O ocaso do Reducionismo
(De vencedor a vencido?)
O Reducionismo tem a
sua reputação abalada porque sobre ele impende, actualmente, a séria acusação
de ter passado da simplicidade para o simplismo. Há fortes indícios de que o Reducionismo
descambou no uso abusivo e imperativo da simplicidade, como se esta fora um
sinónimo ou uma exigência da verdade.
No entanto, como é fácil constatar que o poder de uma explicação
convincente e luminosa reside, a maior parte das vezes, na sua simplicidade, a
simplicidade continua a manter o seu estatuto de relevante critério
metodológico.
Resiste, assim, às sevícias e maus-tratos dos que dela abusam e se
serviram, e servem, à exaustão… A simplicidade resiste aos que se querem
refugiar no(s) argumento(s) que todos os estúpidos
compreendem, para ganhar polémicas doutrinárias, mais ideológicas que
científicas. Resiste também aos que, nos meios académicos e de investigação
instituticional, elaboram projectos e programas “de investigação científica” rasteiros
e irrelevantes, ou tentam a manutenção de subsídios e bolsas elaborando peças
argumentativas pretensamente bem fundamentadas, mas essencialmente desprovidas
de verdadeiro talento e amor à verdade.
Entretanto, ao longo das últimas décadas, pode ler-se em
publicações especializadas que, cada vez com maior frequência, se tem chegado à
constatação de que o critério da simplificação pode ser irrelevante,
metodológicamente inoperante e, até, contraproducente. Na investigação de
muitos fenómenos intrinsecamente complexos e caóticos que a Física, a Biologia
e outras Ciências têm recentemente investigado, simplificar ou reduzir aos
elementos mais simples não dá respostas.
As mudanças da Física no séc. XX
Não será errado atribuir à Física um papel fundamental na
alteração dos padrões epistemológicos que começou a ocorrer em meados do século
XX, alteração que veio pôr em causa o Reducionismo e a Simplificação que lhe é
inerente...
Pode-se assinalar o ano de 1905, ( o annus mirabilis
de Einstein e da relatividade , que já referimos noutro escrito) como o ponto
de partida da Física para novas teorias que, gradualmente mas sem retorno,
deixaram para trás os pilares do paradigma Newtoniano, a que o Reducionismo se
achava íntimamente ligado...
Com a exaustão e posterior colapso desse paradigma, as novas teorias exigiram renovados métodos e programas de investigação. Entretanto, convém recordar que toda a Investigação Científica cresceu exponencialmente, também durante o século XX, quando se deu a intervenção interessada e o investimento massivo dos Estados mais ricos e avançados do Mundo. Este crescente interesse da Política na Ciência, baseado na máxima de que “Conhecer é Poder”, garantiu o financiamento de projectos, a formação de investigadores e a actividade de numerosas instituições e dispendiosos aparatos científicos.
Hoje, a cada dia que
passa, mais os investigadores nos revelam ordens extraordinariamente complexas
e incertas da realidade, e critérios muito diferentes de as qualificar. Essas
novas ordens de realidade derivaram, por um lado, da alteração de algumas das
constantes mais fundamentais, ou elementos absolutos, da estrutura gnoseológica
da Física… O caso porventura mais flagrante e fácilmente perceptível a um mero
curioso, foi o caso da passagem da constante do corpo imóvel e inerte, no
espaço e tempo infinitos e absolutos da Física Newtoniana para a constante da
velocidade da luz, num espaçotempo curvo e relativo a essa velocidade, dimensão
limite e fundamental da física da Relatividade. Por outro lado, essas novas
ordens de realidade sugeriram, ou exigiram, a concepção de novas escalas, que
implodiram a noção iluminista e moderna de “dimensão”; ocorre lembrar que, no
Renascimento, já tinham irrompido o macro e o microcosmos, com as suas
analogias escalares e os paradoxos da infinitude máxima e mínima, mas o
Empirismo e o Materialismo da Idade Moderna tinham-se dado ao trabalho de
unificar toda a Realidade no que é
mesurável ou perceptível pelos sentidos humanos. Esta atitude profiláctica, de
saneamento das fantasias e ilusões, de promoção da Certeza Científica e da
Razão, naturalmente resultou em desprimor da Fé Religiosa, do Saber Mágico, da
Ignorância Filosófica e da Imaginação.
