Gramática de Hermes IV
“Gosto de palavrar; as palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas”
Fernando Pessoa, “Livro do Desassocego”
“Imaginar é pensar o invisível – o insensível - de que temos notícia por algumas palavras que existem no nosso idioma.”
Álvaro Ribeiro, “A Arte de Filosofar”, Guimarães Editores, pag.89
A morte do verbo volir – II parte
Qual das teses é mais plausível?
Orlando Vitorino, na sua “Refutação da Filosofia Triunfante”, faz uma síntese das teses com que a Filosofia Nórdica constrói,
e depois institui, o primado da vontade sobre a inteligência, ou seja, o primado do agir sobre o ser (dos Gregos) ou o amar (dos Semitas).
Depois de alguns séculos de vigência, é só nas ultimas décadas do século XX que esse domínio da vontade, tendo já passado pelo seu paroxismo
com Nietzsche e percorrido também o seu crepúsculo com Heidegger, entra em estertor letal. Entretanto, as doutrinas voluntaristas que culminaram
nas ideologias novecentistas geraram regimes violentos e opressores, que provocaram verdadeiras hecatombes, nunca antes vistas na
História da Humanidade que conhecemos.
Orlando, cujo intuito era refutar algumas dessas teses da Filosofia Nórdica, afirma logo no início do seu livro algo que muito tem a ver
com o tema que, nesta excursão da Gramática de Hermes, temos estado a analisar... A afirmação de Orlando é composta da seguinte citação:
“a língua grega não possuía nenhuma palavra que designasse a vontade como função anímica específica”.
Quando, perante esta constatação, lembramos o voluntarismo quase omnipresente na tradição filosófica Germânica, fica-nos um fortíssimo
indício de que não é plausível a tese de Heidegger de que seria a língua Alemã a mais capaz de reavivar o filosofar da Grécia Clássica. Inversamente,
por ter ocorrido na nossa língua a morte de volir, ficou a inteligência e o filosofar dos Portugueses numa situação linguística
semelhante à dos Helenos!... E é essa evidência que pesa em favor da tese Orlandina, escandalosa para alguns e surpreendente para muitos, de que
é missão da Filosofia Portuguesa demonstrar a perenidade da Filosofia Clássica!
Os Gregos, diz Orlando Vitorino completando os primeiros parágrafos do seu livro, usavam dois verbos, etelein e boulestai, para
exprimirem a função anímica que veio a chamar-se vontade. A isto acrescenta Vitorino que “os tradutores sempre nos ofereceram o
divertido espectáculo dos seus curiosos esforços para introduzirem a palavra vontade nas versões modernas dos textos gregos, como
nos três tratados aristotélicos da ética acontece, até em títulos de capítulos”.
Orlando segue depois para outros temas. Na Gramática de Hermes, porém, algo mais há a ser dito sobre esses dois verbos, e em especial sobre
o segundo... Afinal, é dele que nasce o volo latino, o volir que nos faleceu e o bolir que nos ficou.
Ascensão e queda do voluntarismo da Filosofia Nórdica
Segundo Orlando, deve-se a Santo Agostinho e a Duns Escoto a primeira teorização e decisiva propositura do voluntarismo. E deve-se
a São Tomás de Aquino, na esteira dos sábios Muçulmanos que pontificaram na cultura Islâmica da Península Ibérica, a reformulação da teologia
Cristã fora dos quadros voluntaristas, sistematizada segundo a teologia implícita na Metafísica de Aristóteles, em que a Ideia de Deus não é
Poder nem Vontade, mas Perfeição e Imobilidade.
Trágicamente anulada pelo ardor bélico da Reconquista, a Convivência Ibérica não deixou na cultura europeia, para além dessa
reposição de textos e temas de filósofos Helénicos, as mais fundas raízes Islâmicas. Perdeu-se, consequentemente, a oportunidade para
a intervenção e a influência, que teria sido benéfica para equilibrar os excessos do voluntarismo, dessas vozes cuja matriz religiosa monoteísta
era partilhada com Judeus e Cristãos mas que, no cerne ou no cume do seu discurso, se afirmavam sempre bem cientes dos limites Humanos. Afinal,
como Muçulmanos que eram, professavam a religião que se chama, inequivocamente, Submissão, ou Islão. Submissão, óbviamente, ao Único Deus Omnipotente,
Complacente e Misericordioso, de quem o Islão vem revelar cem Nomes; e desses, aqueles que designam a Vontade Divina não se sobrepõem aos demais,
aos que designam outros dos seus atributos, como a Sua Clemência, Bondade, Sabedoria ou Absoluteidade...
