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Colaboram:

Luis Furtado

João
Seabra Botelho
Francisco
Moraes Sarmento
«banner» de
João-Pedro Rocha
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«O Filósofo»
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A MINHA TIA-AVÓ (DE TRÁS-OS-MONTES...)
Foi com seis anitos que conheci a
minha tia-avó, de seu nome próprio Isabel Adriana Botelho de Sampaio e Sousa Correia Guedes do
Amaral, a que juntou o apelido de casamento, Bacelar. De "petit nom", era Micas.
O marido, Miguel Bacelar, era um
homem alto e corpulento, ao contrário da minha tia, mulher com apenas metro e
meio de altura, mas muito senhora do seu nariz, nariz aliás bastante saliente.
Oficial de Cavalaria, o meu tio
participara na Primeira Guerra Mundial, e sofrera as consequências nefastas do
gaseamento nas trincheiras. Talvez por isso, quando o conheci estava já muito
debilitado, e reduzido a cadeira de rodas.
A minha tia, pelo contrário, nada
tinha de débil, e chefiava duas casas - já que o marido se encontrava
incapacitado - a dos Botelhos, em Alvites, Trás-dos-montes, e a dos Bacelar em
Valemelhorado, Felgueiras, no Minho...
A minha tia deslocava-se num
imponente Zephyr, com motorista, carro que tinha sido usado por Norton de Matos
na sua campanha pelo Norte. Católica ultramontana, a minha tia deve ter sentido
algum gozo em comprar a viatura a preço de saldo, assim que as eleições ditaram
a derrota do candidato laico, republicano, maçón e anti-clerical.
Foi ao fim da tarde, na estação da
Campanhã, acabado de chegar de Lisboa, que vi pela primeira vez a minha tia, que me fez
entrar no Zephyr para fazermos a longa viagem até Alvites, perto de Mirandela.
Eu adormeci rapidamente, e dormi um bom par de horas até acordar com uma
travagem súbita e algumas vozes alteradas. Estremunhado, tento perceber o que se
passa. Vejo então, lá fora, no escuro da noite, parado na frente do carro, um
vulto com dois olhos amarelados e brilhantes fixados em mim, um focinho com dois
dentes caninos bem salientes e uma língua ágil e arfante.
"É um lobo, Senhora Dona Isabel!" disse
Joaquim, o motorista. "Eu sei que é um lobo... Faça qualquer coisa para o
assustar, não vamos ficar aqui toda a noite a olhar para o bicho!!!",
respondeu-lhe a minha tia Micas.
O Joaquim lembrou-se de tocar a
buzina. Uma, duas, várias vezes; um som algo roufenho foi ecoando na noite, sem perturbar o lobo,
que parecia sorrir com o insólito daquela situação. Não me esqueço do
brilho dos seus olhos, nem da aparente calma com que nos fixava. Novos toques de
buzina, sem sucesso. Finalmente, o Joaquim lembrou-se de desligar os faróis por
alguns momentos. A escuridão da noite envolveu-nos... Foi então que os olhos
amarelos, ainda a brilharem no escuro, se afastaram lentamente... Quando o
Joaquim ligou novamente os faróis, já só vi uma cauda a desaparecer nas moitas que ladeavam a
estrada. Aliás, não vi uma, mas duas, porque era, afinal, um casal, mas um dos
animais mantivera-se oculto na berma da estrada.
Até que enfim! - comentou a Tia
Micas.
Acelere, Joaquim, acelere -
ordenou em voz seca e imperativa - que já estamos atrasados para o jantar e os
meninos estão cheios de sono, coitadinhos.
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Este episódio marcou, na minha
lembrança, o início de um curto mas intenso tempo mágico, todo ele ligado às minhas mais
próximas raízes familiares, mas vivido num longínquo e exótico Trás-os-Montes,
separado por um fosso abissal da vida citadina a que estava habituado.