Mas foram os sucessos
dessa mesma Ciência Certa, ao utilizar poderosos telescópios e não menos
poderosos microscópios, que foram alargando os limites dessa realidade
euclidiana de dimensão univoca. E esses limites foram empurrados até medidas ou
dimensões tão extraordináriamente pequenas, como a constante de Planck (10-30
cm), ou tão extraordinariamente grandes, como a distância de 15 mil milhões de
anos-luz, até ao presumível extremo do Cosmos, que permitiram invadir,
vislumbrar, percepcionar e perscrutar novas e fracturante realidades, seja a da
dimensão subatómica, seja a da multidimensional realidade galáctica e de
universos paralelos... E, aí, rezam as crónicas, caminha-se de surpresa em
surpresa, e as rupturas não param de acontecer…
Nessas fronteiras,
portanto, parecem ter nascido ordens de realidade do “lado de lá”, seja o que é
ou está do outro lado dos gigantescos buracos negros, ou anti-matéria, seja o
que é ou está do outro lado das minúsculas partículas com atributos de
ubiquidade, ou seja o que é ou está no “espaço virtual” da realidade
cibernética.
Desde os primórdios deste reabrir da Física à
multidimensionalidade que os mentores do Reducionismo tentaram manter-se intransigentes
em alguns dos seus pressupostos; Na época agitada e polémica dos finais do
século XIX, primórdios do século XX, viram-se alguns autores a acusar de
ilusórios (porque não evidentes aos sentidos…), os átomos; depois, foi negado o
éter, ou campo de propagação das ondas eletromagnéticas; depois, foram
ridicularizados alguns atributos dos quanta; enfim, com o andar dos tempos e o acumular de
derrotas, os Reducionistas aprenderam a conviver com tudo o que contraria o seu
simplismo, seja o cálculo de probabilidades, seja o princípio da incerteza,
seja a teoria do caos, e aceitaram que nem sempre a divisão dos problemas nos
seus termos mais simples é a via certa para o conhecimento, sendo até que essa
simplificação, por vezes, é simplesmente impossível uma vez que impede o estudo
e conhecimento directo dos compostos que acabou de separar... Quebrada assim
uma idealmente simples cadeia
universal e linear de causalidade, num espaçotempo tendencialmente circular,
senão até reversível, o Reducionismo deu-se por vencido e cedeu a primazia, na
montra dos métodos e das modas doutrinárias.
Perante este fracasso,
poder-se-ia pensar que o Reducionismo iria paulatinamente passar à História,
tal como já aconteceu a outras doutrinas e métodos, em passado longínquo ou
mais recente. Mas neste mundo posmodernista, que reconheceu as falhas e limitações
do Reducionismo, essa doutrina ainda vive, de boa saúde, em algumas propostas
bem recentes, e algumas de cariz filosófico e implicações até metafísicas...
A dialéctica do simples e do complexo
Parecerá, à primeira
vista, que a Filosofia, ao contrário das Ciências, depende demasiado de
complexidades, de sínteses de sofisticados argumentos e de teses mais ou menos
abstrusas, para poder servir de campo fértil à reabilitação do Reducionismo e
das virtudes da simplicidade…
Mas não se esqueçam os menos atentos que continua bem viva a linha
filosófica de raízes anglo-americanas que persiste na tese materialista e
reducionista, não já como proposta meramente epistemológica mas, de facto,
também ontológica. Trata-se de reformular a tese evolucionista saxónica, ou a
tese “behaviourista” americana, de que a consciência humana, e nela, ou com
ela, a inteligência ou quaisquer outras faculdades que compõem o todo mental,
são epifenómenos do corpo e do cérebro, naquela ascensão hierárquica de
causalidade a causalidade, do mais simples ao mais complexo, tão característica
do Reducionismo. Das partículas aos átomos, destes às moléculas, do magnetismo
à descarga dos neurónios, das sinapses às impressões, destas às imagens, das
imagens às metáforas, das metáforas ao pensamento e ao discurso. Sem falhas,
nem hiatos, sem enigmas nem mistérios.
Não se estranhe, porém, a resiliência das propostas materialistas
e reducionistas. A refutação indubitável
destas teses implicaria fazer-se a prova das teses axiomáticas contraditórias,
isto é, exigiria comprovar os princípios do Idealismo.