Foi o Humanismo que, já no final da Idade Média, ao lançar as bases de um ressurgimento cultural na Europa, actuou como um catalisador
na exaltação dos seres Humanos. Essa exaltação derivava do reconhecimento, não só do estatuto que o Cristianismo atribui ao género humano de
dilectos e redimidos filhos de Deus, mas também do reconhecimento da notável recuperação dos fulgores da sabedoria antiga, da mais patente e da
mais secreta, e das suas brilhantes manifestações artísticas e intelectuais, afastando a humildade e a resignação inspiradas na visão do Apocalipse.
Verdadeiros filólogos, e até poliglotas, versados em Hebraico, Grego e Latim, como Erasmo de Roterdão, recuperam, estudam e traduzem
inúmeras obras da antiguidade que tanto deixam evidentes os barbarismos e insuficiências do Latim dos recatados mosteiros e conventos
medievais, como vêm estilhaçar a redoma protectora das Vulgatas e da Dogmática Católica.
A exaltação da Humanidade pelos Humanistas, tão aparentemente inócua e universalista nos seus primórdios, não resultou em menos que
uma reorientação da mentalidade da época do teocentrismo para o antropocentrismo. Este, apresentou-se com uma visão optimista, senão
mesmo vaidosa, dos talentos e virtudes inatas dos seres humanos, superiormente presididos e aplicados pela vontade, inspirada ou não pela Fé,
certamente iluminada pela Razão.
Mas ainda o Renascimento estava longe de esgotar todas as suas virtualidades e já a profunda cisão da Europa no fratricida conflito
entre Reforma e Contra-Reforma vem dar um golpe profundo e devastador nas esperanças dos Humanistas. Olhando para dois pares de figuras
representativas da época, que foram contemporâneas e até amigas, como Erasmo e Lutero, ou Pico della Mirandola e Savonarola, vendo como
cada um deles passou pela vida e o que cada um deixou gravado nos ventos da história, ressalta desde logo que é óbvia uma subida de tom
na passagem do discurso dos dois filósofos ao discurso dos dois pregadores; e não é no discurso daqueles, mas sim no acréscimo de ardor
do discurso destes que irão germinar as malignas e conflituosas sementes do fanatismo.
Convém aqui lembrar, no entanto, que Lutero e Savonarola, embora voluntariosos na sua acção, não foram mentores do voluntarismo que
a Filosofia Moderna preconizou a partir do teísmo, isto é, da doutrina de Deus “ex machina”, sem intervenção no mundo,
que abre caminho à exacerbação da Vontade Humana.
Ambos polemizaram nos quadros teologais da era Medieval, ambos beberam profundamente a influência de São Tomás de Aquino, dos
comentadores Àrabes de Aristóteles e dos Conimbricenses, que sujeitavam a Razão à Fé. E Lutero, com o seu inequívoco
“sole fides”, propõe-se reformar pela Fé, contra o Dogma; quanto a Savonarola, que alguns eruditos Alemães pretenderam ver como um
percursor e mártir da Reforma, é um crente cujo catolicismo arde naquela “furia heroica”, como lhe chamou Giordano Bruno, que só uma vontade
inspirada pela Fé pode protagonizar, uma vontade que se exerce pela escolha perseverante do exercício da virtude, numa convergência
da acção humana com o intuito do Criador.
Este período de guerras fratricidas, porém, lança gradualmente o desprestígio sobre aquela mútua fonte inspiradora, a Fé,
de que ambos os contendores se reclamavam; o conflito, evidência flagrantemente contrária a uma inspiração pacificante e unificadora,
destruíu a coerência da visão que atribuía à Fé a capacidade de orientar a Razão, de ser a causa primeira e o motor da unidade
doutrinal em que assentava a igreja universal, ou católica. A Fé, invocada com a mesma veemência pelos beligerantes de ambos os lados,
perde a sua natureza própria e degrada-se em álibi do fanatismo.
Não admira, pois, a posterior desconfiança do Racionalismo e das Luzes, que desterram definitivamente a fé medieval para o
Irracional; em sua substituição no papel orientador, colocam primeiro o "espírito da dúvida" e, depois, o "espírito
crítico".
