Sentimentologia – Excursão IVEpitímiaA epitímia, o desejo ou o desiderium latino, é o sentimento que completa uma
tríade composta ainda pela eutímia, ou tranquilitas e a protímia ou perseverantia, de que já falámos. |
Herói, sem dúvida, terá de ser aquele que queira e ouse controlar, sem anular, o dionísico desejo, que ameça sempre decaír, nos tempos antigos como nos de hoje, na violência, na antropo-phagia, na orgia. Herói, sem dúvida, terá de ser aquele que consiga, no orgasmo, redirigir para o timo, ou tino, e deste para a pineal, ou pinha, a irradiante energia amorosa, para que esta ilumine a consciência e permita activar o intelecto passivo. Para esta finalidade dois percursos se apresentam plausíveis. Apesar desta ascese ter sido interpretada e protagonizada em todas as culturas e cultos, nas mais diferentes formas, creio que ela se reduz, ao fim e ao cabo, apenas a duas vias contrárias, a saber: - uns, como seria o caso, por exemplo, dos Cátaros, cumpririam a necessidade de sublimar em puro sentimento amoroso o desejo erótico, mantendo e aperfeiçoando um intenso jogo de sedução e entrega, mas extirpando-lhe qualquer efectiva actividade sexual; e, em caso extremo, como no Tantrismo, chegando mesmo esta prática a querer evitar radicalmente a ejaculação, por considerá-la uma perca lastimável de energia vital, metabólica e metamórfica. Esta “via negativa” preconiza então que a energia erástica, retrocedendo e não se transmitindo ao parceiro amoroso, suba pela árvore da espinal medula e efloresça na copa, ou cérebro, para soltar a alma do corpo, soltar os sentimentos dos sensos, soltar a inteligência da mente. A “via negativa”, que mais aspira à philia que ao eros, podendo socorrer-se dos phil-tron, filtros ou poções vegetais capazes de potenciar, no sistema nervoso vegetativo, o inebriante anelo amoroso, estigmatiza, óbviamente, a consumação do desejo sexual. Os primórdios míticos da humanidade, com suas sodomas e gomorras, lembram a incontornável necessidade de uma redenção - redimir ou re-timir. - outros, porém, consideram como exemplar a união singular dos amantes, e tomam a presença do Desejo que os atrai como uma emanação do Amor Divino que se manifesta na Criação e nas criaturas que nela perduram e para ela contribuem. Nesta “via positiva”, portanto, podem ser ordeiras a união sexual e a consequente “multiplicação” das criaturas, e assim são alegremente celebradas pelos deuses, como afirma Platão no seu Symposium em louvor a Eros, ou plenamente abençoadas pelo Único Deus, na sacral tradição adâmica, consagrada a partir do hanif Abraham e sua santa prole, e relatada em Livros Sagrados. Ora, muito pouco seria dito sobre esta “via positiva” se, como até aqui, continuássemos centrados sómente em temas Helénicos, porquanto esta via desidérica não teve feliz continuidade na Grécia, apesar de Platão e do seu Banquete. A sociedade Helénica, como é sabido, veio a constituir-se, desde as reformas de Clístenes, num regime de vizinhança, não de consanguinidade familiar, e assim se desenvolveu. As tribos, rigorosamente divididas e espalhadas pelas dema, foram hábilmente forçadas pelos seus argutos arcontes e legisladores a desenvolver novos laços de convivência, laços políticos, consensuais mas não consanguíneos, de base dialogante mas abstracta, já que abstraída dos laços epitímicos do sangue, do costume e da empatia da proximidade. Assim se foram implantando os usos e os orgãos da Polis, desfazendo e substituindo os laços originários da consanguinidade familiar. A Ágora substituíu a reunião em torno das comuns ofertas sacrificiais. A Academia substitui a refeição e o convívio familiar dos pais com os filhos. Neste assomo da sociedade gregária e urbana, é tempo, então, de novos heróis. É tempo do herói protímico, cultor da preserverantia, como um Demóstenes! Vêmo-lo a correr na praia, a ganhar fôlego, com a boca cheia de pedras para treinar a dicção e superar a gaguez; tem de ganhar novo ser, nova dimensão, pois já não se trata de dirimir o pleito da herança paterna, perante o modesto juiz da sua dema, e em que se reconheceu como orador. Trata-se agora de discursar na imponente assembleia de Atenas e decidir momentosas questões como a resistência aos poderes opressores de Persas ou Macedónios. O daimon Eros vai cedendo a sua aura divina, perante o Logos a que recorrem os novos heróis para, na Ágora, en-tusiasmar os Atenienses. O timo, coração do desejo, ouve as batidas fortes do coração sanguíneo, o coração da vontade férrea e marcial É tempo, também, do