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João J. Seabra de
Sousa Botelho
intrépido e
errante
filósofo (desde a mais
tenra
idade).
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de
Heródoto
11/07/2007

Novos escritos
Nota sobre a actividade da classificação de
filósofos
21/08/2007
O ocaso do Reducionismo
07/09/2007
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CRIME E CASTIGO
A leitura de alguns dos mais famosos romances Russos era um enorme esforço para a
minha difusa memória. Nas "férias grandes" dos meus treze anos, agarrei-me ao
Dostoievski e ao Tolstoi, que nem um leão.
Eram livros grandes, cada um com
centenas de páginas. A grande complicação era fixar todos aqueles nomes, para
poder identificar correctamente os personagens... Eram todos aqueles "itchs" e "onovs"...
A quinta, perto de Coimbra, onde iniciei as minhas longas sessões de leitura dos livros da biblioteca do meu Pai,
era o meu espaço de "férias grandes", de Junho a Setembro. Nesse ano li, por
mero acaso, logo no início do Verão, uma breve referência à biografia do liberal
John Stuart Mill. Nas semanas de férias que se seguiram, essa leitura fez-me
acalentar a secreta esperança, (também na expectativa de agradar ao meu Pai,
como é próprio de todos os filhos) de poder desenvolver as minhas capacidades
intelectuais de forma semelhante à desse filósofo inglês, que desde criança fora
imerso na biblioteca do Pai e, ainda adolescente, era já um precoce e erudito
autor de ensaios filosóficos.
Mas se eu começara as minhas leituras muito mais tarde que ele, sem o intenso apoio pedagógico que ele
recebeu, e se a minha pobre memória nem aguentava os nomes das personagens dos
romances Russos, como poderia eu alguma vez atingir a excelsa sabedoria
enciclopédica daquele liberal, um devorador de todos os clássicos greco-latinos,
da patrística, dos escolásticos, dos renascentistas ou dos iluministas?
Não tinham, pois, passado ainda todos os meses das férias e já eu, entretanto, percebera que nunca iria possuir
aquela densa e luminosa autoridade da erudição... Não só por manifesta
incapacidade de memorizar grandes quantidades de informação, como pela crescente
necessidade de recordar, ou recriar, a minha própria memória ou reminiscência
das coisas. E, para fazer isso, tinha de calar as vozes dos outros, quando estas
se tornavam excessivas e impediam com demasiada frequência o meu próprio diálogo
interior.
"Crime e Castigo" foi, dos romances Russos que li, o que mais recordo. Não apenas pelo seu teor, mas porque
o li naquela fase da adolescência em que me vi banhado na desagradável angústia
que resulta de nos reconhecermos entre a inocência e o pecado. Esta tensão
existencial nasceu em mim como filha da doutrina católica do "pecado original",
que era difundida insistentemente pelos altifalantes da paróquia de S. Martinho
do Bispo, ali mesmo ao lado da minha quinta. Sempre que ouvia uma dessas
frequentes exortações ao cumprimento das obrigações religiosas, que o
voluntarioso e corpulento padre italiano (é verdade, um padre italiano em S.
Martinho do Bispo...) debitava pela instalação sonora da Igreja, o meu coração
ficava ligeiramente constrangido por aquela fina angústia...
Mas, por muito
frequentes que fossem essas admoestações, mais frequente ainda era a minha
necessidade de pecar...
A Natureza,
concluía eu para me acalmar e perdoar, suplanta facilmente a vontade de um
adolescente, mesmo que muito esforçada, porque multiplica indefinidamente as
tentações...
E, de seguida,
mergulhando novamente na leitura dos romances Russos encontrava a confirmação de
quão irresistível era a força dos impulsos que levavam ao Crime; algo
contrafeito, fui também levado a concluir que havia necessidade, ou
justificação, para o Castigo.
Obviamente, os meus pequenos
"crimes" de adolescente não eram comparáveis aos crimes descritos nas obras que
estava a ler, alguns dos quais me deixavam um pouco incrédulo e convencido de
que a ficção descrevia o que não se passava na realidade. Mal sabia eu que,
afinal, a realidade é sempre mais rica, variada e inesperada que a ficção;
ninguém imagina o que não é possível...
Talvez devido a essas
cargas emocionais que pululavam os livros dos adultos, a minha Mãe não achava bem
que eu tivesse acesso ilimitado aos livros do meu Pai.
