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HomoViator?
Nota:
Este é o texto de apresentação da «Homo Viator», escrito por Luis Furtado em Julho de 2011.
Esta tertúlia virtual pretende dar continuidade, e um novo espaço, a uma já longa convivência e diálogo
filosóficos, tradição tertuliar que acontece há mais de um século.
O que sustém esta tradição reconhece-se no que é dito pelos seus participantes; e o teor destas
conversas, pela sua própria natureza, congrega os que fisicamente já desapareceram, os que nela agora mesmo
falam de viva voz, e os que ainda estão para aparecer mas já foram chamados pelo seu silêncio.
E se o homem não viajasse? E se o homem estivesse sempre no mesmo lugar?
Mas o que é um lugar?
Um lugar é a nossa procura para além do mar que nos separa das ilhas
maravilhosas e, noutra dimensão, se quisermos ainda, do infinito, onde a
nossa alma finalmente repousa, na paz e na felicidade que lhe são
próprias.
O que é que nós pensamos? Pensamos no lugar... O lugar é a felicidade da
alma, é a consistência mínima de um estado ou de uma ilha na qual nós,
que somos todos viajantes de um infinito por haver, por fim podemos
repousar, exaustos talvez, mas podendo também considerarmo-nos felizes,
porque recebemos nesse momento todas as dádivas que a nossa alma
precisa.
Eu estou, de certo modo, caminhando. E aqui me sustenho. Mas, logo a
seguir, algo se altera em mim...
E interrogo-me: não estarei navegando, segundo uma nova realidade
emergente, que se me insinua? É que a Terra, aqui, estremece e se
fluidifica; a água, o elemento conjunto de todos os outros elementos,
ganha um novo significado - no fundo, é o Mar!
O que nos espera é, então, a navegação... Estamos na praia das nossas
sensações e, também, no limiar aberto das nossas emoções.... Sensações
que, um dia, mais tarde, seja quando for, a minha alma há-de constituir
como matriz, como se o meu corpo fosse todo feito para haver
sensibilidades que eu ainda mal entendo. E tudo se modifica, nessa orla
marítima em que o corpo se vai perdendo, em que outros sentimentos, que
às sensações substituem, mais fluidos ficam, mais nos envolvem.
Este é o sentido que eu quero dar a tudo aquilo que pensa, e que, no
pensamento, se move sobre as águas. Como que retorno aqui ao sentido
originário, e nos meus limites, na minha modéstia e insignificância,
tento reproduzi-los para afirmar a aurora de todos os caminhos que
principiam, de todo o tempo que se forma em espaço, de todo o movimento
que se assume e de toda a realidade que se plurifica nos seus elementos.
O Homem é realmente um viajante, e a simbólica lusíada tira daí todo o
seu significado e abrangência. Mas a dificuldade é que ela quer
comunicar-se a todos os seres plurais, ou seja, a todos os individuos,
que embora finjam posteriormente na História usufruir dela, não
conseguem participar na mesma comunhão de espírito.
A ida para o mar só pode pertencer a um homem ou a uma Nação!
Como referência, o Infante D. Henrique, com a sigla IDA...Que, aliás, com tanta mestria e
saber, o António Quadros, por exemplo, estuda com profundidade e mérito. A IDA pertence a ele, como timoneiro.
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Por isso, ele é o piloto, ele é o verdadeiro argonauta, aquele que os
esotéricos chamam “le nautonnier”, tal como é mencionado em certas
tradições antigas, agora supostamente reveladas...
E quantas vezes meditei na relação do Infante com os Descobrimentos... Ele, que nada
descobriu.... Todavia, através dele, tudo foi descoberto!
E muitas vezes eu senti que estaria talvez a profanar a memória desse homem extraordinário, ao
lembrar-me inadequadamente das memórias da minha descuidada juventude.
Ele, o verdadeiro Argonauta, aquele que liga o ser que somos à praia e ao mar, será
o verdadeiro capitão Nemo, o solitário, o austero, aquele que reúne em si, com sobriedade, o sentido
do impecável, mesmo ao desfrutar de todas as opulências dessa sua glória.
Ele, na ponta de Sagres, é verdadeiramente o “mobilis in mobile”, o
movente no pensamento, aquele que movidamente não se mexe, mas faz
refluir a si todo o horizonte da realidade que ao longe se nos afasta.
Dirão assim os maldosos: Isto é Júlio Verne... Mas isso não interessa!
Os momentos em que o nosso pensamento é verdadeiro não são aqueles em
que são escolhidos os testemunhos dos académicos, dos eruditos, ou das
competências, poéticas ou não, que a filosofia portuguesa tem à sua
volta... são antes aqueles em que nós sentimos que o navegar não é racional.
Olhem os ventos e as marés – o navegar é poesia dos ventos, dentro dos
ritmos do nosso espírito, aqueles que por Deus nos são concedidos, como Zodiacal que nos orienta
em busca da nossa Humanidade. O homem, como eu já disse, não sabemos quem é – iremos
recuperá-lo no firmamento da distância, dentro dos méritos que temos para o haver dessa grande imagem por Deus criada.
Não interessa que neste pequeno mundo nós estabeleçamos como que o teatro das nossas futuras
representatividades metafísicas. Por agora, por índole e inspiração própria, estamos a imitar a Grécia
e o sentido Grego daquilo que, por um lado, é a harmonia, dentro de um navegar de limites, como o de Ulisses,
e por outro, o sentido da superação, num navegar para o infinito.
A asa do infinito, como a asa de um anjo, logo a seguir a Deus, suporta o nosso Destino.
Ela está cheia das estrelas que nos apontam, segundo a bondade Divina, o nosso verdadeiro Oriente, que é
aquele que principia onde o Ocidente acaba.
Ao contrário da filosofia Alemã, e da mitologia Germânica, não há o
crepúsculo dos Deuses, egocêntrico e umbilical...
Há, sim, aquela frase de Pessoa – um Deus nasce, outros morrem! E é nessa dimensão que nós
procuramos todos os novos mundos a haver!
Luis Furtado
Miraflores, Julho de 2011