos anais da História Humana um extraordinário acontecimento, que
não parecia constar da antiga sabedoria pagã: vindo, no início, com a presença de um Salvador, o Espírito alastra em epifania, uma
evidência do sobrenatural semeada aos quatros ventos pelos caminhantes que impõem as mãos e partem o Pão! Cumprindo uma incumbênciaComeçou esta série de textos na referência à admoestação alvarina aos tradutores que traduzem “fisicamente” por “naturalmente”, erro sempre presente na primeira frase da Metafísica, consagrado de há muito pelos tradutores universitários. Entretanto, outros tópicos vieram à baila, directa ou indirectamente relacionados com este tema. Mas agora chegou a ocasião certa para avançar com a minha tradução de todo o primeiro parágrafo da “Metafísica”. Será este o tema do próximo texto da série, o quinto, cumprindo assim a tarefa de propôr, sem rodeios, traduções alternativas a esse “Aristotelismo” académico e universitário. Como já disse antes, o meu intento é tentar recordar o vero Aristóteles. Lisboa, 30 de Dezembro de 2010 1 Por exemplo, em “Apologia e Filosofia”, Guimarães Editores, pag. 45: "A expressão filosófica não pode evitar o recurso a palavras que, por significarem superiores processos gnósicos, sóficos e písticos, nunca aparecem na linguagem vulgar e raro figuram nos escritos literários." E na pag. 46: " ...estudar as suas três ciências fundamentais. teologia, antropologia e cosmologia. Cada uma destas ciências, além dos processos comuns, estudados no trivium, requer específicos processos gnósicos, sóficos e písticos." E na pag. 76, quando diz:”Não é, porém, conveniente separar o sentimento do pensamento, em especial quando se estude história da filosofia, nem cair no erro de que é possível fazer análise puramente literal ou literária dos textos, porque ás categorias lexicais não correspondem as categorias lógicas, sabido que entre umas e outras se escalam os processos gnósicos, sóficos e písticos.” Ou ainda, em "Estudos Gerais", Guimarães Editores, pág.124: "Em vez da relação entitativa e existentiva de uma ontologia subordinada ao tempo e ao espaço, o pensamento tradicional postula uma interpretação lógica, nos seus modos gnósicos, sóficos e písticos, do intermediário entre o homem e Deus." 2 Estudos Gerais, Guimarães Editora. Pág. 172 3 Deixamos aqui, por ser facto curioso, a referência que António Quadros também faz a esta tríade de Álvaro Ribeiro, num texto sobre António Telmo, que pode ler na íntegra aqui . Mas como o leitor poderá reparar, confirma-se o ditado popular "foge-nos a boca para a verdade..." É que Quadros, mais apolíneo de pensamento que Álvaro, mais entusiasmado com o Platonismo que com o Aristotelismo, altera-lhe a sequência da tríade, a seu geito... Eis a citação:."Dizia Álvaro Ribeiro que a arte de filosofar (arte porque queria acentuar o papel da criação mental, da imaginação, da intuição e da indução) procurava o conhecimento pela tripla via gnósica, pística e sófica." Repõe Quadros a primazia do processo "sófico", denotando menos à-vontade com as Escrituras Sagradas, em que Álvaro Ribeiro culminou a sua cognitio fidei. |