Aqui começa a despontar a Filosofia Nórdica que vai firmar o primado da Vontade. Aqui se ergue e ganha peso a Humanidade que
deixa de adorar a Deus para se adorar a si mesma. Aqui se insinua, e depois se institui, uma impenitente e arrogante antropolatria.
Há já quase século e meio essa antropolatria foi questionada, e bem, por
Sampaio Bruno, que teve, no dizer de Afonso Botelho como “seu
primordial intuito abrir o panorama da filosofia portuguesa ao ritmo de
uma autêntica religião teórica”(1). Seguiu-lhe os passos Leonardo
Coimbra, e depois os seus discípulos e os discípulos destes, em obras
onde expuseram e lamentaram o esquecimento da luz do Divino e a
entronização da luz da Razão. No entanto, tal combate intelectual foi
insuficiente para contrariar o sucesso dessa antropolatria, que tinha
crescido imparável até à expressão de um voluntarismo extremo que, nos
termos usados por Orlando Vitorino, significou a “absolutização da
vontade”.
Solitária nessa guerra pelo Poder, nesse jogo de Nietzscheniana superação, a consciência humana acaba, todavia, paralisada; no termo
desse caminho vitorioso da vontade, em que deveria, conforme apregoado, superar todos os limites, mais não há, afinal, que
um vazio nihilista, cujo brilho, pálido e plácido, abranda mas nunca dilui a tristeza que sempre tolhe o coração sem timoneiro dos crentes,
desenganados crentes, da antropolatria.
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Orlando viu isto, e com generosa valentia, não se conformou. Daí ter escrito as suas “Refutação da Filosofia Triunfante”
e “Exaltação da Filosofia Derrotada” e ter possivelmente deixado no prelo uma anunciada síntese das teses da Filosofia
Portuguesa.Volir, um verbo categorial
O verbo volir é, na filosofia das línguas que o podem declinar, o verbo que aglutina os processos elementares do
agir com uma finalidade predeterminada e do decidir que determina essa finalidade. Só pode volir quem se reconhecer agente com o
poder íntimo suficiente para exercer esses processos.. Assim, volir aglutina, como faculdade, causa e motor, os processo psíquicos da decisão, os processos lógicos do juízo,
os processos sociais do fazer, os processos politicos do eleger, do legislar e do governar, o processo militar de comandar, o processo religioso de
obedecer ao mandamento ou aderir ao dogma. Todos os verbos que significam estes processos – decidir, julgar, fazer, decretar, legislar, mandar,
ordenar, obedecer - convergem em volir, como se este fosse o seu máximo género, o seu verbo categorial.
Na minha opinião, é deficiente a interpretação corrente de Aristóteles (2) e da sua doutrina das categorias, deficiência a que
devemos, hoje, o lamentável hábito de conceber as categorias apenas como substâncias ou substantivos; mas, em Aristóteles, as categorias
são preposições e conjunções, indicando, não classes ou conjuntos de coisas, cuja extensão implicitamente logo avaliamos, mas caminhos ou
respostas a interrogações. As categorias aristotélicas são como setas que, numa rotunda ou cruzamento, nos indicam qual o destino de cada saída.
Tendo isto em mente, será mais fácil entender o conceito agora aqui referido de “verbo categorial”, a que dedicarei uma próxima excursão
da Gramática de Hermes, onde serão identificados e analisados os verbos categóricos ou categoriais da Língua Portuguesa.
Ora, dependentes de volir, como se este fora o seu verbo categorial, todos esses verbos tão importantes na habitual vida em
sociedade ficam forçados a apelar à vontade, pois esta é o essenciativo
de volir. Cresce, assim, a vontade, exaltada e mascarada de essência transcendental, ou universal, subjugando e anulando os
essenciativos próprios e correspondentes a cada um desses outros verbos, quase parecendo um Zeus vitorioso gozando no Olimpo a sua supremacia
sobre as outras potestades.
Porém, quem pensa em Português, ou noutra língua Peninsular, mais dificilmente se deixará inebriar nessa exaltação, nessa mascarada...
E isto acontece porque a morte de volir é, Indubitavelmente, um obstáculo à adesão imediata ou automática a essa convergência, uma
porta que se fecha e funciona, efectivamente, como um símbolo e um lembrete, sempre subjacentes no nosso discurso, das limitações da vontade humana.
