
O Poder Mental e o Autismo
(tradução livre de J.S.Botelho)
Também você pode, ao que parece, atingir capacidades cerebrais
sobre-humanas. Bastará, para tal, desligar uma parte do cérebro. Soa estranho?
Rita Carter (autora de “Mapping the Mind”)
O Jaime consegue, em qualquer altura do
dia, dizer as horas, com uma precisão de minutos, sem olhar para o relógio. A
Luísa consegue medir qualquer objecto com uma acuidade de milímetros lançando
um simples olhar sobre o objecto. Já o Duarte fala fluentemente 24 línguas,
onde se incluem duas que ele próprio inventou. Extraordinário? Sem dúvida… Mas
esquisito? Não, nem por isso. De acordo com uma recente e controversa teoria,
você e eu poderíamos fazer o mesmo se, porventura, fossemos capazes de
interromper a nossa usual esperteza por alguns momentos.
O Jaime, a Luísa e o Duarte são o que se
designa por sábios autistas, pessoas que, embora podendo ter dez em certos
teste de inteligência, ou apresentar graves dificuldades de comunicação e
interacção com os outros, desenvolvem competências sobre-humanas em áreas
específicas, como a música, a arte ou a matemática.
Cerca de um em cada dez autistas tem um
qualquer talento realmente invulgar, mas os casos mais prodigiosos até agora
registados, desde que esta situação foi detectada, são cerca de cem. Muitos
deles são figuras públicas, dado que todos nós nos sentimos fascinados com os
seus talentos notáveis.
Ainda não existe uma conclusão
incontroversa sobre a causa e processos subjacentes a estes fenómenos. De entre
as várias hipóteses até agora aventadas destaca-se uma, recente, que afirma que
as competências destes sábios não são exclusivas e únicas, mas antes
capacidades latentes em todas as pessoas. Estas capacidades latentes podem, até,
ser estimuladas e reveladas através de algumas técnicas já existentes e
relativamente simples.
Os psicólogos que exploram esta teoria pensam que estas capacidades
resultam de processos cerebrais que ocorrem connosco, em qualquer altura, mas
que rapidamente são relegados para um segundo plano de inacção por outros
processos cognitivos mais sofisticados de conhecimento conceptual. È este plano
mais elevado de conhecimento que normalmente vai preencher a nossa consciência…
Quanto às capacidade demonstradas por aqueles sábios, que tratam de forma
rudimentar, embora eventualmente mais detalhada e intensa, a informação que
subjaz a esse plano conceptual mais elevado, elas são automaticamente remetidas
para o inconsciente.
Para os investigadores que desenvolvem
essa teoria, a maioria das pessoas avança do processo de tratamento detalhado
de todos os factos para a elaboração de sínteses ou conceitos significantes.
Quando o cérebro efectua essa transição, já não há forma de voltar atrás e
recuperar novamente os processos anteriores. A excepção é a de esses sábios que,
devido ao seu autismo, continuam a ter acesso a tais processos pré-conscientes.
Estudando os casos mais frequentes de
sobredotados para a matemática, e baseando-se em imagens cerebrais que revelam
a actividade inconsciente que ocorre no cérebro antes de um qualquer dado se
transformar numa percepção consciente, num pensamento ou numa emoção, estes
investigadores concluíram que, por exemplo, uma imagem visual que cai sobre a
retina leva cerca de um quarto de
segundo a atingir a mente como uma percepção consciente. Antes de chegar a
esse ponto de se constituir como uma percepção, essa imagem é desmembrada. Cada
um dos seus elementos – cor, forma, movimento, localização – é então
identificado separadamente nas áreas especializadas do cérebro para tal fim. De
seguida, esses elementos são combinados novamente num padrão que é enviado para
a zona cerebral que lhe atribui significado e o reconhece como uma percepção
consciente. Normalmente, nenhum de nós tem consciência de todo este processo, e
só tomamos conhecimento dessa imagem quando todo o processo detalhado de
identificar os seus elementos já foi concluído e a percepção está completamente
constituída.
Tal situação é perfeitamente compreensível
se tivermos em conta que é esta percepção significante que nos permite decidir e agir correctamente perante as
imagens que vamos percepcionando. Se vemos uma cara amiga, sorrimos, se vemos
uma cara desagradável, afastamo-nos… Portanto, os cérebros das pessoas normais
absorvem todos os pequenos detalhes, processam-nos e extraem um único conceito
útil, que se torna consciente pela percepção. Ora, segundo estes
investigadores, os sábios autistas não efectuam esta selecção ou síntese e,
portanto, eles percepcionam a imagem em todos os seus extraordinariamente
detalhados componentes.
Se esta teoria, de Snyder e Mitchell,
estiver correcta, será então possível às pessoas normais aprenderem a voltar
atrás um passo, para assim tomarem consciência, não apenas de uma versão
sintética e útil da impressão complexa original, mas sim de todos os
componentes dessa mesma impressão original, tal como o conseguem fazer estes
sábios autistas?
Quem responde afirmativamente a esta
pergunta é Niels Birbaumer, da Universidade de Tilbingen, na Alemanha, que
escreveu no New Scientist que seria possível aceder a processos cognitivos
pré-conscientes, facto que já ocorre com algumas pessoas não autistas que,
mesmo sem o saberem, conseguiram manter o acesso consciente a esses processos.
Birbaumer investigou o caso de um estudante com invulgares capacidades de
cálculo e verificou, pelo registo da sua actividade cerebral enquanto efectuava
os cálculos, que ele era capaz de evitar, enquanto calculava, a actividade da
zona cortical, que está associada ao pensamento conceptual e ás sínteses
perceptivas que se tornam conscientes. Deste modo, o seu cálculo era feito a um
nível cerebral mais baixo, que percepciona detalhadamente os dados elementares.