herói eutímico, cultor da tranquilitas, como um Aristóteles! Em nada, é certo, deprecia Aristóteles a relação marital e o amor, e no silogismo pratica até a conjugação dos logismos no amor à verdade! Mas, no seu notável sistema tanto eleva e desenvolve o saber logóico, o discurso e a racionalidade, que os seus epígonos acabam também por esquecer e cobrir de silêncio os antigos e misteriosos processos sóficos, a entusiamente tradição sacrifical órfica e dionísica. Nos séculos vindouros, de que não se viu ainda o fim, cede-se a primazia à apolínea aretê, educam-se as almas jovens para desejar e alcançar virtuosos e fleumáticos, senão apáticos, estados de espírito, e assim se aconselham os citadinos a que se aquietem e imobilizem numa plácida eudaimona, ou felicitas. O contrário, diríamos, se passou com os Hebreus. Igualmente propensos, como os gregários Helenos, à inspiração pela Palavra, mas sempre nómadas ou em diáspora, tribais, de inquebrantáveis raízes familiares assentes em sangue purificado pela circuncisão e pelo rigorosíssímo controlo do vínculo maternal, o povo Hebreu viveu na Antiguidade, e exaltou como nenhum outro, a “via positiva” da relação amorosa. Desde logo, relacionando amorosamente todo o Povo com o seu Deus e, daí, desenvolvendo depois toda a via mística de consagração do amor entre os humanos. Não que os Hebreus não tivessem também testemunhado os demoníacos excessos do orgiástico desejo, mas estes foram lavados com a baptismal água do Dilúvio; também sofreram a erupção desregrada dos tumores linguísticos, os dialectos que o vapor tímico, subindo a traqueia ou torre de Babel, espalhava pelas terras do mundo, em profana ocultação da fala adâmica. Até que chega a nova era, do segundo pai adâmico, o hanif Abraham. Interpretam alguns autores o sacrifício de Isaac como simbolizando o fim dos sacrifícios humanos. Creio que é bem mais do que isso! Não faz sentido procurar entender o sacrificio de Isaac sem atender a que este sacrifício é a sequência imediata, e culminante, de uma anterior intervenção divina. Abraham e Sara confrontam-se com a esterilidade, o pior castigo. Perante a frieza tímica da mulher, Abraham concebe um filho com Hagar, mulher africana. Até que, um dia, uns estranhos visitam Abraham e sentam-se com ele ao crepitar da lareira que o pastor viandante diáriamente acende para assistir ao poente transversal. Na tenda, estava Sarai, a princesa que ri, preparando a refeição, quando ouve um desses visitantes dizer que ela iria conceber. E riu-se. Na sua idade, há muito sem ciclo menstrual, essa profecia era irrisória. Nada mais é dito sobre o que se passou e como recuperou Sarai a fertilidade. Mas Isaac nasceu. E Abraham vê-se duplamente enobrecido no seu poder paternal, pai natural com Hagar e Ismael, pai sobrenatural com Sarai e Isaac. E regozija-se com a generosidade divina, e nesse regozijo se alimenta a semente secreta do orgulho, qual gota do sangue dos Titãs. Chegados a este ponto, divergem as interpretações dos Irmãos Semitas! Uns, os que descendem directamente de Isaac, dizem deste o que mais o honra; os que descendem directamente de Ismael, deste dizem o que a este o mais honra também. Que importam as divergências? Honra aos profetas! Vai consumar-se o sacrifício. Abraham, como José, o Carpinteiro, assiste ao milagre da paternidade sem dele participar em espírito activo, já que fora Sarai, e não ele, quem recebera sobrenatural benção no mais íntimo das suas entranhas, tal como, já antes, naturalmente abençoada fora a sua outra mulher, Hagar, e não Abraham! Abraham, que sabia estar atento ao Espírito Angélico nas solitárias noites estreladas, não sabia estar atento a esse Espírito na intíma união marital, no entusiasmo orgástico em que concebera seus filhos. A epitímia, a energia viril assim sentida, nada revelara ainda à sua consciência... Faltava o sacrifício... E foi assim que, um dia,
já os filhos criados, Abraham é chamado pelo Espírito Santo, em imperativa voz íntima, a concluir o ciclo da sua era! Eis o saber