E quem melhor que o “o imperador da Língua Portuguesa” para nos mostrar um exemplo de como pressentimos essa trágica convergência?... Ouçamos o
Pe. António Vieira, Sermões 44:
“Vêdes vós todo aquelle bolir, vêdes todo aquelle andar, vêdes aquelle concorrer às praças e cruzar as ruas; vêdes aquelle subir
e descer as calçadas, vêdes aquelle entrar e sahir sem quietação, sem socego? Pois tudo aquillo é andarem buscando os homens como hão de comer, e
como se hão de comer.”
“Vedes vós?” pergunta de forma pungente Vieira, que o mero bolir, ou volir, dos humanos sós e entregues
ao seu fazer “sem quietação, sem socego”, os deixa privados da união fraternal e da convivência harmoniosa? E “vedes vós” que o
voluntarismo nunca lhos poderá prover???
É certo que há, entre voluntaristas Nórdicos, quem relembre que a vontade humana é frágil, se comparada com outros poderes. Mas, para um
voluntarista, a vontade tem tanto de frágil quanto de ambiciosa; por isso, não desiste de se transcendentalizar, procurando atingir a plenitude,
a totalidade. E quando se interroga quanto aos modos de alcançar essa meta, quando pretende libertar-se das peias ou incómodos de alguma relação
fragilizante com a concreta subjectividade, surge-lhe a resposta - o poder! Explicitando: a vontade aspira a um meio infalível
para a servir e, para tal, concebe o poder, que vai erigir em um fim em si mesmo, apesar da sua indeterminação parecer impedir que se
lhe possa atribuir, com um mínimo de rigor conceptual, o carácter de finalidade...
Ora, se perguntarmos: quem pode? A resposta será: pode quem sabe e quem tem força... Logo, um poder indeterminado e abstractamente concebido
como universal só pode ser força, já que o saber nunca é indeterminado. E a força, desapoiada do saber, mais não é que violência! Por esta razão
disse, no início, que todos os regimes assentes numa ideologia voluntarista acabam, mais tarde ou mais cedo, por serem regimes violentos.
O voluntarismo Português
Eu afirmei aqui
que o infinitivo de cada verbo é um dos pontos da recta que separa o móvel do imóvel, é um dos marcos da fronteira que distingue o físico do
metafísico. Ora, como disse acima, a morte de volir abre uma brecha nessa fronteira, brecha que tentámos colmatar com o verbo
querer. Ora o verbo querer, pelas suas particularidades idiomáticas, já abordadas na excursão anterior da Gramática
de Hermes, estranha e incompatibiliza-se com a forma exagerada como os Nórdicos entrelaçam a vontade com o poder - para tudo dar àquela, tudo
atribuem a este...
Orlando Vitorino pensa e descreve o longo trajecto que os Nórdicos percorreram, filosóficamente, para enaltecer a vontade, e como conduziram
o verbo “poder” ao trono, para o substantivar ou substanciar em Potência Infinita e Informe, um “Poder” que, como disse já, destrói ou
subjuga os outros deuses do panteão, e recebe os ámens, em uníssono, das aprumadas legiões de voluntaristas marchando no seu volir.
O mais recente capo do voluntarismo Português, Paulo Borges, que a pena astuta de Miguel Real aclamou (leia o artigo
aqui)
como o rei posto que sucede à rainha que Miguel Real deu por morta, a “Filosofia Portuguesa”, tanto se incomodou com o pensamento de
Orlando que, sem apelo nem agravo, o desterrou para o que, num comentário escrito num blog, sugestivamente designou pelas
“catacumbas”.
Esta reacção de Borges perante as teses de Orlando não é estranha... Atentemos que a
«Refutação da Filosofia Triunfante» guarda um
pequeno segredo, que sendo em si mesmo apenas um pequeno detalhe, é a marca d'água de um filosofar urdido em definitiva intransigência para
com o voluntarismo - filosofar que, naturalmente, se torna liminarmente insuportável para qualquer voluntarista...
Esse detalhe, que passo a indicar, é o seguinte: em todo o livro “Refutação da Filosofia Triunfante”, nunca Orlando
usou a palavra “poder”!