Guardo memória de muitas
diferenças que me surpreenderam - a cozinha gigantesca, com as panelas de ferro
suspensas sobre um lume verdadeiro, de labaredas crepitantes e perfumadas; as
camas de lençóis de linho, aquecidas à hora da deita com uma braseira de cobre
de cabo longo, em madeira, que permitia empurrar a braseira para debaixo dos
lençóis como quem mete um pão no forno; a dispensa cheia de potes de azeite,
tigelas de marmelada e castanhada, frascos de compotas e frutas cristalizadas,
armários cheios de louças, faqueiros, toalhas e guardanapos; a criançada toda a
brincar no terreiro em frente à casa, onde passavam carros... mas de bois. E a
culminar as aventuras desses dias, uma corrida de burros, uma burricada pelas
ruas da aldeia que foi a minha primeira experiência de solavancos provocados por
quatro patas, e não quatro rodas.
Mal sabia eu, quando reentro no
Zephyr para fazer a viagem de regresso ao Porto, e daí para Lisboa, que o olhar
que lancei em redor para tentar gravar na memória a casa de Família seria
inútil, já que só lá voltaria vinte anos depois, intervalo demasiado longo para
manter viva essa imagem; não tendo sido novamente refrescada, essa imagem,
naturalmente, feneceu...
A minha Tia Micas trouxe-nos de
volta ao Porto e, na despedida, perdeu por momentos aquele seu ar duro e
imperturbável, e deixou cair umas lágrimas enquanto nos beijava, a mim e aos
meus irmãos. A Tia Micas não tinha filhos, e nós éramos netos do seu único
irmão, falecido relativamente novo... Naturalmente, emocionou-se.
Ainda nos vimos mais dois ou três
anos, nas férias, mas sempre no Minho, nunca em Trás-os-Montes...
Mal me apanhei com as
prerrogativas da adolescência, optei sempre por férias na praia, e não voltei a
casa da Tia Micas e às enfadonhas férias campestres.
Um dia, recebi a notícia da morte
da Tia. Faleceu exactamente a 25 de Abril de 1974, o dia da chamada "Revolução
de Abril", como que a deixar bem claro que nada tinha a ver com este novo ciclo
histórico. Dado que a Revolução perturbou bastante a vida do meu Pai, ele não
deu a devida assistência ao processo da herança, nem se preocupou com o teor do
testamento. Resultado: o catolicismo ultramontano da minha Tia deu o seu último
suspiro - mas um bem profundo e sonoro suspiro - ao deixar em testamento o
usufruto de toda a propriedade de Alvites, durante VINTE ANOS, ao padre da
Paróquia!!! Esta espantosa e anacrónica realidade - um elemento do clero a
aproveitar-se, de forma mesquinha e gananciosa, do seu lugar de assistente
espeiritual no leito de morte de uma viúva abastada, concretiza-se juridicamente
durante o período conturbado do PREC, em que novas e democráticas figuras
juridicas vão permitir ao padre executar o seu plano ultramontano... Para tal,
criou uma fundação da qual foi, obviamente, o eterno presidente, e assim geriu a
propriedade e o usufruto a seu bel-prazer. Assim, de 1974 a 1994, um padre,
certamente destinado ao Inferno, enriquece alegremente, nos confins
imperturbáveis do Portugal Profundo e perdido no tempo, enquanto todo o País em
seu redor se altera radicalmente, e o Diabo ri às gargalhadas...
A este painel de curiosidades,
posso ainda acrescentar que a minha Tia Micas é também tia-avó de D.Isabel de
Herédia, casada com D.Duarte de Bragança. Mas a história do solar Botelho em
Alvites não acaba aqui. Irei contar-vos a seguir o que se veio a passar quando
lá voltei, em 1986, acontecimentos que envolvem alguns nomes conhecidos da
literatura portuguesa e ...holandesa ( ou não tivéssemos "aderido " à Europa!
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