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João J. Seabra de
Sousa Botelho
intrépido e
errante
filósofo (desde a mais
tenra
idade).
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de
Heródoto
11/07/2007

Novos escritos
Nota sobre a actividade da classificação de
filósofos
21/08/2007
O ocaso do Reducionismo
07/09/2007
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O ESTUDO E O JOGO
Frequentei um número considerável
de instituições de ensino desde a minha escola Primária até à universidade.
Estive tanto no ensino "particular" como no "oficial", designações que, depois
do 25 de Abril, foram substituídas pelos termos
ensino "privado" e "público", já que o Marxismo nos
enxertou bem fundo essa oposição entre o "público" e o "privado". Ainda há poucas
semanas, trinta anos depois do 25 de Abril, vi mais um grande placard com o
seguinte slogan " O que é público é nosso!" (A experiência mostra-me
que, normalmente, o que é "público" é só dalguns, que ninguém sabe exactamente
quem são...)
De todo o meu percurso estudantil, recordo que
só na escola primária e na universidade é que me senti entusiasmado e
sinceramente interessado na frequência das aulas... Na escola primária era o meu próprio
deslumbramento pelas novidades - o escrever, ler, contar - que tornavam as aulas
interessantes; mas o simples facto de haver aulas em que era necessário fazer repetições e revisões,
para aqueles que não tinham o mesmo interesse que eu, e rapidez, na
aprendizagem,
já me provocava imenso enfado, a que se seguia a distracção e, por vezes, a indisciplina.
Na universidade, o
interesse em frequentar as aulas deveria, em princípio, resultar do interesse em ouvir o
professor... Espera-se que o professor universitário seja um investigador, um
autor, não apenas o papagaio que repete as falas dos outros!
Mas essa expectativa
raras vezes se concretizou na minha atribulada vida universitária, abruptamente
interrompida por uma revolução... De facto, a maior parte dos professores que
tive, tanto antes, como depois da Revolução, não colocavam a autonomia e a
criatividade acima da erudição. Preferiam coleccionar certezas a cultivar
dúvidas, preferiam o conforto da imitação ao risco do improviso, enfim, eram
professores, não Mestres.
Em relação ao secundário, tive
sempre pouco interesse pelas aulas, que eram, na maior parte das vezes, maçudas, monótonas e
monocórdicas, num velho e gasto estilo do "magister dixit" - um professor, ou
professora, a falar, a falar, a falar, expondo a "matéria" que deveríamos absorver,
numa perspectiva enciclopedista, em que tínhamos de decorar coisas tão inúteis e
enfadonhas como o tipo de recorte das folhas das árvores, ou as cadeias
montanhosas de um Continente, ou as toneladas de trigo produzidas por um país...
O preceito pedagógico da época, que dizia ser ensino aquela forma de obrigar a memorizar
dados informativos, estava
totalmente errado. Bastou a revolução informática e a Net para a informação
estar de tal modo disponível que até os idiotas do Ministério da Educação
começaram a perceber que ensinar não é transmitir informação, é mostrar como
usar a informação de forma inteligente.
Entretanto, enquanto a Escola falhava em cativar o meu entusiasmo e
interesse, fora dela fui descobrindo o jogo, ou os jogos, que
passaram a ocupar cada vez mais tempo nas minhas actividades diárias.
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Aí sim, nos jogos, estavam as
características necessárias para atrair um jovem adolescente - a competição, a
interactividade, o espírito de equipa, a surpresa, os desafios, as decisões rápidas. Mas
os jogos foram-me levando, progressivamente, para lugares de
rebeldia e fuga ao quotidiano disciplinado e autoritário, lugares onde passava horas de
excitação a queimar o vício que os jogos nos injectam. E, sem aparente cansaço, ficava
absorvido a jogar - fosse cartas, bilhar,
matraquilhos, snooker, ping-pong, cavalinhos, poker de dados, enfim,
qualquer coisa era mais interessante que ficar horas a decorar compêndios pouco
interessantes... Entretanto, lia imensos livros, mas essas leituras só tinham
uma relação indirecta com os meus estudos, e com algumas disciplinas em
particular, como o Português, o Francês, o Inglês, a História e a Filosofia.
Entretanto, a minha
passagem para um liceu misto, o Liceu Francês, abriu-me também novos horizontes
e relações. Começou então a idade dos namoros. É desnecessário salientar a
importância dessa data.
O TEMPO DOS NAMOROS
Sem momentos ou causas de grave
perturbação, a puberdade e a adolescência, isto é, a idade dos namoros, pode ser das
fases mais felizes da vida de uma pessoa. Pelo menos, foi assim que se passou
comigo...
A vivacidade e a
frescura com que se passam esses anos fugazes deixam memórias inesquecíveis.
Sorte, naturalmente, a daqueles que, como eu, não viram a sua adolescência perturbada por
acontecimentos devastadores, como os que vemos nos noticiários de todos os dias,
a afectar ou destruir a vida de tanta gente... No entanto, eu sabia que, no
final da minha carreira de estudante, teria de
ingressar na guerra colonial. Apesar dessa ameaça pendente, e de ver à minha
volta as consequências da guerra, vivi despreocupadamente a
minha juventude. Só posso estar grato por isso, especialmente aos meus Pais...
Mas essa
despreocupação também tinha outra causa.... Embora eu não tivesse a menor
suspeita de que iria ocorrer o 25 de Abril e o fim da guerra colonial, desde
pequeno que, no meu íntimo, tinha uma premonição, uma quase certeza de que nunca
entraria na tropa... E foi essa certeza que me permitiu evitar qualquer tipo de
ansiedade, ou mesmo angústia, perante esse destino bélico anunciado.
E a minha
premonição aconteceu!!! Sorte? Mera coincidência? Ajuda divina? Não sei... O
facto é que, no ano em que iria ser forçado a entrar na recruta, acabou a
guerra... E como já estava casado, passei de imediato à reserva territorial.
Nunca pus os pés num quartel...
continua....
05/07/2007
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