Ora, o que se tem feito é apenas, com base nas novas descobertas
da Física, levantar os problemas, os erros ou a incongruência de alguns pressupostos,
postulados e conclusões do Materialismo. E como nenhuma teoria se espera
perfeita e acabada, o Materialismo renasce a cada instante das suas próprias
cinzas, corrigindo, esquecendo ou ultrapassando esses erros e incongruências.
A refutação indubitável do Materialismo, e não apenas na
Metodologia ou na Ciência, mas também na Metafísica e na Ontologia e, porque
não, na Sociologia e na Política, ainda não foi feita. Mas talvez nunca o possa vir a ser, por uma
simples razão - dificilmente se comprova, nos termos restritos da causalidade repetível que são
exigidos pelo Reducionismo, o
contrário do Materialismo; ou seja, não há meio de provocar fenoménicamente a
ocorrência mesurável de pensamentos sem actividade cerebral, ou a presença de
seres vivos mas sem corpo, ou a existência de entes mais rápidos que a luz… Já
Aristóteles, que não era reducionista e até fora discípulo do Idealista Platão,
não deixou de afirmar que todos os entes são um composto de morphe e ulê, de
forma e matéria. Formas puras, ou matéria pura, dizia o Estagirita, não existem
no Universo Físico.
Assim sendo, não espanta que os defensores do Reducionismo
Materialista não desistam das suas teses! Afirmam, sem cansaço, que as suas
propostas básicas ainda não foram (e, como se disse acima, talvez nunca o
cheguem a ser…) devidamente refutadas nos termos em que eles mesmo exigem que
tais refutações sejam apresentadas…
Repete-se, aliás, esta atitude… Todos os que seguem convictamente
uma doutrina e, no fundo, não pretendem que seja feita a sua refutação, exigem
e estipulam determinadas condições de validade a essa refutação… Ora, muitas
vezes, são desde logo essas mesmas condições exigidas que tornam a refutação, à
partida, impossível!
Os casos são vários e fáceis de apresentar.
Por exemplo:
- os
ateus, para deixarem de o ser, exigem determinadas provas da existência de
Deus, provas essas que, desde logo, contrariam ou, até, contradizem, a própria
noção de Deus.
- Os Crentes, pelo seu
lado, para aceitarem que a sua Fé foi devidamente refutada, exigem que se prove
a existência do Universo sem um Criador, evento obviamente impossível de
produzir.
- Os Idealistas, para
passarem a Materialistas, pedem a prova da precedência da matéria sobre a
forma, ou a prova da existência de uma matéria que engendra e é causa
necessária e suficiente da Forma, embora não seja possível percepcionar a
“matéria pura”…
- os
Materialistas exigem, por seu lado, ver as Ideias Puras na ponta do bisturi.
Enfim…A vontade humana
rege os debates intelectuais ou, pelo menos, assim o parece, atendendo a estas
situações….
Portanto, talvez seja
melhor não perder tempo a pretender refutar o Reducionismo e os Reducionistas…
Mais vale que se agradeçam os contributos que eles continuem a prestar à
compreensão da natureza humana e da sua inserção na Vida, já que, persistindo
nos seus estudos, os Reducionistas vão surgindo com regularidade no palco das
obras filosóficas e científicas para nos apresentarem as suas renovadas teses e
perspectivas.
È sobre alguns tópicos de de uma dessas renovadas teses que este
escrito versa.
“Filosofia na Carne”,
sub-intitulada “A mente corpórea e o desafio que levanta ao Pensamento
Ocidental”, (Philosophy In the Flesh:The Embodied Mind and Its Challenge
to Western Thought, George Lakoff and Mark Johnson;New York: Basic
Books, 1999) é uma dessas novas obras. E pretende provar que o padrão milenar
do pensamento filosófico é a consequência de um simples facto: de sermos corpo.
Vinte anos depois
Vinte anos depois de
“As Metáforas que guiam a nossa vida” (Metaphors we live by), Lakoff e
Johnson mostram-nos por onde e como caminharam, em que novos temas trabalharam
e ampliaram as suas antigas teses sobre a natureza essencialmente metafórica da
linguagem e do discurso.
O modelo desse primeiro livro, que deixou marcas, é ampliado e
estruturado, tal como o são as suas teses básicas, as mesmas do anterior, agora
retomadas com renovado fulgor.
Relembremos: o pensamento abstracto não é a evidência de uma
faculdade “espiritual”, ou “ de um transcendental racional”, nem mesmo de uma
faculdade, algo enigmática nas suas origens, tipicamente humana, de formulação,
ou seja, de concepção, aprrensão, combinação e expressão das formas,
nomeadamente as formas lógico-matemáticas.