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OS MISERÁVEIS A minha Mãe
começou a defender com mais empenho essa opinião de que eu lia o que não devia
quando um dia, tendo eu começado a ler "Os negócios do senhor Júlio César", de
Bertolt Brecht, lhe fui perguntar, com toda a ingenuidade, o significado de uma
palavra que acabara de ler nesse livro - a palavra "bordel". Como
conhecia bem a palavra "cordel", nunca me ocorreu que algo tão parecido tivesse
um significado minimamente malicioso...
A minha mãe não me deu, claro, o significado da palavra... Passado o espanto, ficou simplesmente furiosa comigo
e, apesar de não me tirar o livro, para não contrariar a opinião do meu Pai,
comentou entre dentes:" eu sempre disse que estas leituras são um disparate
!"...
Curiosamente, eu percebi
imediatamente que algo pecaminoso estaria associado à palavra. Corei de vergonha
e de sentimento de culpa, como se tivesse acompanhado o
Júlio César e os amigos na ida ao bordel...
Mas depois, já com mais calma,
não deixei de recorrer ao Dicionário, acicatado pela curiosidade. Mas no
Dicionário também não encontrei solução para o problema... De um momento para o
outro, em vez de uma, tinha três palavras com significado desconhecido: bordel,
prostituta e meretriz.
Passar agora ao
segundo Volume do pesado Dicionário, encavalitado lá no alto da estante, para
ver os "m" e os "p", dava muito trabalho... Como já estava na hora de ir
espairecer um bocado, decidi ir até à horta, para recorrer à sabedoria popular
do caseiro da quinta, o António Francisco, com quem tinha a familiaridade que
não tinha com os meus Pais.
Descalços os dois, com os pés
enterrados na terra mole por onde corria a água fresca que vinha do poço, e tal como ele,
também eu de sacho na mão a abrir e fechar as regadeiras que levavam a água até
às várias leiras, lá arranjei
coragem, mais perto do pôr-do-sol, (hora propícia a confidências...) para lhe
confessar a minha ignorância e perguntar o que queriam dizer as palavras bordel,
prostituta e meretriz.
Bordel, disse-me ele sem hesitar,
um segundo depois de ajeitar o cigarro meio queimado ao canto da boca, era uma dessas
"casas de meninas da vida", como havia em Coimbra... Quanto às tais prostitutas
ou meretrizes, eram exactamente essas "meninas da vida", que vivam de
fazer sexo com
quem pagasse...
Caíram-me os queixos...
Extraordinária e brutal revelação! Olhando o céu
alaranjado do poente, eu tentava assimilar e encaixar as novidades - então
podia-se pagar pela prática sexual? Na minha imaginação, o sexo era a expressão do
amor; afinal, parece que se podia comprar, como quem compra um gelado ou
um chocolate... Ah, claro, e assim como ser guloso é um pecado, pagar pelo sexo
também devia ser pecado... Daí a reacção furiosa da minha mãe... Que bronca!
Continuei a fazer perguntas ao
caseiro, com um ar de indisfarçável espanto e consternação que, se não fosse o lusco
fusco da hora tardia, teriam feito rir o António Francisco às gargalhadas...
Finalmente, quando o sino de casa começou a tocar para a janta, concluí que todo aquele
assunto do sexo teria de ser reavaliado mais tarde. Para já, ficara com a
impressão de que o sexo podia transformar-se num tema bastante sórdido.
E já a caminho de casa, no
silêncio daquele fim de tarde, fui interrompido nas minhas agitadas cogitações
pelas exortações do altifalante da Igreja, a lembrar o terço das sete. A inocência
do amor combatia o pecado do sexo.
Penosa e pesarosamente, comecei
naquele Verão a aperceber-me da ponta do iceberg da chocante miséria humana, que
depois nos vai impressionando e chocando pelo resto da vida... Mas
só alguns anos depois daquela primeira visita ao bordel é que passei pelos "Miseráveis", do Vítor Hugo, e só nessa
idade mais tardia é que consegui perspectivar a miséria humana na sua dimensão
histórica e social; para já, naquelas férias de puberdade inquieta e curiosa, fiquei-me por um
primeiro mergulho individual e intimista no Crime e Castigo. Mergulho
suficiente, porém, para me deixar a marca da inquietação e culpa, que até ali nunca sentira,
e que nos faz sentir miseráveis.
Logo nas semanas que se seguiram a
essas inquietantes descobertas, e nas oportunidades que os bailaricos da aldeia
me proporcionaram de trocar algumas carícias com uma moçoila da terra, senti a
presença incómoda desse estigma.
Definitivamente, alguém me roubara
a minha anterior inocência e saudável naturalidade.
(Escrito a
4 de Maio de 2007 )
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