Deste modo, recusando e retirando totalmente da “Refutação” esta tão sedutora noção, cuja mágica luz encanta e faz voltear em
vertigem as mariposas voluntaristas irmanadas por tal brilho na euforia da volição, como não se sentiria incomodado Paulo Borges? Sem o fulgir
do prémio, sem o fim justificador dos meios, sem o meio capaz de tudo desafiar - em suma, sem o poder - para onde iria Borges desterrar
Orlando Vitorino, senão para a escura antecâmara a que estavam destinados os submissos catecúmenos?
Às Catacumbas, então! Façamos uma visita ao filósofo solitário e temerário, para com ele partilharmos a inquietação sábia que tão
poucos quiseram ou puderam entender.
Entretanto, por cima das catacumbas, no imponente Estádio, na luz crua da empolgante arena imperial, Borges e outros interlocutores
da dialéctica do Poder jogam aos gladiadores e, cada um à vez, fazem de César; e assim se prometem uns aos outros morrer e matar. Tudo pelo
Poder.
O voluntarismo de Borges e a morte de volir
Precavido, ou mesmo liberto, do encantamento do verbo volir, o voluntarista que pensa em Português, por estar confinado
ao querer, frequentemente verte e diverte os seus pensamentos e sentimentos para formas imaginativas e poéticas. Assim
ultrapassa, pela sua natureza ou naturalidade linguística, as peias do racionalismo e do pragmatismo, essas, sim, tão caras e naturais
ao Nórdico.
O à-vontade com que o faz só surpreenderá quem não perceba que esta é a mais sólida das consequências da morte do verbo
volir .
A este à-vontade (expressão idiomática que, também ela, irónicamente contraria o peso marcial da vontade nórdica) acresce a
força do pulsar do verbo “ir” que, na cultura Lusíada, é maior que a força do verbo “fazer”.
Este pulsar impele todo aquele que fala Português, mesmo aquele que na sua idiossincracia seja servo ou admirador da vontade, para
um forte anseio, não pela linear mutação que é possível e acessível à vontade e ao volir, e plenamente satisfaz os Nórdicos,
mas pela transmutação.
Nisso, nesse anseio pela viagem, nesse desejo pelo ir que transmuta, todo o Português, genéticamente, se assemelha...
Porém, enquanto que o português voluntarista se julga capaz – isto é, com poder – para alcançar por si próprio essa transmutação, os
outros sabem que têm de confiar em Deus.
Assim, inebriado e iludido pelo poder, o voluntarista Português acaba emaranhado nas tramas da filosofia Nórdica.
Mesmo apregoando loas aos tropos poéticos e conceptuais da Filosofia Atlântica que, no fundo, não chegou ainda a perceber, mesmo
tentando sublimar a sua própria acção, para fugir ao pragmatismo Nórdico, usando e abusando de hibridismos transcendentalizantes como a
“transpátria”, Paulo Borges mostra como um Português, sendo voluntarista, acaba entregando-se ao fazer, na convicção de que, nesse
esforço ininterrupto, chegará a dissolver os limites da sua individuação no cume de um Indeterminado - e, claro!, sem para tal ter de pedir
licença a ninguém, ou de se dispor à obediência... Bastará mero acto assertivo, bastará um mero volir!
Para Orlando Vitorino, afastar com estoicismo inquebrantável o néctar sedutor do "poder" - que tão aceitável seria num livro
como aquele, que é um texto sobre “a vontade” e “o voluntarismo” - foi como o exorcismo e a renúncia – como diriam os ascetas cristãos – que
antecederam e prepararam a epifania; no caso, a “Exaltação da Filosofia Derrotada".
Na catacumba, em escuridão, mas libertos das sombras que envolvem a urbe enlouquecida pelo seu próprio bolir, conversam
o Padre António Vieira e o nómada Orlando Vitorino. Entretanto, espreita já a estrela de alba, que nasce na noite do deserto e anuncia a dádiva
da aurora que se aproxima.
(Continua em A morte do verbo volir - III parte)
Março de 2011
(1) Afonso Botelho, "Teoria do Amor e da Morte", Fundação Lusíada, pág. 47
(2) Disse-o na série de textos subordinados ao título «O Aristotélico insubstante do Platónico Marinho».
Leia aqui o primeiro da série.
(1) Sobre o tema da interpretação deficiente da obra de Aristóteles escrevi os textos sob o título genérico “O insubstante aristotélico
do platónico Marinho”. Leia aqui.
regresso à pag. anterior
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