Idealistas, Espiritualistas ou até Materialistas envergonhados da
anglo-americana Filosofia Analítica, ou da Linguagem, assim como todos os
pos-modernistas e adeptos da New Age -
desenganem-se!!!…. Não é por haver Mecânica Quântica ou Teoria das Cordas que
os Materialistas puros e duros vão desistir da sua visão do Mundo…
O pensamento abstracto é, entendamo-nos, apenas a expressão
metafórica de uma experiência codificada em processos pré-verbais como o
caminhar, o ver, o ouvir, o mexer e sentir, o medir. Assim se faz, ao mesmo
tempo, duas coisas: por um lado, avança-se, contra os adversários que referi
acima, com mais um discurso, bem argumentado em seiscentas páginas, de teses
anti-transcendentalistas; mas também, e curiosamente, se elabora uma crítica
pesada à Filosofia Analítica que, apesar de cúmplice com o Reducionismo na
simplificação da inteligência na mente, e esta no cérebro, não larga a sua
condescência com uma racionalidade formalizante que, supostamente, a si mesma
se fundamenta, num axiomatismo ou formalismo total, ou completo, que homens
como Carnapp, membro do Círculo de Viena e cultor do Positivismo Lógico,
enxertaram na cultura universitária Americana, ao atravessarem o Atlântico
fugidos dos fragores da Segunda Guerra Mundial, e reencontrando, nessa Terra de
Oportunidades, novo fõlego para retomarem a reconstrução exaltante da dimensão
estritamente humana no Universo.
Não, não, diz Lakoff aos seus conterrâneos, a razão, meus amigos,
é corpórea.
Afirma “Filosofia na Carne”, sem rodeios, que foi no decurso da
evolução da espécie humana que obtivemos os conceitos básicos: de cor, de
espaço, de movimento, etc… Desses padrões básicos, transpostos para as zonas
corticais superiores do cérebro, gerámos as correspondentes metáforas, que são
os elementares conceitos que estão na génese dos raciocínios...
Curiosamente, apesar de partirem deste reducionismo que destrói o
significado da maior parte da filosofia Ocidental e reduz o transcendental à
mais completa das ilusões, os autores não levam esta sua visão da filosofia
corpórea ao limite da total desconstrução da linguagem e do pensamento,
enquanto sinais decadentes dessa ilusória transcendência existencial ou
essencial. Distinguem-se, assim, de autores descontrucionistas mais pessimistas
como Man ou Derrida.
Os autores também concluem que a filosofia analítica
Anglo-Americana continua assente num padrão figurativo e representativo que é
contraditório com a sua tese da origem instrumental da linguagem e do
pensamento, mas acham que é possível corrigir este erro com uma permanente
atenção e respeito pela evidência experimental. Em suma, Filosofia na Carne
adopta um cândido lugar mediador entre os analíticos e os pos-modernistas, num
optimismo que percorre toda a obra, começando logo na crença de que os padrões sensoriais
e motores, apodados de metáforas
primárias, podem “emigrar” para as áreas corticais superiores, onde se
transmutam em conceitos abstractos.
Claro, esta noção de um conhecimento enraizado nos processos
motoro-sensoriais, na experiência e vivência do corpo, exige uma postura
céptica quanto a conhecimentos ou saberes essenciais, universais e intemporais.
Longe vai já aquela Philosophia Perennis que, num quadro gnoseológico próprio e
englobante, tentava fazer a síntese final, ou talvez a ponte, entre a Religião
e a Ciência.
Mas esse é o caminho que traçou, desde o seu início, o veio
principal da Filosofia Norte-Americana, nas suas diversas versões e autores…
Insiste e persiste num materialismo reducionista, num racionalismo voluntarista
e cientificante, talvez porque a Academia,
reflectindo também a Nação que a
sustenta, esteja receosa de abandonar ou de fracturar excessivamente o conjunto
de fundamentos teóricos que lhe deram o domínio das Tecnologias, com as quais
produz o aparato científico-industrial-militar que garante a sua supremacia
mundial. Mas este juízo poderá ser considerado injusto por quem esteja atento à
capacidade de diálogo e de contraditório que fermenta e cresce quotidianamente
na cultura Norte-Americana. Tensões contrárias não são escondidas nem
reprimidas impunemente… Pelo contrário, parecem alimentar e fortalecer a
capacidade produtiva da Cultura Norte-Americana.