Esta teoria ainda encontra muitos cépticos
que não consideram possível que o processo mental dos sábios esteja presente,
embora escondido, em todas as pessoas. A teoria mais comum, pelo contrário,
afirma que os dotes extraordinários destes sábios resultam de uma capacidade
isolada e altamente desenvolvida que, muito provavelmente, é fruto da
actividade de uma área do cérebro também ela excepcionalmente desenvolvida. Nas
pessoas normais, que desenvolvem rapidamente a sua actividade cerebral no
sentido do chamado “processamento global” – extrair um significado sintético de
vários elementos ou impressões – essas áreas e respectivas capacidades não são
desenvolvidas e os detalhes concretos de cada percepção são descartados
sistematicamente.
Esta ideia de que áreas do cérebro mais desenvolvidas criam capacidades
excepcionais para a arte, ou a matemática, ou a música, ganhou alguns adeptos
quando se constatou que o cérebro de Einstein,
que está cuidadosamente preservado (New Scientist, 26/6/99) apresentava uma
área, normalmente associada ao cálculo matemático, excepcionalmente
desenvolvida e sem o seccionamento provocado pelos sulcos que, frequentemente,
estabelecem os limites dessas áreas funcionais. Perante esta constatação
torna-se tentador jogar com a possibilidade de que essa área do cérebro de
Einstein, ligada à matemática, tivesse “anexado” neurónios de áreas circundantes,
que normalmente estariam dedicados a outras funções, para assim fortalecer a
capacidade de cálculo e raciocínio matemáticos.
Mas esta teoria enfrenta uma
contrariedade… É que todas as áreas do cérebro sujeitas a actividade intensa
tendem a desenvolver-se, pelo que se torna muito difícil decidir se uma área
mais desenvolvida é a causa de actividade excepcional, ou o seu efeito.
No entanto, não parece impossível que
todas as crianças comecem por perceber o mundo de forma semelhante aos sábios.
Umas das incríveis capacidades que as crianças demonstram, logo aos dezoito
meses de idade, é a aprendizagem da fala (New
Scientist, 21 Agosto, p.36), que não é feita conscientemente. Elas
simplesmente aprendem a “saber” quando uma palavra termina e outra começa, tal como
outras crianças simplesmente “sabem” a raiz quadrada de um número com seis
dígitos. Já os adultos, ao aprenderem uma nova língua, têm de fazer um grande
esforço de aprendizagem, não lhes é suficiente imergirem na fala e, tal como as
crianças fazem, simplesmente aprender com essa prática. À medida que as
crianças crescem, é bem possível que se percam essas capacidades típicas dos
sábios, na medida em que se altera o processamento detalhado das impressões
elementares para uma percepção mais conceptualizada, cada vez mais sintética e
adaptada às necessidades da acção.
As imagens cerebrais de crianças
recém-nascidas mostram que a sua actividade mental se reduz à utilização de
zonas das quais, em adultos, não temos consciência, mas que registam informação
do exterior e reagem a ela provocando desejos, emoções e comportamentos
automáticos. No entanto, ao fim de alguns meses a criança já começa a utilizar
algumas áreas do córtex que estão associadas ao pensamento consciente e ás
percepções. Com o passar do tempo, cada vez mais informação é processada a
nível cortical.
Nas crianças autistas, porém, este
processo de passagem das áreas inconscientes para o córtex parece ser retardado
ou impedido, deixando assim intacto ou activo o processo elementar
pré-cortical. Há também registo de casos excepcionais de pessoas que
desenvolveram capacidades de sábio de forma surpreendente… Um rapaz de 9 anos
passou de estudante vulgar para um génio da mecânica após uma bala lhe ter
destruído uma parte do cérebro... O facto de o autismo e as capacidades
excepcionais de sábios serem seis vezes
mais frequentes em rapazes que em raparigas poderá dever-se à Testosterona, uma vez que esta inibe o
desenvolvimento do hemisfério cerebral esquerdo, inibição que é, durante certos
períodos do desenvolvimento fetal masculino, uma ocorrência normal, mas que
pode alargar-se excessivamente, provocando então um subdesenvolvimento do
hemisfério esquerdo e um hiper desenvolvimento do hemisfério direito, factores
associados ao autismo e às capacidades de sábios...
Esta teoria também parece ser corroborada
pelos casos em que, seja por acidente, como acima se referiu com o caso daquele
rapaz de 9 anos, seja por casos de demência, se verificou o surgimento de
capacidades de sábios em pessoas que sofreram destruição parcial do hemisfério
cerebral esquerdo, destruição essa que terá anulado a inibição que impedia a
utilização dessas capacidades. Bruce Miller, da Escola de Medicina de Los
Angeles, Universidade da Califórnia, relatou recentemente na revista Neurology,
nr 51, p. 978, que cinco pacientes seus desenvolveram extraordinárias
capacidade de desenho após terem sofrido lesões no hemisfério esquerdo
provocadas pela demência.
Entretanto, Snyder pensa que poderá testar
a sua teoria utilizando eléctrodos para acordar o inibido e inconsciente sábio
que, segundo ele, todos ocultamos no nosso cérebro. Bastará, através de
impulsos magnéticos, conseguir interferir com a actividade normal do cérebro,
de forma a “desligar” temporariamente a área cortical da conceptualização. Se a
teoria estiver correcta e o processo dos impulsos for eficaz na inibição da
área cortical então deverá assistir-se ao irromper na consciência dos processos
pré-conscientes dos sábios e… da nossa infância!