recordado na nova lição: se o homem concebe, ou nasce, é por mando divino. Se o homem mata, ou morre, é por mando divino.Abraham presta-se, submisso ou islam, a cumprir a outra face da revelação! Primeiro, toma o filho Ismael e a mãe, a egípcia Hagar, mulher africana que não cumpre os preceitos sacrificiais dos Hebreus, e leva-os ao Vale Sagrado, onde os deixa entregues ao deserto, à morte ou à vida, conforme o Desejo Divino. Depois, segundo a tradição do seu Povo, prepara com Sarai a vítima sacrificial, Isaac, o filho do riso. Sabia já Sara, intimamente - mas não o disse a Abraham, não saberia como! - que não era a Issac que se destinava o sacrifício da morte, dado que Isaac já nascera como filho do espírito, não da carne. O sacrifício destinava-se a Abraham, naquele momento ainda imbuído do natural vitae nescisque potestas, o poder de vida ou morte do pai de família! Com este sacrifício, Abram iria transmutar-se, seria Abraham, o Patriarca, o que firmou b´rit, ou convénio, com o Altíssimo. Por isso, quando Sarai viu pai e filho afastarem-se em direcção à pira, no topo da montanha, não se angustiou. E um breve sorriso tocou-lhe a face. “Sarai, a princesa que ri”, pensou Abraham, quando se voltou para trás, nesse momento, acenando em despedida, com sombria e tumular tristeza, e vê a mulher, ao longe, com um eutímico sorriso nos lábios. O que depois se passou é Tradição; enquanto Hagar dava sete voltas ao Vale, à procura de socorro, e Abraham levantava Isaac e o deitava sobre o altar, aconteceu a intervenção Angélica, do roh al-Qudus. Ao contrário da intervenção do Espírito Santo, roh al-I’dhafi, que vem do interior do mais íntimo, e ilumina cada um em si, do mesmo para o mesmo, antes de ser aparente aos outros ou deixar vestígios como a pomba, a voz interior, a aura, ou a flama que paira sobre a cabeça, o Espírito Angélico vem do mais exterior do externo, do outro enquanto outro, que já é aparição antes de ser compreensão e logo marca, muda, manda, impõe, com suas espadas flamejantes! Para Hagar, o Anjo fez jorrar a água do poço Zam Zam, e Ismael sobreviveu. Para Sarai, o Anjo trouxe o cordeiro, que entregou a Abraham, e Isaac sobreviveu. Assim creio que se animou, e sobreviveu através dos tempos, a via do timo. Pois não separou Moisés as águas do Mar Vermelho, como quem separa o vermelho coração sanguinolento e voluntarioso das águas do coração tímico, obediente e sacrificial? E não é, séculos depois, nesse mesmo coração aquoso ou linfático que um soldado romano, num momento de eterna solenidade, espeta a lança do destino, assinalando aos esperançosos caminhantes que, no seio da já infernal vida entre os nascidos da carne, se mantém aberto o portal para a ascensão ao céu dos renascidos do espírito? E não tinha dito Jesus aos discípulos, umas horas antes da Cruz: "Com desejo ardente desejei celebrar este repasto de Páscoa convosco, antes de sofrer." Lucas, 22:15 Em aramaico, está bem dizer: “com desejo ardente, desejei”. Não é erro de tradução! Trata-se da epitímia, transfigurada na Páscoa, com a consumação do sacrifício tragoidico ou trágico do Agnus Dei, o Verbo que é Amor, não só Razão. E não foi Thomé, o discípulo thumico, que nessa chaga aquosa tocou? Para certificar-se que o Mestre estava vivo, não era um espectro, Tomé usou o tacto, filho do timo, o senso primacial. O que se conta sobre Tomé deixa suspensa a nossa ignorância sobre o muito que ainda há por tocar... E não foi de Muhammad, o Profeta, que recebemos explicação dos sacrifícios, ao dar voz a esta fala Divina: - "Quem Me procura, encontra-me! Quem Me encontra, conhece-Me! Quem Me conhece, ama-Me! Quem Me ama, Eu sacrifico! A quem Eu sacrifico, devo compensação de sangue. A quem Eu devo a compensação de sangue, a compensação sou Eu! Na actual perspectiva rectilínea da ciência Evolucionista, foi em muitíssimos milhões de anos que se deu a formação dos astros e das espécies, sendo a espécie humana filha de um certo desenvolvimento das funções cerebrais que supostamente cresceram e se foram ampliando, gerando o epifenómeno da consciência. Quem nos descreve, então, o movimento inverso, de involução, que levou uma glândula, o timo, a retroceder? Hoje, os Cientistas apenas constatam que o timo só se desenvolve até à puberdade, e que depois, sem causa identificada, entra em degradação, até ao fim da vida. Tão atreitos e atentos à causalidade glandular, estranho é que nada digam sobre as consequências desta involução. Entretanto, constatam outros: a Razão associa-se à Vontade, em desfavor do Desejo, da epitímia, que queda desvalorizada como luxúria, libido, mero apetite. Para a Razão Animada, contudo, uma coisa parece certa: o Logos, sem Amor, queda Razão Hirta. E os Titãs, de hoje e de sempre, que se escondem, como os jinn, no tempo vertical, vão tentando esquartejar o nosso corpo. Embrenhados em nossos dias rolantes, servos do tempo horizontal, saberemos esconder deles o nosso coração aquoso? in Leonardo, revista de filosofia portuguesa, Fevereiro 2010 regresso à pag. anterior |