Nicolau de Cusa

 

    DOUTA IGNORÂNCIA

            [excertos da edição da Fundação Gulbenkian, Tradução de João Maria André]

Livro I, capítulo I

De como saber é ignorar

2.

Vemos que, por uma graça divina, há em todas as coisas um desejo natural de serem do melhor modo que lhes permite a sua condição natural, que agem em ordem a esse fim e dispõem dos instrumentos adequados. Entre estes, a capacidade de julgar corresponde ao objectivo de conhecer, para que não seja em vão a apetência e cada um possa atingir no amado o repouso da sua própria natureza. E se, por acaso, isso não é assim, deve-se necessariamente a qualquer acidente, como acontece com a doença, que falseia o gosto, ou com a opinião, que falseia a razão. É por isso que dizemos que um intelecto são e livre conhece a verdade, que insaciavelmente deseja atingir, explorando todas as coisas com um processo discursivo que lhe é inerente, e a apreende num amplexo amoroso, e não duvidamos que é sumamente verdadeiro aquilo de que nenhuma mente sã pode duvidar.

Mas todos os que investigam julgam o incerto, comparando-o, em termos proporcionais, com pressupostos certos. Toda a investigação é, pois, comparativa e recorre à proporção.

Assim, se o que se investiga pode ser comparado ao pressuposto através de uma pequena redução proporcional, o juízo de apreensão é fácil. Mas se temos necessidade de muitos passos intermédios, surgem a dificuldade e o cansaço: é o que se vê nas matemáticas, onde as primeiras proposições se reduzem facilmente aos primeiros princípios mais conhecidos, e as últimas mais dificilmente, porque isso não é possível senão por meio das primeiras.

3.

Assim, toda a investigação consiste numa proporção comparativa fácil ou difícil. É por isso que o infinito como  infinito, porque escapa a qualquer proporção, é desconhecido. A proporção, exprimindo simultaneamente acordo, por um lado, e alteridade, pelo outro, não pode ser entendida sem o número. O número inclui, pois, todas as coisas susceptíveis de proporção. Portanto, o número não está apenas no âmbito da quantidade, que cria proporção, mas em todas as coisas que, de qualquer modo, possam concordar ou diferir em substância ou em acidente. Talvez por isso, Pitágoras considerava que todas as coisas eram constituídas e entendidas pela força dos números.

---------------

( Aristóteles, Metafísica, Livro I, cap. 5, 986a)

 ta tôn arithmôn stoicheia tôn ontôn stoicheia pantôn hupelabon einai, kai ton holon ouranon harmonian einai kai arithmon

eles (os Pitagóricos) dizem que as séries dos números são o que sustém todas as séries dos entes e que todo o céu é (está em) harmonia e (com os) números.

phainontai dê kai houtoi ton arithmon nomizontes archên einai kai hôs hulên tois ousi kai hôs pathê te kai hexeis,

....parece que estes filósofos consideram que o número é princípio, quer como matéria dos seres, quer como constituindo as suas modificações e os seus estados.

---------------

4.

A precisão na combinação das coisas corpóreas e a adaptação exacta do conhecido ao desconhecido ultrapassam de tal maneira a razão humana que Sócrates considerava que nada sabia a não ser que ignorava e o sapientíssimo Salomão considerava que "todas as coisas são difíceis" e inexplicáveis pela linguagem. E um outro, inspirado pelo espírito divino, diz que a sabedoria e o lugar da inteligência se ocultam "aos olhos de todos os viventes".  Se é assim, como também o profundíssimo Aristóteles afirma na Filosofia Primeira que nas coisas mais manifestas por natureza deparamos com dificuldade semelhante à dos morcegos que tentam ver o sol, então, se o nosso desejo não é em vão, o que desejamos é saber que ignoramos. Se pudermos chegar plenamente a isso, atingiremos a douta ignorância. Com efeito, nenhum outro saber mais perfeito pode advir ao homem, mesmo ao mais estudioso, do que descobrir-se sumamente douto na sua ignorância, que lhe é própria, e será tanto mais douto quanto mais ignorante se souber. Com este fim me entreguei ao trabalho de escrever algumas poucas coisas sobre a douta ignorância.

 

Livro I, capítulo II

Esclarecimento preliminar do que se segue

5.

....Chamo máximo àquilo relativamente ao qual nada pode ser maior. Mas a plenitude convém ao uno. Por isso, a unidade, que é também a entidade, coincide com a maximidade, pois se uma tal unidade é desligada universalmente de qualquer referência e contracção, então, porque é a maximidade absoluta, é claro que nada se lhe opõe. Assim, o máximo é o uno absoluto, porque é tudo e nele [está] tudo porque é o máximo. E porque nada se lhe opõe, com ele coincide simultaneamente o mínimo. Por isso, ele está em tudo. E porque é absoluto, é então em acto todo o ser possível, nada contraindo das coisas, e todas dele derivando. Este máximo, que na fé de todos os povos se crê, sem dúvida, ser Deus, esforçar-me-ei no primeiro livro por o investigar de modo incompreensível, para lá da razão humana, tomando como guia "aquele que habita sozinho a luz inacessível".

....

8.

É necessário, no entanto, que aquele que quer atingir o sentido [do que vou dizer] eleve o intelecto para lá da força das palavras, mais do que insista nas propriedades dos vocábulos que não podem adaptar-se adequadamente a tão elevados mistérios intelectuais. Os exemplos que der, é necessário utilizá-los como guias, de modo transcendente, abandonando as coisas sensíveis, para que o leitor se eleve facilmente ao simples plano intelectual. Tentei abrir, o mais claramente que pude, a procura desta via aos espíritos comuns, evitando toda a dificuldade de estilo e mostrando directamente as raízes da douta ignorância na precisão inapreensível da verdade. 

voltar aos Autores