Pico della Mirandola e os Manuscritos de Esdras

A extensíssima e atribulada história do Povo Judeu está em grande parte ligada a todos os eventos que permitiram escrever, coligir, copiar e transmitir de geração em geração o que genericamente chamamos de "Bíblia". É com óbvia propriedade, portanto, que os textos sagrados do Islão frequentemente se referem aos Judeus como o "Povo do Livro".

Esse Livro, ou Biblia ( livro, em grego, diz-se biblos, fonte de várias palavras portuguesas, como biblioteca ou bibliografia) não podia deixar de ser obra de esmagadora complexidade, com vários e diferentes tomos que espelham a sua origem milenar e o acréscimo sucessivo de novos conteúdos, durante os séculos em que foram acontecendo as revelações, os testemunhos e os eventos históricos nela relatados.

Naturalmente, estes textos estiveram sujeitos a inúmeras contingências e riscos.

Uma das mais célebres  tribulações, tanto do Povo Judeu como do seu LIvro, foi o celebérrimo "cativeiro da Babilónia", que se sucedeu à destruição do Templo de Salomão. Após setenta anos de cativeiro, o nome de Esdras surge como um dos que chefiou o regresso a Jerusalém dos cativos. Dado como autor do livro canónico  judaico Esdras-Nehemia, é noutros textos, já de origem cristã, que se avoluma a obra controversa de Esdras e o seu vulto de Profeta e sacerdote - havendo até quem admita a hipótese de terem sido duas pessoas distintas, com o mesmo nome. Estes textos, atribuídos ao Προφήτης Εσδρας (profeta Esdras), nos quais se inclui o seu notabilíssimo Apocalipse, Αποκάλυψις Εσδρας, são tidos por traduções gregas e latinas de originais em siríaco ou aramaico, mas alguns acabam por ser considerados apócrifos pelas próprias autoridades eclesiásticas cristãs.

Mas a importância de Esdras como profeta apocalíptico não ensombra o magnificente trabalho que realizou como recuperador dos textos da Torah e como instigador e incansável defensor da reposição da lei Moisaica, após o período negro do cativeiro. Esdras é, por isso, merecidamente exaltado na tradição rabínica, que também o considera responsável por ter iniciado a tradição dos escribas nos estudos talmúdicos... De facto, segundo rezam as crónicas, Esdras chegou a ter quarenta escribas a trabalhar debaixo das suas ordens, para recopiar e reescrever os textos que a destruição do Templo e o cativeiro tinham dispersado ou mesmo destruído.

Da descoberta sucessiva de textos, declarados canónicos uns, declarados apócrifos outros, foi crescendo a fama de Esdras. E Pico della Mirandola, que aprendera Hebreu com o seu mestre sefardita Elia del Medigo, encontrou durante o período das suas viagens um comerciante judeu a quem comprou um lote de cerca de 62 textos e fragmentos, alegadamente atribuído a Esdras.

 

 

   

Marcilio Ficino e Giovanni Pico, dois notáveis hermeneutas da filosofia Antiga, foram dos que, com a sua obra, contribuíram decisivamente para dar perfil a uma época que mereceu ser chamada de Renascimento. Não se limitaram, porém, a recuperar ou recriar um certo fulgor da cultura greco-romana, nem a devolver ao Grego e ao Latim a beleza de estilo, apagada pelos barbarismos que a Idade Média tinha consentido, senão mesmo vulgarizado; antes souberam, um e outro, alargar ao tempo mais ignoto os horizontes da inteligência humana, lançando verdadeiras flechas incandescentes na noite escura e ensombrada da era pré-diluviana. Marsilio foi encontrar em textos de Zoroastro e Hermes Trimergisto as mais remotas origens da tradição Pitagórica e Platónica. Por sua vez, Pico, como ficou dito acima, vai aprofundar as suas leituras da tradição cabalistica que, conforme reclamavam alguns dos rabis que a defendiam e cultivavam, tivera origem na transmissão oral da Torah Moisaica. Para Pico, a sabedoria cabalística tinha o selo da Revelação, guardava a chave da inconcebível Aliança do Criador com a Criatura; como tal, ela superava a origem pagã do saber de Caldeus e Egípcios que Ficino recuperara.

Ora o episódio da compra desses manuscritos cabalísticos por Pico, e o valor ou autenticidade dos mesmos, não podia deixar de se tornar num tema de discussão entre eruditos, daqueles que se comprazem a discutir a veracidade de factos, alheios à veracidade das ideias.   

Não é de espantar que todos os materialistas e positivistas se juntem no mesmo coro de desconfiança perante a origem dos manuscritos, que consideram um embuste. Afinal, são Incapazes de valorizar o seu conteúdo, já que recusam o saber superior que Pico reconheceu neles e que, por si mesmo, é suficiente para justificar o seu valor, seja qual seja a sua origem no tempo e no espaço.

Mas não são apenas estes os que menorizam Pico e lançam o seu desdém sobre os manuscritos de Esdras. Também de entre os que se dizem fiéis das Religiões do Livro surgem os defensores da estrita dogmática, que também afirmam a sua incompreensão para com os segredos perdidos da mais remota tradição talmúdica. Veja-se o que diz a New Advent - Catholic Encyclopedia: "Um impostor vendeu-lhe sessenta manuscritos Hebraicos, afirmando convictamente que tinham sido escritos por ordem de Esdras, e continham os segredos da natureza e da religião. Durante muitos anos Pico acreditou na Cabala e integrou essas fantasias nas suas teses filosóficas."

A esta podem juntar-se muitas mais apreciações e juízos negativos sobre esses manuscritos e as "suas fantasias"; e como explicam esses críticos que um homem da envergadura do genial Pico tenha sucumbido a tal vigarice??? Nada mais resta senão a seguinte conjectura: Giovanni estaria cego pela ambição de se apoderar das chaves da tradição mais antiga e valiosa...

É de crer numa tal explicação?

João Seabra Botelho

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