|
HomoViator?
Nota:
Este é o texto de apresentação da «Homo Viator», escrito por Luis Furtado em Julho de 2011.
Esta tertúlia virtual pretende dar continuidade, e um novo espaço, a uma já longa convivência e diálogo
filosóficos, tradição tertuliar que acontece há mais de um século.
O que sustém esta tradição reconhece-se no que é dito pelos seus participantes; e o teor destas
conversas, pela sua própria natureza, congrega os que fisicamente já desapareceram, os que nela agora mesmo
falam de viva voz, e os que ainda estão para aparecer mas já foram chamados pelo seu silêncio.
E se o homem não viajasse? E se o homem estivesse sempre no mesmo lugar?
Mas o que é um lugar?
Um lugar é a nossa procura para além do mar que nos separa das ilhas
maravilhosas e, noutra dimensão, se quisermos ainda, do infinito, onde a
nossa alma finalmente repousa, na paz e na felicidade que lhe são
próprias.
(nota: este é o texto original, ainda inédito, escrito para apresentar a revista
«Escola Formal», publicada em 1976. Este texto nunca veio a público, uma vez que Luis Furtado foi substituído na direcção da revista por
Orlando Vitorino e Afonso Botelho)
Sabedor do caminho percorrido por mais de vinte séculos de filosofia, poderá o leitor
considerar anacrónico o nome de Escola Formal que, originado na mais nobre tradição de pensamento, parece
querer animar as cinzas de uma época já morta. Essa possível atitude de reserva, filha da prudência
consciente ou da ignorância estulta, ponderada foi no nosso espírito.
Já desde António Sérgio, e de outros antes dele, que tem sido profundamente desdenhado o
Messianismo Português.
Este autor conseguia, na sua crença, confundir o messianismo com a expressão atrasada de uma cultura sem progresso.
Mas o que é o progresso? O progresso é apenas uma graduação no visível, que se substitui a uma graduação inteligível.
O progresso é apenas uma mentalidade actual, que tem os seus contornos e os seus limites dentro das exigências do racionalismo.
Urgente, nos tempos que vão correndo, a ideia de Pátria será, para os Portugueses divididos, a
mística união necessária, o sentido missional de um Destino ainda a cumprir entre os demais povos do mundo...
(...)
Estamos certos que todas as sociedades, por mais diferentes que sejam, na medida em que se apropriam da civilização
industrial terão cada vez mais dificuldade em reconhecer o pensamento e a cultura que as distingue, já que desenvolvem formas de produção
tendentes a uniformizar a sua vivência quotidiana.
O destino existencial dos povos, negociado no mercado comum das ideias e dos bens de consumo, parece pois
inelutávelmente depender das categorias de um materialismo económico que ideólogos proletários ou burgueses, embora em desacordo quanto à
metodologia, apontam como via necessária e promissora. Entre nós, políticos há que constantes provas dão desta espécie de patriotismo
quando se interrogam se Portugal é económicamente viável. Quando se aniquila o espírito, nada mais resta às Nações, como às empresas, senão
estabelecer nestes termos o seu direito à existência.
|
Textos de Luís Furtado
Voltar à 1ªPágina
Agora que estou à beira do mar Oceano, nesta praia da Lusitânia, pressinto a invocação de um outro
espaço que me transcende. Vai despertando o que está adormecido no
repouso antigo e consensual dos meus sentidos. Digamos que é um espaço
novo, em que a luz do Sol no horizonte do visível se prolonga.
Acordo lentamente no meu silêncio e ouço uma voz que é um murmúrio, em tempo e movimento, que desde o ritmo
das ondas vem até mim. E que ascende ao mar alto que é feito da substância dos meus antigos sonhos! Como me
prolongo, desde esta praia em que me encontro, com as ondas, ventos e marés até me reconhecer no
mais longinquo horizonte do meu imaginário!
Fala-se hoje de
Escola Formal?
(...) O que teria, então, sido essa outra Escola Formal? Isso é a questão que se coloca
hoje a todos aqueles que prosseguem, sem desfalecimento e, a maior parte das vezes, sem reconhecimento,
um modelo de entendimento que consiga ser transmitido a todos os que pensam sobre o ainda problema da filosofia portuguesa…
É que não é somente Aristóteles – uma lógica natural – nem uma lógica transcendental, de Kant que, no fundo,
é o mesmo que a lógica matemática do Lambert…
Trata-se, sim, daquele equilíbrio que se possa ter, dentro da condição natural do homem em relação aos mistérios humanos e,
também com o homem e através do homem, aos mistérios divinos. Mas, para isto, é necessário o nosso esforço. Não o esforço do
trabalho, nem tampouco o elogio do ócio, mas é e sempre será da ciência do equilíbrio consciente do homem com a sua própria
interioridade. Só aí podemos descobrir o que é verdadeiramente humano e a partir daí podemos continuar a nossa jornada
para o infinito daquilo que é a própria humanidade. Eu, parafraseando Aristóteles, sei o que é o Homem, mas não sei quem é o Homem.
|