Não será de estranhar, portanto, que se mantenha vivo e se
prolongue no futuro próximo o já velho conflito que percorre e agita as mais
fundas bases dessa sociedade civil… De um lado, temos uma forte tradição
Cristã, reformadora e evangélica, reavivada com os seus novos profetas, como
Joseph Smith; do outro, a igualmente forte corrente ateia e materialista,
herdeira do Voluntarismo, do Positivismo e do Materialismo Europeus. O debate,
por vezes até assumindo formas violentas, vai percorrendo os vários temas em
que se contrariam estas duas correntes de opinião. Uma das expressões
presentes, e correntes, desse conflito é o debate e a luta política acesa sobre
os conteúdos educativos das Escolas
Públicas dos E.U.A… Assiste-se a uma guerra entre o Evolucionismo e o
Criacionismo. E como a maior parte das Escolas é gerida por Cidadãos, sem
predominar uma imposíção curricular definitiva do Governo Federal, o panorama
de vitórias e derrotas é muito diversificado.
Lakoff e Jonhson escreveram um livro sério. Mas é bastante
volumoso, o que requer um longo esforço de leitura. Os autores denotam uma
intensa recolha de informação, um trabalho notável e organizado, que merece
respeito e convoca todos os leitores, que queiram também ser interlocutores
neste debate, a um patamar de dedicação e esforço profissional que fará parecer
ridículas e imperdoáveis afirmações peremptórias ou meramente dógmaticas,
argumentos de improviso apressado ou de oportunismo leviano, ou a ligeireza
retórica de um senso comum mais atrevido que bem intencionado.
O livro exige uma leitura atenta, e só dentro de alguns anos
assentará toda a poeira que levantou. Até lá, e sem essa leitura ainda feita,
deixo aqui o aviso que este texto não pretende ser uma recensão dessa obra, mas
apenas uma colecção bastante despreocupada de alguns comentários que o livro me
sugeriu, na sequência da sua entrada no mercado.
Lakoff e Johnson querem fundamentar uma tese, ou um sonho, que
está na base de todas as doutrinas materialistas – que a consciência humana é
um epifenómeno, isto é, a consequência de um facto puro e duro, como tantos outros que, a cada momento, compõem
o fluxo ininterrupto da actividade dos neurónios cerebrais, tal como ela
aparece registada pelos sensores que captam os sinais electromagnéticos que
evidenciam, físicamente, essa actividade.
Para fundamentar essa tese, os autores de “Filosofia na Carne” têm
de tentar provar que a Lógica tem a sua origem elementar e simples em processos
dos sistemas sensoriais e motores, e se um nexo causal indubitável for
efectivamente estabelecido entre esse plano de ocorrências e os domínios do
racional, então estará certa a perspectiva metafórica da linguagem e a natureza
meramente figurativa e lúdica das palavras e seus conceitos.
Segundo “Filosofia na Carne”, entre o processo neurológico que
está na origem da percepção de “amarelo”, e a experiência subjectiva que um
qualquer sujeito terá de vivenciar para percepcionar o “amarelo”, não existe um
qualquer nível independente, um esteio próprio do fluxo de verdade desse conceito, (ou doutros…).
Ou seja, como sempre se faz em sistemas de raiz materialista,
nega-se a existência de Ideias; em Filosofia, porém, e como antes já referimos,
ao mencionar Aristóteles, sabemos que essa negação é uma tese tão antiga como a
sua contrária. Quando alguns Gregos afirmaram a existência de Ideias, já outros
preferiam negá-la e propôr, alternativamente, elementos como o Fogo para gerar
o movimento e as formas.
Um debate de sempre?
Sendo este debate, então, velho, no mínimo, de vinte séculos,
estaremos agora mais perto de uma conclusão sobre esse dilema, ao sermos
conduzidos pela escrita de Lakoff e Johnson?
Sem surpresas, (já que essa é, também, uma das atitudes
recorrentes da mais funda matriz filosófica anglo-americana…) Lakoff declara-se
um pragmatista; delimita a sua
metafísica ao exercício de uma universal
necessidade de conceptualizar. Conceptualizamos, sempre que tal é
necessário, para sobreviver!
“ O que denominamos
“real” é o que precisamos de criar, conceptualmente, a fim de atingirmos com
sucesso a sobrevivência; o nosso objectivo são os conhecimentos que nos
assegurem a compreensão das situações que nos rodeiam.”
É assim, diz Lakoff, que avançamos para o combate pela
sobrevivência- armados com esta capacidade que é tanto
fruto do engenho individual gerado pelo processo genético, como do longo
processo cultural em que somos educados. E, na medida em que temos sucesso e
vamos sobrevivendo, vamos continuando a repetir incessantemente esses mesmos
processos, o educativo e o genético, assim acumulando e aperfeiçoando
instrumentos e estratégias, num percurso milenar que concretiza a sequência
evolutiva das gerações.
É este valor pragmático das ideias que limita as consequências,
possivelmente negativas, pessimistas e destrutivas, do relativismo e do
cepticismo inerentes a “Filosofia na Carne”.
Um cepticismo
optimista
“Filosofia na Carne” preconiza um cepticismo optimista; por um lado, avança com uma nova versão da
máxima “O homem é a medida de todas as coisas”, que reduz a: “o corpo do homem
é a medida de todas as coisas”. Dificilmente poderíamos encontrar uma base mais
simples e redutora para o possível exercício do conhecimento… Mas ao realçar o
critério universal da “sobrevivência”, que a Teoria da Evolução eleva a axioma
máximo, como uma finalidade escatológica para a qual a verdade, os conceitos, os raciocínios, a moral, contribuem
positivamente, Lakoff afasta-se do cepticismo total, que retira qualquer
validade ou coerência ao conhecimento humano. A verdade, na sua origem, é
um produto da nossa actividade sensorial, motora e mental; mas impõe-se e
subsiste como critério cujo valor advém da sua eficácia em ajudar os seres
humanos a sobreviverem enquanto seres vivos no Planeta Terra. Tal verdade não é, portanto, uma função
arbitrária, incoerente, ilusória; antes possui um alto valor pragmático, mas é
uma verdade totalmente idiossincrática da espécie humana.
A Inteligência Universal, portanto, não existe! O diálogo com
alienígenas, que a cultura popular cinéfila difundiu em muitas versões, como no
filme Contacto, de Carl Sagan,
também ele um notável Reducionista Americano, torna-se impossível, ou altamente
improvável. Ficam também em causa os fundamentos da Inteligência Artificial, se
concebida esta como capaz de substituir ou replicar a Inteligência Humana. Fica
igualmente sem sentido a possibilidade desta Inteligência ser cedida a outras
espécies, de forma altruista.
Ao longo dos parágrafos da terceira secção do livro, Lakoff e
Jonhson tentam mapear todos os domínios conceptuais corpóreos onde começa e se
estabelece o elo metafórico dinâmico que estrutura os padrões de inferência de
onde produzimos até as mais abstractas especulações e transcendentais teses
filosóficas; percorrendo díspares períodos da história da Filosofia, desde os
Jónios a Platão e Aristóteles, passando por Descartes e Kant, esses parágrafos
são um consistente e sugestivo percurso hermenêutico, assente numa erudição
irrepreensível.
Mas não podemos deixar de levantar a dúvida: não estamos aqui,
novamente, perante o simplismo reducionista, no seu melhor, quando se afirma,
por exemplo, que o sistema Cartesiano pode ser mapeado a meia dúzia de metáforas
desenvolvidas a partir da visão…???
Por outro lado, embora queiram refutar a Filosofia Analítica e,
como tal, neguem que a estrutura do pensamento derive da estrutura da linguagem
– decerto uma das teses fundamentais dessa escola -
Lakoff e Jonhson acabam por confiar quase exclusivamente em elementos
linguísticos para elaborar as suas teses e respectivas peças probatórias.
Ironia do destino? Ao atacarem, de forma quase demolidora, a filosofia
analítica e formalista, que consideram, sem surpresas, como o oposto da “filosofia na carne”, ou o oposto do
saber gerado pela mente corpórea, os
autores vão zurzindo o porco… com o seu chouriço.
Mas que o livro é interessante, e que o debate multidisciplinar sobre
as raízes causais da actividade cognitiva e a inserção da mente no corpo irá
prosseguir de forma intensa, não tenho dúvidas… A vasta bibliografia disponível
sobre estes temas aí está para o provar, e não pára de crescer…
ofilosofo
Escrito a 7 de Setembro
de 2007